terça-feira, 16 de março de 2010

Mondim de Basto - Rio Tâmega: Afogar a História

Mondim de Basto - Rio Tâmega
Afogar a História


Dói-me que um lençol de água estagnada, verde, podre e eutrofizada, da futura barragem de Fridão, vá cobrir, vá esconder, vá apagar, vá varrer, para todo o sempre, das nossas retinas esbugalhadas, a sublime contemplação da Ponte de Mondim suspensa sobre um açude coalhado de moinhos. Erecta, por decreto de Dona Maria em 1822, a jusante dos históricos quatro arcos de pedra e madeira que serviam de travessia (anteriores a 1549), teve como responsável pela construção o fidalgo José de Ataíde Portugal e Castro Pinto Coelho, Bacharel em Leis, Juiz de Fora em Lamego, Juiz dos órfãos em Bragança, residente em Mondim de Basto, onde viria a contrair matrimónio com Delfina de Moura Teixeira Moreira em 22.04.1809.
Dói-me constatar que irão permanecer submersas “ad aeternum”, as fragas por onde desfilaram as legiões imperiais de César comandadas pelo Consul Décio Juno Bruto, à conquista da Calaecia, no século II antes de Cristo, e de Napoleão, comandadas por Loison, o famoso maneta das atrocidades, na Primavera do ano da graça de mil oitocentos e nove da nossa era.
Dói-me saber que vão ficar silenciados os ecos da batalha travada, contra os franceses, pelas heróicas Milícias da Região e pelos destemidos caçadores do Monte de Basto capitaneados pelo famoso guerrilheiro Frei António Pacheco.
Dói-me ver desaparecer, debaixo de água, os testemunhos das travessias de D. João II, de Frei Bartolomeu dos Mártires, dos milhares de peregrinos que de Lamego, e por Santa Senhorinha de Basto, se dirigiam a Santiago de Compostela, de Camilo Castelo Branco em fuga da Quinta do Ermo, em Fafe, com destino a Samardã, da insurreição monárquica do Padre Domingos, que ali, no meio do tabuleiro, mandou lançar os bacamartes e as clavinas ao fundo do Rio.
Dói-me que os moinhos de linho, do pão, e do pesqueiro que El-Rei D. Dinis outorgou à Casa do Outeiro sejam, criminosamente, silenciados por uma massa disforme de escuridão.
Dói-me que o Açude do Padre João possa mergulhar no esquecimento levando consigo as histórias das travessias a vau, da moagem e das maquias, das incursões dos bandoleiros (capangas do José do Telhado, do Manel da Barca de Atei e do Tibúrcio da Anta), das jornadas dos recoveiros e mensageiros e das aventuras dos pescadores das chumbeiras urdidas, na Rua Velha e no Canto da Capela do Santíssimo Sacramento e da Paixão do Senhor, pelas rendilheiras de Mondim de Basto.
Dói-me ver desaparecer o Calhau de Pena, fraga da “cabeça” dos Celtas, petouto dos sacrifícios e das imolações, ara de decapitação dos prisioneiros e do lançamento dos corpos para a corrente.
Dói-me que seja desmantelada a Ponte de Arame de Lourido, ponte pênsil que os “Galinhas de Codessoso, um dia, também desmantelaram, a mando da tropa de Amarante, para travar os de Vila Real.
Dói-me que seja arrasada a magnificência do Vau das Sete Fontes e do Vau dos Barões (entre Paradança e Arnóia) e toda a sua história inenarrável e que seja destruída a memória do assassinato praticado pelo “Quijo”, crime que acabaria por o sentenciar ao patíbulo, no ano de 1840, na qualidade de último enforcado da Vila Nova de Freixieiro e do concelho de Celorico de Basto.
Dói-me que se esfume o arco Romano-Medieval de Vilar de Viando e o mítico lugar da Chavelha, braços de ligação, travessias sagradas e caminhos velhos do mundo, por onde Faros e Linceus, Bubalos, Equaesios e Souseus, Celtas, Nemetanos, Romanos, Franceses e peregrinos de Santiago deambularam e construíram os seus destinos.
Dói-me que se afoguem as figuras humanas pré-históricas e as carrancas dos celtas esculpidas nas fragas e nos patamares do romântico moinho e que se oculte, para todo o sempre a ara do Calhau Furado.
Dói-me que se desvaneça o culto de Apolo que marcou aquelas margens, o culto das travessias, e mais tarde o culto do Senhor da Ponte, em honra do qual se viria a construir (sobre o túmulo de um centurião romano) a encantadora capela, com o mesmo nome, engalanada com pinturas naif, para albergar o antiquíssimo cruzeiro de granito, famoso pelos milagres realizados, por promessa de um casal de moradores. Para montante da Ponte de Mondim os crimes continuarão e o lençol opaco e mal cheiroso abafará, sem apelo nem agravo, as margens idílicas por onde D. Nuno Álvares Pereira monteou veados e javalis, adestrando o seu exército pessoal para a batalha de Aljubarrota, destruirá a estrutura dos Sete Moinhos, cobrirá com um manto de vergonha a Fraga Amarela dos antigos cultos ancestrais, ameaçará os vestígios arqueológicos do Castro de Canedo e Castelo de São Mamede, alagará a Ribeira de Pedra Vera, destruirá o Calhau dos Mouros e tapará a saída lendária da Mina do Monte dos Palhaços, que corre oito quilómetros desde o alto de Nossa Senhora da Graça para desembocar no Calau do Furato (Pedra Furada) na margem esquerda do nosso Tâmega sagrado. Dói-me que seja assim amputada a mais extraordinária lenda de tesouros escondidos deste concelho, que seja silenciado o choro da moura encantada que guarda na gruta o bezerro de ouro, (uma cópia do bezerro que foi forjado por Aarão com os brincos e as pelicanas das mulheres judias enquanto Moisés recebia no Monte Horeb os Dez Mandamentos nas Sagradas Tábuas da Arca da Aliança), que sejam riscados do mapa todos os segredos e mistérios que só o Livro Velho de São Cipriano poderia desencantar.
Dói-me que se arrasem as poldras e o ladrilhado da travessia de Porto Carreiro, ligando Atei a Vila Nune, Canedo, Arco e Santa Senhorinha de Basto, caminho pré-romano e ligação medieval para devotos e peregrinos de Santiago.
Dói-me que desapareça o pré-histórico lugar da Barca e de Laré e que se passe uma esponja irrevogável sobre a memória dos habitantes de Atei afogados quando regressavam das festividades de Nossa Senhora dos Remédios, no Arco de Baulhe.
Dói-me conceber que um charco de água parada possa fazer dissipar o local da documentada travessia do Conde Léon de Rosmithal, cunhado do Rei da Boémia, proveniente da Polónia a caminho de Santiago de Compostela, no ano de 1465.
Dói-me que se destrua, impunemente, o tabuleiro Romano sobre o Póio, o Alvadia, o Cabresto ou o Útero da ancestralidade, convergência de rotas imemoriais e único monumento nacional do meu concelho.
Dói-me que se apague, em Mourossós, a notável história de amor que Júlio Dantas nos narrou no seu livro “Espadas e Rosas” e que no açude da Barca se esconda, dos nossos netos, a memória do ataque da quadrilha do Padre Casimiro, em Julho de 1846, a um destacamento do Regimento de Infantaria N.º 13, durante a Revolta da Maria da Fonte.
Dói-me pensar que, mesmo distante, possa correr perigo a lendária Ponte de Cavez, construída em meados do século XIII por Frei Lourenço Mendes, e no meio da qual se mataram a tiro, nas geniais palavras do nosso genial Camilo, o Victor de Mondim e o Lobo de Cerva, loucamente apaixonados pela Isabelinha do Reguengo, em noite dos endemoínhados irem ao Santo (levar com a imagem de São Bartolomeu na cabeça) e de beberem na fonte sulfurosa) da áuguinha dos milagres.
Se nos afogarem a memória decerto que afogarão, também, parte da nossa identidade pois, como afirmava Fernando Pessoa – “Quem não tem consciência certa das raízes profundas do seu ser, isto é, do povo a que pertence, de que coisa pode ter certeza ou de que coisa pode ter noção?!”.


Luis Jales de Oliveira, “Corre-me um Rio no Peito”, edição do autor (pp. 58-64), Mondim de Basto, Março de 2010.

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