quarta-feira, 4 de março de 2020

IBERDROLA - BARRAGEM DE DAIVÕES: Realojamento de famílias afetadas pela barragem de Daivões deve ocorrer em março







IBERDROLA - BARRAGEM DE DAIVÕES

Realojamento de famílias afetadas pela barragem de Daivões deve ocorrer em março


Os moradores lesados pela construção da barragem de Daviões queixam-se da demora na aquisição de habitações de realojamento. A Iberdrola prevê que "as famílias sejam realojadas em março”.

Pedro Sarmento

A Iberdrola garantiu esta quarta-feira estar a fazer “todos os esforços” para que as famílias de Ribeira de Pena afetadas pela construção da barragem de Daivões sejam realojadas em março, enquanto os moradores se queixam do impasse.
Em dezembro foi anunciado o realojamento das famílias afetadas em habitações com rendas pagas pela concessionária do Sistema Eletroprodutor do Tâmega (SET), em vez de prefabricados, e ainda o pagamento de uma compensação adicional ao valor da expropriação.
Quase três meses depois, moradores que ainda esperam nas suas habitações queixam-se do impasse.
"Estou pronta para sair de casa desde meados de outubro. Fui tirando coisas de casa e agora quase estou sem nada. É viver cada vez mais triste”, afirmou Teresa Leite, de Ribeira de Baixo.
A moradia está praticamente vazia, já não tem sequer um frigorífico e a paisagem que a rodeia está devastada pelas máquinas que preparam o terreno para o enchimento da albufeira da barragem de Daivões, previsto para junho.


Teresa Leite está à espera de se mudar para um apartamento e também de poder começar a construir uma casa nova.
“O que mais quero nesta vida é uma casa. Está a custar muito deixar a minha, por isso, quanto mais depressa pudesse ter outra, melhor. Aqui não tenho condições para continuar”, frisou.
Questionada pela agência Lusa, a Iberdrola disse que, atualmente, existem seis famílias que ainda estão nas suas casas mas que, “em breve, serão realojadas noutras habitações”.
"Estão a ser feitos todos os esforços para que as famílias sejam realojadas em março”, garantiu a elétrica espanhola.
A empresa explicou que o “processo de arrendamento de casas em Ribeira de Pena atrasou devido à baixa oferta de apartamentos no município e à dificuldade na recolha de toda a documentação necessária para celebrar os contratos”.
O presidente da Câmara de Ribeira de Pena, João Noronha, referiu que são “mais aspetos mais burocráticos que têm emperrado um pouco a mudança para as habitações temporárias”, uma situação que espera que “seja ultrapassada em breve”.
Lurdes Teixeira, de Balteiro, tem também a vida arrumada em caixotes à espera de sair, mas, por enquanto, aproveita a aldeia para onde quer regressar, depois de construir casa num terreno que já comprou. “Está tudo muito atrasado. Não sei quando vai chegar a ser construído. Acima de tudo, falta o dinheiro porque o que recebi dá para fazer as fundações e pouco mais”, salientou esta moradora
Em dezembro, foi também acordado o pagamento pela Iberdrola de mais 1,4 milhões de euros de indemnização às famílias afetadas, tratando-se de uma compensação adicional para a construção de casa.
A Iberdrola disse que as “famílias que já concluíram o processo de expropriação, que inclui a definição do valor de indemnização pelos peritos, já foram informadas da compensação a que têm direito”.

Explicou ainda que as “indemnizações variam segundo as escolhas feitas por cada família em relação às novas habitações e segundo os critérios estipulados pelos especialistas”.

“Após todos os proprietários das casas comunicarem à Iberdrola as suas opções para a nova casa, e de apresentarem a documentação necessária, o processo de pagamento é imediatamente iniciado. Até agora, poucas famílias concluíram todos os processos necessários. No entanto, o processo de pagamento das compensações irá ter início brevemente”, referiu a empresa.

Ainda segundo a Iberdrola, estão, neste momento, 12 casos em tribunal devido aos processos de expropriação.

É o caso de José Manuel Silva, de Friúme, que não concordou com o valor proposto pela casa e terreno localizados junto ao rio Tâmega. Mudou-se há cerca de dois meses para uma casa que ainda não está paga, onde ainda está a fazer obras, e referiu que, até agora, ainda não recebeu nada.

O Sistema Eletrocutor do Tâmega tem impacto em 52 casas, das quais 43 situam-se em Ribeira de Pena e são afetadas pela albufeira de Daivões.

As restantes nove ficam situadas em Boticas, Chaves e Vila Pouca de Aguiar e serão atingidas pela albufeira de Alto Tâmega.

O SET, que inclui ainda a barragem de Gouvães, é um dos maiores projetos hidroelétricos na Europa, nos últimos 25 anos, e representa um investimento de 1.500 milhões de euros.

No ano passado, foram “parcialmente suspensas” as obras do aproveitamento hidroelétrico de Alto Tâmega, depois de terem sido “identificadas condições geológicas no local não previstas durante a fase de estudo”.

Já em setembro, a Iberdrola rescindiu o contrato com o Agrupamento Complementar de Empresas (ACE), que juntava a Mota-Engil, a Acciona e a Edivisa e era responsável pela construção da obra de Alto Tâmega, devido “a divergências relacionadas com incumprimentos e atrasos não relacionados com a suspensão de trabalhos”.

Questionada sobre o novo consórcio, a Iberdrola disse apenas que o “processo de adjudicação encontra-se muito avançado, embora ainda não esteja fechado”.

Agência Lusa, in Observador - 4 de Março de 2010

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

BARRAGENS - ALDEIAS SUBMERSAS: Aldeia da Luz continua à procura de alma



BARRAGENS - ALDEIAS SUBMERSAS

Aldeia da Luz continua à procura de alma

Entre a demolição da antiga Aldeia da Luz e o realojamento dos moradores de Ribeira de Pena, no Tâmega, existem 18 anos de diferença. Os problemas que ainda hoje os alentejanos enfrentam serviram de exemplo ao autarca do Norte. Ganharam as pessoas afetadas pela barragem ainda em construção. Os outros, os que mais sofreram com o Alqueva, continuam a pensar no que perderam. E empenham-se, novos e velhos, por se apaixonarem por um lugar que ainda não sentem como seu.


Foto: Artur Machado/Global Imagens

O vulto de um homem aparece recortado à porta de um casão, no lusco-fusco de uma fria quinta-feira de janeiro. Horácio Guerra fuma lentamente um cigarro. Parece sincronizado com a lua, que entre as nuvens espreita e intensifica a aura singular de silêncio da aldeia. Olha desconfiado. Prevê que lhe queiram remexer nas memórias. Avalia e aceita. Guarda a beata e recolhe-se, deixando lá fora o que resta de um céu alaranjado que mergulha rápido num enorme lago. Aquele que submergiu, há quase 18 anos, o lugar onde jaz a antiga Aldeia da Luz, no Alentejo profundo.
Horácio, 62 anos, conserva fresco cada um dos momentos que constituíram a saga da construção da barragem do Alqueva. A mudança da velha para a nova Aldeia da Luz avançou e recuou devido a muitos fatores. Políticos e económicos, fundamentalmente. Desde que tem consciência, os locais viveram na incerteza. “Décadas de impasse. Não se construía na aldeia velha, porque diziam que ela ia abaixo. Não podíamos construir na nova, porque o projeto não avançava. E assim as pessoas foram ficando na expectativa, com as vidas em suspenso, por não saberem o que lhes ia acontecer.” Quando ganhou a Junta de Freguesia da Luz, no mandato de 1990 a 1994, o alentejano teve a sorte, ou o azar, de apanhar os anos em que o projeto da barragem voltou em força a ser discutido.
Os planos eram antigos. Em 1957, o projeto do Alqueva era referido como um Plano de Rega do Alentejo. Só 11 anos depois se começou a falar da construção da barragem. Até 1975 as obras andaram num pára-arranca. Nesse ano, foi tomada a decisão histórica governamental de dar um real início aos trabalhos. O que aconteceu um ano depois. Fizeram-se as obras preliminares, interrompidas entre 1978 e 1993, altura em que o projeto foi retomado ao ser criada uma Comissão Instaladora da empresa do Alqueva, que preparou e lançou os primeiros concursos públicos internacionais para tomar conta do empreendimento.

Horácio Guerra teve um papel fundamental na mediação entre a população, os governantes e a EDIA. Tenta, todos os dias, apaixonar-se pela nova Luz (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


Em 1995, a sociedade anónima de capitais públicos EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva) fica com a missão de conceber, executar, construir e explorar o empreendimento. Parecia cada vez mais certo que a aldeia iria desaparecer no fundo da tão ambicionada reserva de água. Mas andava tudo a passo de caracol.
Horácio já não estava em funções quando os seus conhecimentos da tipologia das habitações da aldeia antiga, adquiridos com o tempo, foram requisitados para ajudar nos processos de negociação entre luzenses e EDIA.
Assumiu o papel de mediador. “Não foi fácil. Custava a entrar na cabeça das pessoas que não se podiam construir casas velhas numa aldeia nova. Ou seja, os vizinhos que antes tinham piores condições iam beneficiar com a mudança, teriam casas melhores e os que ficaram igual não se conformavam. Pensavam, ‘a mim não me tiraram terreno, mas deram mais ao outro’.” Isto aliado a erros grosseiros nas obras resultou num cocktail explosivo. “Nada ajudou.” Como a nova aldeia era maior, os vizinhos estavam mais afastados, o que não foi benéfico e aumentou quezílias. “A forma de habitar mudou por completo. A união desta comunidade pequena desapareceu.”

Francelina Marques, Camila e Josefa Farias passam os dias no lar da aldeia. Recordar o passado faz parte da rotina. E do passado faz parte a mudança de casa, há 18 anos. (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


Por parte da EDIA também havia limitações de compreensão. “O apego que as pessoas tinham às suas casas, aos espaços de toda uma vida, às configurações, ainda que fossem piores do que aquelas que iam ganhar, também não era coisa que os engenheiros e arquitetos percebessem com facilidade. O povo teve de aceitar a contragosto o que lhes foi imposto.”
Conhecendo o caso da Luz de ginjeira, João Noronha, presidente da Câmara de Ribeira de Pena, bateu-se, recentemente, o mais que pôde “pelo futuro das famílias afetadas no concelho por força da construção da recente barragem de Daivões, incluída no Sistema Eletroprodutor do Tâmega”. Recorde-se que o enchimento das albufeiras de Daivões e de Alto Tâmega, barragens concessionadas à Iberdrola, vai ter impacto em 52 casas, 43 das quais ficam situadas no município de Ribeira de Pena. Há dois meses, as negociações estavam tensas e o autarca chegou mesmo a ameaçar a elétrica espanhola com medidas drásticas, caso o realojamento não fosse resolvido “com dignidade”, antes de junho deste ano, data prevista para o enchimento da albufeira de Daivões.
Hoje, o processo está etiquetado como “concluído”, diz o edil. “A Iberdrola assegurou que as famílias já não serão realojadas em contentores e vai assegurar o pagamento de casas que serão arrendadas no centro da vila.” À Iberdrola caberá também “o pagamento das novas habitações a construir nos terrenos que o Município vai disponibilizar a um preço simbólico”. As indemnizações inicialmente propostas, que moradores e autarquia não aceitaram, sofreram alterações quando a empresa avançou com compensações adicionais, “que tornam os valores justos” para quem passa “por uma situação desta natureza”. “Há coisas que o dinheiro não paga, como os transtornos da mudança, físicos e psicológicos, mas pode amenizar e foi por isso que lutámos tanto.”

Horácio Oliveira, aos 90 anos, lembra-se bem de como foi ser obrigado a sair da terra, onde construiu grande parte das memórias (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


Na nova Luz, a luta foi grande, mas serviu de pouco. Na mudança, foram entregues 250 parcelas, entre casas e quintais. Onze estabelecimentos comerciais e 16 equipamentos coletivos. “Respeitou-se o que foi possível na construção. E o que ficou por fazer, a EDIA pagou para que se concluísse. E para que se refizesse o que estava errado.” A questão é que “o dinheiro não ajudou a minimizar o desgosto nem a resolver a maior parte dos problemas estruturais do novo povoado”. Por isso, passados tantos anos, o sentimento de pertença ainda não é igual. “Eu próprio tento apaixonar-me por esta aldeia, mas não consigo esquecer a outra”, resigna-se Horácio. O Guadiana está ali, mas já não corre. Ficaram as lembranças. “Temos casas melhores, mas com muitos problemas na rede de água e nos saneamentos.”
A região, situada no sudeste de Portugal, caracteriza-se pela escassez de água, baixa densidade populacional e por ser uma das mais desfavorecidas da Europa. Fatores que justificaram a construção da barragem de Alqueva e a formação da albufeira, que visava abastecer a população local, promover a rega agrícola e o consequente desenvolvimento do turismo.
A 8 de fevereiro de 2002, antes mesmo de os habitantes mudarem de casa, fecharam as comportas para dar início ao enchimento da albufeira. O novo lugar, construído de raiz, estava a dois quilómetros do original. Camila Farias, quase nos 90, mostra um sorriso afável, mas com laivos de desgosto. “A mudança foi muito triste.” Na cadeira ao lado, no Lar de Idosos da aldeia, está a “mana”, Josefa, a mais nova de dez, que se recorda bem da antiga aldeia, “muito pobrezinha”, onde passaram a juventude. “Éramos todos muito amigos. Ainda somos, apesar de tudo.” A amiga de ambas, Francelina Marques, 87 anos, acena com a cabeça, “custou a todos, custou a todos”.

Duarte Godinho tem 29 anos e não quer deixar a Luz. Por isso, ajuda a mãe, Albertina, no negócio de família que já vem desde a velha aldeia, a Padaria Grilos (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


Numa outra sala, as memórias também seguem vivas. “Se me levantasse daqui agora e andasse até à aldeia antiga, saberia exatamente onde era a minha casa.” A primeira à esquerda. “Foi a última a ser deitada abaixo”, garante. Uma demolição a que assistiu. “A minha mulher muito chorou”, recorda Horácio Oliveira, 90 anos. “Mas tivemos de sair, não nos deram opção.” Da nova casa, “muito mal feita”, também a primeira à esquerda, quem vira para Mourão, lembra os dias passados a dar corda à aceitação. “Nunca nos vamos adaptar totalmente.”
Francisco Oliveira, o filho, completou cinco mandatos ao leme da junta de Freguesia da Luz. “Quase 20 anos, de 1994 a 2013. Estive aqui em todos os momentos.” Aos 57 anos, confessa que a primeira vez que concorreu à Junta foi quase por brincadeira. Formação académica não tinha. De obras nada percebia. E a construção da nova aldeia a principiar. “A população só acreditou que a coisa ia sair da gaveta quando em 1997 o Jorge Sampaio, presidente da República, veio cá.” Em Janeiro de 1998, foi a vez de António Guterres, primeiro-ministro. No local, reafirmou a intenção “irreversível” do seu Executivo em concretizar um projeto que considerou ser “um gesto de solidariedade nacional para com o Alentejo”. Esperava-se que o projeto fosse representativo da vontade da população, já que a submersão dos terrenos dos cerca de 400 habitantes da Luz constituiu o principal impacto social da construção do Alqueva.
“Mal ergueram as primeiras casas percebeu-se que as janelas, portas e cómodos tinham sido feitos sem ter em conta a dimensão da mobília das pessoas, portanto as gentes não conseguiam sequer entrar com elas em casa.” Foi um crescendo de problemas e reivindicações. “Não foi bem feito. E as asneiras não foram só nas casas. Fizeram um pavilhão gimnodesportivo sem bancadas ou cadeiras para as pessoas se sentarem. Uma praça de touros sem curros”, anexo onde os animais são mantidos. E a questão do cemitério continua a ser um dos problema mais graves. “Na altura avisámos o arquiteto contratado pela EDIA que era necessário haver um espaço livre de 2,05 metros de comprimento, para que todos os caixões transladados coubessem nos ocos sem problema. Não nos deram ouvidos.”
Joaquim Chilrito e a mulher Donzília estão emigrados na Suíça. Regressam à Luz todos os anos. Ficam na casa que não querem vender. Marco Vieira, serve-os no café. Não é filho da terra, mas percebe o apego do casal (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


Dos 250 cadáveres exumados do antigo cemitério, 45 não couberam nas novas sepulturas. Os erros foram assumidos num relatório preliminar elaborado por Francisco Moita Flores, coordenador científico do processo de trasladação. As irregularidades obrigaram “à drástica medida de remover para urnas zincadas”, de menor dimensão, “todos os cadáveres em putrefação ativa, sepultados desde 1995”.
O caixão do avô da atual presidente de Junta, Sara Correia, entrou nessa lista. “Imagine-se o cheiro que era a cada enterro por causa da mudança das urnas.” Além disso, Pedro Pacheco, o arquiteto responsável pelo projeto, não terá acautelado o futuro de uma aldeia envelhecida. “Não fizeram um cálculo para 50 anos. Agora, não há onde enterrar gente. É preciso expandir o cemitério e, como o projeto tem direitos de autor, o arquiteto não admite que seja outra pessoa a tratar da ampliação, que basicamente é abrir uma das paredes para que o cemitério possa crescer. Assim, vamos pagar 150 mil euros, sendo que a EDIA não comparticipa nem com metade.” Um custo que terá de ser maioritariamente suportado pela Câmara de Mourão. “E andamos há mais de três anos em negociações.” Essa não é a única contrariedade que Sara Correia tem para resolver na nova Luz, que conta hoje com cerca de 320 residentes.
Regresso no tempo. A 19 de novembro de 2002, o primeiro-ministro Durão Barroso inaugurava às pressas uma obra inacabada. Debaixo de forte chuva e de protestos. As queixas de outrora são as mesmas de hoje. Má drenagem de esgotos, problema com a rede de águas. Paredes tortas, portas empenadas, chãos a levantar. Isaltino Morais, à época ministro das cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, garantiu: as situações “hão de ser reparadas”. Isto depois de descerrado o monumento de reconhecimento ao sacrifício da população luzense. Um quadrado de mármore no Largo 25 de abril que, como naquele dia, nada diz à população.

A igreja de Nossa Senhora da Luz é uma réplica da original, existente na antiga aldeia, fundada no século XV. A construção no novo lugar não estava inicialmente prevista (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


No fim da cerimónia, Durão Barroso referiu que o projeto orgulhava o país. “Quem dera aos portugueses que todas as aldeias fossem como a nova Luz.” Mas os habitantes nunca concordaram. “De 15 em 15 anos, é preciso abrir o chão por causa dos esgotos”, afirma a atual autarca. “E continuamos a consumir o dobro da água expectável porque há desperdício por canos mal unidos.”
Outro “exemplo vergonhoso” do que se passa é o IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) relativo aos terrenos rústicos, destinados a fins estritamente agrícolas e para cultivo. “Passados quase 18 anos, as pessoas continuam a pagar IMI dos terrenos da velha Luz, submersos pela albufeira do Alqueva, porque ainda não foi feito o cadastro das terras correspondentes na nova aldeia.”
As pessoas “usam as terras, mas, se amanhã quiserem vender, é um problema, porque não estão em seu nome”. E quem recebe terras como herança não possui um documento que legitime a sua propriedade. “Não há qualquer registo nas Finanças. Sendo que o Estado sai lesado com isto.” Um problema que já passou por por vários ministros com a pasta da Agricultura. “Já recorremos ao presidente da República e tudo. Só nos falta ir ao Papa. É uma luta inglória.”
Há cinco anos, o Ministério da Agricultura referia que o emparcelamento rural da freguesia se encontrava “concluído”. No entanto, admitia que se encontravam “por elaborar alguns dos autos”, estando a Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural “a trabalhar para obter os elementos necessários para a elaboração dos títulos de propriedade”.
Mais de metade dos 155 registos estão ainda por concluir. Porque “a regularização destes processos é morosa, sobretudo dada a escassez, na maioria dos autos pendentes, dos comprovativos de propriedade”. Sara Correia contraria. Antes da mudança, “foi tudo apurado e escrito”, para que, na “nova” Luz, fosse entregue aos proprietários a terra a que tinham direito.

O monumento ao sacrifício dos luzenses foi inaugurado por Durão Barroso, em 2002. O povo preferia trocá-lo pela resolução dos problemas que ainda enfrenta (Foto: Artur Machado/Global Imagens


A presidente de Junta não se detém nas críticas. “Nem nós temos as coisas bem. A aldeia é da EDIA, a praça de touros também. Há lotes urbanos que na prática são nossos, mas que estão em nome da EDIA e assim, legalmente, pouco podemos fazer para os dinamizar em prol da população, ou para exploração turística.”
Diogo Nascimento, engenheiro da EDIA, afirma que a empresa, atualmente, só “é proprietária de cinco imóveis na aldeia”. Três destinam-se a “colmatar necessidades de habitação de alguns moradores, e um posto de venda de medicamentos, cedido à Junta de Freguesia”; outro serve de “residência artística do Museu” e o restante é utilizado “pela Câmara Municipal de Mourão”.
Francisco Oliveira, o ex-autarca, pensa o mesmo. “Dediquei-me de alma e coração a esta causa. Quase não vi as minhas filhas crescer. Sacrificámo-nos e não valeu a pena. Tínhamos moinhos, praia fluvial, fontanários e perdemos tudo. Isso revolta-me. Perdemos habitantes. Perdemos comércio. Eu bati palmas atrás do Durão Barroso no dia da inauguração da aldeia. Acreditei que o esforço que fizemos ia ser recompensado. Foi a mim que me prometeram. Hoje, sinto que lesei uma população sem ter tido noção disso. Onde estão os dois milhões de euros que tinham para investimento e emprego na Aldeia da Luz? Revolta-me. O Alqueva pode ter melhorado outras terras, mas a nossa não.”
Duarte Godinho tinha 11 anos quando a Luz mudou de lugar. Pareceu-lhe uma brincadeira. Agora, se se põe a pensar, dá-lhe as saudades. “É a nostalgia. Recordo-me da aldeia toda tal como era.” Bem mais mexida. “Hoje, os cafés estão fechados, não aparece ninguém.” O jovem ajuda no negócio que os pais já geriam na Luz velha, a Padaria Grilos. Aos 29 anos, não doura a pílula. “Esta é a minha aldeia, mas não parece ter futuro. Não se vê ninguém na rua.” São poucos os jovens que ficam. Duarte resiste. “As minhas perspetivas são de aqui continuar com o negócio de família. Algo que vai dando porque também entregamos pão nas aldeias vizinhas.”

Inaugurado em 2003, o Museu da Luz é o único espaço que ainda vai atraindo turistas. Foi projetado no quadro de medidas compensatórias à população, com a construção da barragem (Foto: Artur Machado/Global Imagens)

A Sociedade Recreativa Luzense faz o que pode. “Decidimos recomeçar os jogos de futebol.” Os resultados não dão orgulho. Hão de melhorar com o desinferrujar das articulações. “Para já, damos algum ânimo à terra. Os mais velhos têm aparecido para assistir, o que nos incentiva.” O olhar recai sobre a mãe, Albertina, 54 anos. “Agora já me começo a conformar. Estou menos zangada pelo que nos fizeram. Mesmo assim, quando sonho, não é nesta aldeia que me vejo.”
A obra prometia trazer esperança ao Alentejo. O que mais apareceram, nos primeiros tempos, foram curiosos. “Eram romarias. Entravam pelas portas sem pedir. Parecíamos animais de zoológico. Fizeram isso tantas vezes que o povo fechou as portas à chave e mal saía à rua.”
Passada a novidade, só o Museu da Luz, aberto em 2003, que reúne toda a informação sobre a relocalização da aldeia, através de fotografias, vídeos e coleções etnográficas e arqueológicas, atrai o turismo. Diogo Nascimento, o engenheiro da EDIA que é também diretor e coordenador do espaço, sob alçada da empresa, refere que até finais de 2019 recebeu 158 220 visitantes. 9 938 só no ano passado. Mas é gente que, sem mais atrações, segue viagem e não dinamiza a economia.

O cemitério continua a ser um tema sensível na Luz. A luta da Junta de Freguesia, da envelhecida aldeia, tem sido conseguir ampliá-lo, uma vez que já não dispõe de espaço suficiente (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


No restaurante de grelhados da afilhada, Joaquim Chilrito, 55 anos, abre o baú das memórias. Saiu da Luz para a Suíça, aos 23 anos. “Todo o sítio era outro. Mal cheguei, peguei num barco, mais um amigo, e fomos dar um mergulho no lugar da aldeia velha.” Irritado, levanta a voz e o dedo. “Escreva aí, a antiga aldeia não foi submersa, foi demolida! Não existe! A única coisa que está submersa são as ruínas do castelo da Lousa.” Passada a irritação volta ao mergulho. “Foi triste. Eu cresci entre a aldeia velha e os arrabaldes. Saíamos da escola e do trabalho e íamos diretos ao Guadiana. Pescávamos peixes à mão. Isto agora é um lago. Até o peixe tem outro sabor.” É nas rotinas que mais nota diferenças entre o antes e o depois da barragem.
“As pessoas vinham para a rua conviver no verão, até à uma da manhã. Quando ganharam casas novas, com quintais, deixaram de sair. Individualizaram-se. Ficaram tristes. Fechadas. Recolhidas. Se calhar, até para meditar no que lhes tinha acontecido. As pessoas precisaram, e ainda precisam, de tempo para se adaptarem ao que aqui se passou.” A perda do rio tal como era mudou até as segundas-feira de Páscoa. “Só ficava na aldeia quem não se mexesse. Íamos todos para a água. Havia malandrices. Inocentes.” E por causa desse dia também havia depois falatório.

Mariana Carrilho tem mais memórias da nova aldeia do que da velha. Está convencida que o povo pode fazer as pazes com o passado (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


É mesmo como dizem – a esperança é a última a morrer. “Há dois ou três anos que se nota outra vez algo diferente. O povo começa a mentalizar-se. Regressam, aos poucos, à rua.” A união, essa, nunca morreu. “As pessoas podem nem se falar. Mas se surgirem infortúnios defendem o outro com o que podem. É complexo, mas é assim. E é por isso que eu gosto desta terra. Somos todos família uns dos outros.” Uma última pergunta leva Joaquim a lançar um olhar cauteloso à mulher, Donzília. “Voltar a viver aqui? O pensamento não me sai da cabeça, mas não sou só eu a decidir. Temos aqui uma casa. Até já ma quiseram comprar, mas eu não a quis vender. Sou daqui. Não nasci nesta Luz, mas sou deste povo.”
De dentro do balcão, Nídia Suzano, 37 anos, e o companheiro Marco Vieira, donos do único restaurante da Luz, são responsáveis por renovar o convívio tardio na aldeia. “Às vezes, há mais gente do que de dia.” Nídia é filha da terra. Marco acabou perfilhado. “Queríamos abrir um negócio. Isto estava fechado e arriscámos.” Um passo dado há dois anos, que, até agora, “tem superado as expectativas”.

Nídia Suzano regressou à aldeia para abrir um restaurante. Ela e o companheiro mantêm as portas abertas à noite para fomentar o convívio entre os habitantes (Foto: Artur Machado/Global Imagens)

“É normal que os mais novos não rejeitem a aldeia como os mais velhos”, explica Mariana Carrilho, 27 anos, diretora técnica do Centro de Dia e Lar da Granja há seis. Vai e vem todos os dias para a freguesia do concelho de Mourão. “Não me vejo a morar noutro sítio. Não vivi naquela Luz até aos oito anos, mas sinto-o como minha.” É a voz doce da jovem que dá vida ao documentário “A Minha Aldeia Já Não Mora Aqui”, da autoria de Catarina Mourão, que pode ser visto no Museu da Luz. “Há coisas que me vão ficar marcadas na memória. Como as pessoas, mesmo tendo esvaziado as casas antigas, fazerem questão de as varrer e limpar, sabendo que iam ser demolidas.”
O namorado ainda hoje lhe diz que não percebe. “Eram as casas delas. Viveram ali toda a vida. Saíram porque foram obrigadas. Só quem passou por aquilo é que sabe. Deixar a casa limpa é tentar encerrar o assunto.” O seguir em frente ainda é difícil por haver questões por resolver. A esperança são os jovens. “Estamos a construir tudo de novo. Já temos mais memórias da nova aldeia do que da velha.” O sentimento de pertença vai fazendo o resto. “Tem havido mais atividades, as comissões de festas são dinâmicas e isso faz a diferença. Se houver mais momentos que juntem as pessoas estou convencida que recuperaremos parte daquilo que um dia fomos.”

Outras aldeias submersas

1954
Vilar da Amoreira
Era uma localidade de Portela do Fojo, na Pampilhosa da Serra. Ficou submersa pela barragem do Cabril.
1955
Barca do Bispo
A aldeia também ficou debaixo de água, por causa da barragem da Bouçã.
1971
Vilarinho das Furnas
A aldeia de Campo do Gerês, uma freguesia de Terras de Bouro, está submersa pela barragem de Vilarinho.
1980
Breda
Pertencia à freguesia de Sobral, em Mortágua. Foi demolida para a construção da barragem da Aguieira.
1981
Foz do Dão
A aldeia da freguesia de Óvoa, em Santa Comba Dão, desapareceu quando se construiu a barragem da Aguieira, que a deixou submersa.
, in Notícias Magazine - 5 de Fevereiro de 2020

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

TÂMEGA - BARRAGENS: Mentiras de político têm perna curta!











TÂMEGA - BARRAGENS

Mentiras de político têm perna curta!


Não somos ingénuos. É sabido que a maioria dos políticos, seja em que país for, têm uma enorme tendência pela demagogia e de mentir aos seus respectivos concidadãos! Aqui pela ilustre Casa-Lusitana também não se poderia, de todo, fugir a esta lamentável regra. Julgando nisso uma vantagem, não há quase político nenhum que não tenha a apetência de nos mentir descaradamente. Sobretudo nas campanhas eleitorais é mesmo um fartar vilanagem!… Mas, felizmente, nos tempos que correm e graças à proliferação das redes sociais, há sempre alguém atento para logo os desmascarar, visto que a grosseira mentira acaba quase sempre por ter perna curta!
São de todos nós conhecidas as constantes mentiras do político de carreira António Costa, nosso actual primeiro-ministro. Mas o que é ainda mais grave, é que o faz algumas vezes em pleno Parlamento – a chamada Casa da Democracia!
(...)
Em 28.01.2020 voltaria António Costa a pregar-nos uma enorme mentira, quando em visita às 3 minúsculas barragens em construção no rio Tâmega, nos disse alto e bom som, que aquela era a maior obra hidroeléctrica feita até hoje em Portugal! Uma peta de todo o tamanho! Pelos vistos, António Costa desconhece por completo o enorme complexo de barragens (oito) que transformaram o rio Douro numa longuíssima “estrada” fluvial navegável. Desconhece, igualmente, colossos energéticos como o Alto Lindoso, Aguieira e, (pasme-se), até mesmo o maior lago de água doce da Europa, que se chama ALQUEVA!
(...)
Do meu ponto de vista pessoal, a imunidade desta gente da Política não deixa de ser uma iniquidade inconcebível. Todos deveriam responder por igual, perante a Lei. Veja-se aquele escabroso caso ocorrido há tempos em Ponte de Sor, cujos protagonistas foram os filhos do embaixador do Iraque, em Portugal. Deixaram um cidadão daquele concelho todo esmurrado, às portas da morte, e sob a capa da tal iníqua imunidade pisgaram-se para a sua terra (Iraque), e nada lhes aconteceu! Uma autêntica vergonha!
ABAIXO A IMUNIDADE DOS POLÍTICOS – VIVA A DEMOCRACIA PLENA!
Alfredo Martins Guedes, in EntroncamentoOnLine - 3 de Fevereiro de 2020

sábado, 1 de fevereiro de 2020

ALTO TÂMEGA - BARRAGENS: Iberdrola vai investir 200 ME em projetos eólicos no Alto Tâmega

Diário Atual

ALTO TÂMEGA - BARRAGENS
Iberdrola vai investir 200 ME em projetos eólicos no Alto Tâmega



“Estamos a promover outros novos projetos eólicos nesta mesma área [Alto Tâmega] que significarão um investimento de 200 milhões de euros”, destacou o responsável pela empresa espanhola.
Ignacio Galán falava em Ribeira de Pena, após a visita à barragem de Daivões e subestação de Gouvães, no distrito de Vila Real, inseridas no Sistema Eletroprodutor do Tâmega (SET) um dos maiores projetos hidroelétricos na Europa, nos últimos 25 anos, contemplando um investimento de 1.500 milhões de euros e da responsabilidade da Iberdrola.
A visita contou também com a presença do primeiro-ministro de Portugal, António Costa, e do ministro do Ambiente e da Ação Climática, Matos Fernandes, e dos presidentes das Câmaras Municipais de Ribeira de Pena, Vila Pouca de Aguiar, Chaves e Cabeceiras de Basto.
“A Iberdorla deseja continua a crescer em Portugal e não havia melhor lugar para manifestar este compromisso do que neste SET”, vincou.
Segundo dados divulgados pela Iberdrola, a barragem de Gouvães encontra-se atualmente 75% concluída, enquanto a de Daivões está em 68% e a do Alto Tâmega em 42%. Prevê-se que em 2023 esteja concluído todo o SET.

Indemnização adicional a afetados por barragem de Daivões paga em fevereiro

O presidente da Câmara de Ribeira de Pena adiantou na terça-feira que as pessoas afetadas com a construção da barragem de Daivões devem começar a receber a indemnização adicional de “pelo menos 20 mil euros” em fevereiro.
“Os valores são todos diferentes, mas, no mínimo, qualquer uma das pessoas afetadas irá receber 20 mil euros”, explicou João Noronha.
João Noronha garantiu ainda que todas as famílias que não tinham onde ser realojadas têm a situação resolvida.
“A Iberdrola assumiu a responsabilidade do pagamento da renda e as pessoas vão ser realojadas em casas dignas, onde qualquer um de nós podería estar com as nossas famílias”, vincou.
A 29 de novembro, no final de uma reunião entre a autarquia e a Iberdrola, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), o autarca João Noronha informou que a Iberdrola vai pagar mais 1,4 milhões de euros de indemnização às famílias afetadas pela construção da barragem de Daivões.

Diogo Caldas, in Diário@tual - 1 de Fevereiro de 2020

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

TÂMEGA - IBERDROLA: Chefe do Governo e ministro do Ambiente visitam hoje Complexo Hidroelétrico do Tâmega









TÂMEGA - IBERDROLA

Chefe do Governo e ministro do Ambiente visitam hoje Complexo Hidroelétrico do Tâmega


FONTE: IBERDROLA, COMPLEXO HIDROELÉTRICO DE ARMAZENAMENTO DE ENERGIA DO TÂMEGA

É um dos maiores projetos hidroelétricos de sempre em Portugal e, segundo a Iberdrola, já vai a meio em obras e investimento e hoje recebe a visita de António Costa e do ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes

Esta segunda-feira, a Iberdrola emitiu um comunicado, precisamente para dar conta do avanço das obras e do investimento em Ribeira de Pena:

"À data, foram concluídos 45% da obra que envolve a construção de três aproveitamentos hidroelétricos e mais de metade do investimento total – 1.500 milhões de euros – já foi aplicado", afirma o último comunicado da Iberdrola sobre o maior projeto da empresa de energia em Portugal.

Construção da Barragem de Daivões (fonte Iberdrola)

Composto por 3 barragens e 3 centrais hidroelétricas o Complexo Hidroelétrico de Armazenamento de Energia do Tâmega, em Ribeira de Pena é um dos maiores projetos hidroelétricos de sempre no país.
Duas das barragens estão situadas no rio Tâmega (Daivões e Alto Tâmega) e a 3.ª no rio Torno (Gouvães).
Hoje as obras do Complexo recebem a visita do primeiro-ministro e o ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, em Ribeira de Pena.
O Complexo Hidroelétrico de Armazenamento de Energia do Tâmega, cujo concessionário é a Iberdrola, representa um investimento total 1.500 milhões de euros, aumentará em 6% a potência instalada em Portugal e as obras deverão estar concluídas até 2023.
in SIC Notícias - 28 de Janeiro de 2020

sábado, 28 de dezembro de 2019

AMBIENTE - BARRAGEM DE FRIDÃO: Seca, lítio e apanha nocturna de azeitona na lista do pior do ambiente em 2019



AMBIENTE - BARRAGEM DE FRIDÃO

Seca, lítio e apanha nocturna de azeitona na lista do pior do ambiente em 2019



A seca no Alto Tejo, a corrida à mineração de lítio, e a apanha noturna de azeitona são alguns dos piores factos ambientais do ano, segundo um balanço da associação ambientalista Quercus hoje divulgado.

Já para os melhores factos a Quercus destaca o movimento estudantil internacional pelo clima, a redução do preço dos transportes públicos, as medidas para reduzir o plástico descartável, o cancelamento da construção da barragem de Fridão, em Amarante, e as medidas da União Europeia contra produtos que desperdiçam energia e não são reparáveis.
(...)
Nos pontos negativos da Quercus menciona-se a grande redução do caudal do Tejo devido à “má gestão” da bacia e às descargas realizadas por Espanha, ou a “corrida desenfreada” à exploração de minério, especialmente de lítio, ou também os impactos negativos da apanha noturna de azeitona nos olivais superintensivos, estimando-se que estejam na origem da morte de quase cem mil aves protegidas.
(...)
Agência Lusa, in dnotícias - 28 de Dezembro de 2019

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

EDP - BARRAGENS: EDP ganha extra de 210 milhões com venda de barragens no Douro






EDP - BARRAGENS

EDP ganha extra de 210 milhões com venda de barragens no Douro


Elétrica portuguesa vendeu seis barragens a consórcio francês por 2,21 mil milhões de euros e espera 'luz verde' do Governo para fechar negócio nos próximos 12 meses. Maior concorrência pode beneficiar os consumidores.

António Mexia, presidente executivo da EDP espera que a Autoridade da Concorrência, Direção-Geral de Engenharia e Geologia, Agência Portuguesa do Ambiente e a REN aprovem a venda..
© Paulo Spranger/Global Imagens

Dia de muitos milhões para a EDP: a elétrica portuguesa vendeu seis barragens no rio Douro por 2,21 mil milhões de euros, num dos maiores negócios dos últimos anos em Portugal. A empresa ganhou mesmo um extra de 210 milhões para reduzir a dívida porque apenas contava obter um encaixe de dois mil milhões de euros. O negócio deverá ficar fechado até ao final do próximo ano e a expetativa da empresa é que o Governo não se oponha ao negócio.
"Estamos confiantes que a venda seja aprovada. É inquestionável a qualidade técnica e qualidade financeira do consórcio comprador", assinalou ontem António Mexia, presidente executivo da elétrica. Além da Autoridade da Concorrência, este negócio tem de ser validado pela Direção-Geral de Engenharia e Geologia, pela Agência Portuguesa do Ambiente e pela REN.
O conjunto de empresas gaulês que comprou estas infraestruturas é liderado pela elétrica Engie, com uma posição de 40% no consórcio; o Crédit Agricole Assurances ficou com uma quota de 30%; os restantes 20% ficaram na mão da Mirova, fundo de investimento da Natixis.
Das seis barragens compradas, Foz Tua, Baixo Sabor e Feiticeiro foram construídas ao abrigo do plano nacional de barragens do Governo de José Sócrates, implicaram um investimento conjunto de 1,4 mil milhões de euros, e foram concessionadas pelo Estado até ao início da década de 2093; as barragens de Miranda, Bemposta e Picote com mais de 50 anos de existência, representaram um investimento 300 milhões e têm concessões válidas até 2042, 2056 e 2063, respetivamente.
As barragens vendidas têm uma capacidade instalada total de 1689 MW e são operadas por uma equipa de 50 pessoas, que será transferida - se as pessoas assim quiserem - para a nova empresa que será constituída se o negócio for aprovado.
Esta operação também vai permitir à EDP abrigar-se da chuva. "Estamos a vender 25% do nosso portefólio hídrico, reduzindo a exposição à volatilidade, sobretudo no Norte de Portugal. Se uma nuvem passa ao lado, arriscamos a ficar sem muita água nas barragens", explicou o administrador financeiro, Miguel Stilwell.
Tendencialmente, os consumidores também poderão beneficiar de preços mais baixos na energia. A EDP, que ainda tem o monopólio das barragens portuguesas, vai reduzir a sua quota de mercado para 64% em 2025; o consórcio francês vai ficar com uma posição de 21%; a Iberdrola, que tem três barragens em construção no Tâmega, terá uma posição de 15%.
A venda deste tipo de ativos era um dos objetivos do plano estratégico 2019-2022, apresentado pela elétrica em março deste ano.
Também na altura, a EDP falou sobre o reforço da aposta nas energias renováveis. Nesse campo, o grupo, através da EDP Renováveis, assegurou um contrato de 15 anos para venda de eletricidade produzida através de fontes renováveis. A eletricidade será produzida por um portfólio "de 11 projetos de energia eólica onshore, com capacidade total de 307 MW". A instalação dos parques eólicos irá acontecer em 2021 e 2022. Com o novo contrato, a EDP Renováveis passará a ter, em 2022, um portfólio de mais de 750 MW de capacidade eólica instalada na Polónia.
Só que o carvão ainda continua a fazer parte do portefólio do grupo. À custa das centrais de carvão de Sines e das Astúrias, a EDP vai sofrer um impacto negativo nos resultados anuais deste ano de 200 milhões de euros.
A "redução dos preços do gás, a perspetiva de aceleração do crescimento da capacidade instalada de energias renováveis, a manutenção de uma elevada carga fiscal sobre estes ativos e a vontade política de antecipação dos prazos de encerramento destas centrais", explicam a decisão da elétrica, sem impacto na política de atribuição de um dividendo de pelo menos 19 cêntimos por ação até 2022.
A EDP, que já tinha gerado imparidades com as centrais a carvão em 2018, assegura que nos próximos anos "não são esperadas mais imparidades", declarou António Mexia.
Diogo Ferreira Nunes, in Diário de Notícias - 19 de Dezembro de 2019

EDP - BARRAGENS: EDP vende seis barragens no Douro por 2,2 mil milhões e prepara fim do carvão







EDP - BARRAGENS

EDP vende seis barragens no Douro por 2,2 mil milhões e prepara fim do carvão

As barragens vendidas ao consórcio francês ficam no rio Douro: Miranda, Bemposta e Picote Foz Tua, Baixo Sabor e Feiticeiro. EDP prepara fim do carvão com 300 milhões, mas ainda não fecha Sines.

A barragem do Picote no Douro faz parte do pacote vendido ao consórcio liderado pela Engie
A EDP chegou a acordo para a venda de seis barragens no rio Douro por 2,2 mil milhões de euros, informou a elétrica portuguesa à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. No mesmo dia, a elétrica liderada por António Mexia anunciou que vai reconhecer este ano um custo extraordinário de 300 milhões de euros por causa da perda de competitividade das centrais a carvão, como a de Sines. Mas ainda não é o anúncio do fecho da central, assegurou o presidente executivo da empresa. O impacto negativo nos lucros de 2019 será de 200 milhões de euros.
Em comunicado enviado à CMVM, a EDP anuncia que “acordou a venda de um portefólio de seis centrais hídricas em Portugal ao consórcio de investidores formado pela Engie (participação de 40%), Crédit Agricole Assurances (35%) e Mirova – Grupo Natixis (25%)”. A empresa detalha que “as centrais hídricas em processo de alienação totalizam 1.689 MW de capacidade instalada” e são “três centrais de fio de água (Miranda, Bemposta e Picote) com 1,2 GW de capacidade instalada” e outra tantas “centrais de albufeira com bombagem (Foz Tua, Baixo Sabor e Feiticeiro) com 0,5 GW de capacidade instalada”.
Foz Tua e Baixo Sabor estão entre os empreendimentos que foram construídos mais recentemente pela elétrica. Já Bemposta e Picote foram alvo de reforços de potência também em anos recentes. A barragem de Foz Tua, decidida no primeiro Governo de José Sócrates, esteve na origem da desativação da linha do Tua e foi inaugurada em 2017. O pacote de centrais vendidas opera todo em regime de mercado, sem a proteção em termos de risco de mercado dos contratos de manutenção do equilíbrio contratual (CMEC). As barragens de Picote, Bemposta e Miranda estão no mercado desde 2014.
As barragens agora alienadas correspondem à maior venda de ativos feita pela elétrica dentro de casa e acontece depois de uma comissão parlamentar de inquérito às rendas ditas excessivas da EDP em que a dimensão da quota de mercado da empresa em Portugal foi muito questionada. A elétrica foi também visada num processo da Autoridade da Concorrência que a condenou por abuso da posição dominante na produção de eletricidade em Portugal, numa investigação que incidiu sobre as ofertas feitas por barragens no mercado grossista.
A EDP garante contudo, em comunicado, que mesmo após esta transação “manterá a sua posição de liderança em Portugal, com uma capacidade de geração hídrica instalada de 5,1 GW e continuará a ser o segundo maior operador hídrico na Península Ibérica.” E acrescenta que o objetivo desta transação é a “optimização do portefólio, reduzindo a exposição à volatilidade hídrica e de preço de mercado, reforçando o perfil de baixo risco do negócio e o nível de endividamento”.
Esta transação está enquadrada no plano estratégico anunciado no início deste ano pela empresa e que tem como objetivo reduzir a exposição ao mercado português e à energia convencional e investir mais nas novas tecnologias renováveis. O encaixe agora anunciado é superior ao objetivo de dois mil milhões de euros que estava previsto naquele plano. Em conferência de imprensa, o presidente executivo da EDP adiantou que o principal destino para já deste encaixe será a redução da dívida e do perfil de risco da carteira de ativos da empresa.

Grupo francês que compra já é o segundo maior produtor em Portugal

O consórcio comprador é liderado pelo grupo francês que é acionista do segundo maior produtor de energia em Portugal e que está presente na Tejo Energia e a Turbogás, empresas que gerem centrais a carvão (o Pego vai fechar até 2021) e a gás natural. Estas centrais estão cobertas por contratos de aquisição de energia (CAE) que garantem a remuneração, mas que vão terminar até ao final da próxima década. A empresa tem ainda alguma produção de origem renovável, nomeadamente eólica. Com esta negócio, a Engie reforça de forma substancial a presença no mercado português e entra no negócio das barragens.
O grupo francês de energia, um dos maiores da Europa, tinha anunciado uma parceria com a EDP para a área das renováveis e quando a empresa portuguesa foi alvo de uma oferta pública de aquisição por parte da acionista chinesa, foi apontado como estando interessado na EDP Renováveis.  A Engie diz que com esta operação “garante um nível significativo de produção renovável despachável (que tem prioridade a entrar na rede), sobretudo com centrais de albufeira com bombagem, o que permitirá assegurar o fornecimento de eletricidade verde ao seu atual e futuro portefóleo”.
Tal como a EDP, também o grupo francês ambiciona ser “líder na transição para o carbono zero”. A operação deverá ser concretizada até meados do próximo ano e aguarda os pareceres da Autoridade da Concorrência, mas também da Direção Geral de Energia e Geologia e da Agência Portuguesa do Ambiente.

EDP reconhece custo de 300 milhões pelo fim do carvão, mas ainda não fecha Sines

No mesmo dia em que anunciou a alienação de seis barragens, a EDP revelou também ao mercado como está a preparar-se para o fim da produção elétrica a partir do carvão que foi antecipada pelo Governo para 2023. A elétrica vai reconhecer nas contas deste ano um custo extraordinário de 300 milhões de euros, que terá um impacto negativo de 200 milhões de euros nos lucros a apresentar em 2019. No entanto, a EDP assegura que este reconhecimento não irá afetar a política de dividendos da empresa. Esta fatura vai cobrir os custos do desmantelamento ou, eventual conversão, destas centrais para outras tecnologias.
Perante a “aceleração do processo”, também por opções políticas, as centrais a carvão exploradas na Península Ibérica — em Portugal é apenas Sines — perderam competitividade e rentabilidade. Para além de uma elevada carga fiscal, que resulta da eliminação gradual da isenção de imposto sobre o carvão, há também um agravamento do custo do CO2 — estas unidades são as principais fontes da emissão de gases de efeito estufa. O aumento da capacidade instalada de energia renovável, por via do leilão solar, e a descida do preço do gás natural, são outras razões apontadas.
No entanto, em conferência de imprensa, o presidente executivo da EDP sublinhou que  ainda não era o anúncio do encerramento de Sines, a maior central elétrica do país. Mexia explicou que se tem registado uma “deterioração muito significativa” da rentabilidade destes ativos, o que faz com que a central de Sines esteja muito tempo parada. Mas “não estamos a anunciar o encerramento ou a data de fim de vida destas centrais, deverão ficar a funcionar enquanto forem rentáveis“, afirmou.
A elétrica explora três centrais a carvão na Península Ibérica — Sines e Aboño e Soto 3 em Espanha. Uma das centrais espanholas será convertida para gás natural. Já para Sines há um plano de instalar uma unidade de hidrogénio.
A EDP acrescenta ainda que este processo permitirá uma convergência mais rápida para o objetivo estratégico de atingir a neutralidade carbónica até 2030.
Ana Suspiro, in Observador - 19 de Dezembro de 2019