sábado, 31 de janeiro de 2009

PNBEPH - Rio Olo: Fisgas do Ermelo "vão continuar", garante ministro Nunes Correia

PNBEPH - Rio Olo
Ambiente: Fisgas do Ermelo "vão continuar", garante ministro Nunes Correia

Vila Real, 23 Jan (Lusa) - O ministro do Ambiente, Nunes Correia, garantiu hoje em Vila Real que a cascata Fisgas do Ermelo vai continuar, apesar da construção das barragens do Alto Tâmega.

"As Fisgas do Ermelo, neste momento, posso dar por adquirido que vão continuar", assegurou o ministro, acrescentando que "houve um grande empenho nesse sentido".

"O nosso esforço é sempre conciliar o desenvolvimento das regiões e das populações com a conservação da natureza", afirmou Nunes Correia, após a cerimónia de posse do novo director do Departamento de Áreas Protegidas do Norte, Lagido Domingos, que ocorreu hoje na sede do Parque Natural do Alvão, em Vila Real.

A cascata Fisgas do Ermelo, uma queda de água no rio Olo, afluente do Tâmega, é dos locais mais visitados no Parque do Alvão, numa zona onde o caudal do rio separa as zonas graníticas das zonas xistosas.

O desnível da cascata, uma das maiores quedas de água da Europa, situada em Ermelo, no concelho de Mondim de Basto, estende-se por 200 metros de extensão.

Temia-se a extinção das Fisgas do Ermelo porque o projecto das quatro barragens da "cascata do Tâmega" - Alto Tâmega, Daivões, Padroselos e Gouvães - hoje apresentado em Chaves, na presença do primeiro-ministro José Sócrates, previa o desvio do caudal do rio Olo para a barragem de Gouvães através de um canal de derivação de quase oito quilómetros.

A ideia surgiu no estudo prévio do Plano Nacional de Barragens, mas gerou de imediato forte contestação na região de Vila Real e de Amarante, uma vez que a redução do caudal do Olo destruiria a queda de água.

JDS

Lusa/fim

in Orelhas (portal da Região de Leiria)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Fisgas de Ermelo escapam a novas barragens




Mondim de Basto. Maior queda de água do País deverá manter-se
Fisgas de Ermelo escapam a novas barragens

Iberdrola diminui produção de energia para poupar cascata.

O ministro do Ambiente, Nunes Correia, garantiu ontem, em Vila Real, que a cascata das Fisgas de Ermelo não vai ser afectada com a construção das barragens do Alto Tâmega. As Fisgas do Ermelo são a maior queda de água de Portugal, localizada no Parque Natural do Alvão, que se temeu vir a ser afectada com a construção da barragem de Gouvães.

"As Fisgas do Ermelo, neste momento, posso dar por adquirido que vão continuar", assegurou o ministro, acrescentando que "houve um grande empenho nesse sentido. O nosso esforço é sempre conciliar o desenvolvimento das regiões e das populações com a conservação da natureza", afirmou Nunes Correia, após a cerimónia de posse do novo director do Departamento de Áreas Protegidas do Norte, Lagido Domingos, que ocorreu na sede do Parque Natural do Alvão, em Vila Real.

Há cerca de três meses, Rui Cortes, professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e especialista da área do ambiente, afirmou que a construção de quatro barragens na bacia hidrográfica do Tâmega e de três derivações de cursos de água iriam «alterar completamente» a zona envolvente a este rio e até mesmo o Parque Natural do Alvão.

Rio Cortes referia-se exactamente à derivação do rio Olo, o que alimenta as Fisgas de Ermelo, aquelas que são consideradas como as maiores quedas de água de Portugal e uma das maiores da Europa, anualmente visitadas por milhares de pessoas.

O projecto inicial das quatro barragens da "cascata do Tâmega" (Alto Tâmega, Daivões, Padroselos e Gouvães), que foi adjudicado ao grupo espanhol Iberdrola, previa que a barragem de Gouvães, a construir no rio Torno, iria ser abastecida pela água de dois afluentes, o Olo - na zona a montante das Fisgas - e Alvadia, e assim o caudal que actualmente alimenta as Fisgas seria reduzido ao mínimo, afectando seriamente aquela queda de água, que poderia vir a desaparecer.

Após as declarações do ministro, o DN contactou o investigador da UTAD, Rui Cortes, que adiantou já ter conhecimento do facto, pois no início de Dezembro o presidente da Iberdrola esteve na UTAD, e, perante os factos expostos pelos investigadores da Academia, comprometeu- -se a estudar o problema.

Segundo Rui Cortes, posteriormente a UTAD foi informada pela Iberdrola "de que, apesar de significar uma diminuição na produção de energia eléctrica, a empresa prescindia do transvase das águas do rio Olo, permitindo assim a continuidade das cascatas das Fisgas de Ermelo.

Para Rui Cortes, ainda bem que o Instituto da Conservação da Natureza e a empresa concessionária se aperceberam dos danos que seriam causados, a tempo foi encontrada uma solução, "é um exemplo para outras situações", adianta o investigador.

José António Cardoso (Vila Real), in Diário de Notícias - 24 de Janeiro de 2009

sábado, 24 de janeiro de 2009

Mais 10 novas barragens - Aumenta a pressão sobre os rios peninsulares

Aumenta a pressão sobre os rios peninsulares para satisfazer as procuras energéticas
Mais 10 novas barragens foram anunciadas para Portugal

Aumenta a pressão sobre os rios peninsulares para satisfazer as procuras energéticas. Mais 10 novas barragens foram anunciadas para Portugal, com grande projecção mediática e sem contraditório. A consulta pública decorre desde 1 de Outubro por um prazo de 30 dias.

Depois do anúncio da construção da barragem do Sabor, no momento em que Portugal detém a Presidência da União Europeia, o governo português anunciou o Programa Nacional de Barragens com elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEPH) em que prevê a construção de mais 10 novas barragens. São atingidas as bacias internacionais do Douro e do Tejo, para além da bacia do Mondego. A documentação encontra-se no site do Instituto da Água; a nota de imprensa pode ser lida em www.inag.pt

A construção de novas barragens para aumentar a oferta de recursos energéticos reflecte a continuidade da velha cultura da água. A Fundação Nova Cultura da Água tem produzido e divulgado documentação científica sobre os riscos de destruição dos ecossistemas hídricos da Península Ibérica. Num âmbito mais geral, como documentação disponível em português, pode ser consultado o relatório da Comissão Mundial de Barragens (WCD) sobre as barragens e o desenvolvimento, em http://www.dams.org//docs/overview/wcd_booklet_pt.pdf. São aí equacionados uma série de aspectos que levam a questionar as opções de construção de mais barragens. Por outro lado, o cumprimento da Directiva-Quadro da Água não pode deixar de ser questionado, como vêm argumentando as organizações não governamentais ligadas à conservação da natureza.

in Fundação Nova Cultura da Água - 10 de Outubro de 2007

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Pedro Arrojo: "Os rios não são só reservatórios de H2O"







"Os rios não são só reservatórios de H2O"




Entrevista de Carlos Vaz Marques a Pedro Arrojo, professor professor titular de Análise Económica na Faculdade de Economía y Estudios Empresariales da Universidade de Zaragoza (Espanha) e presidente da Fundação Nova Cultura da Água.

in TSF - 19 de Janeiro de 2009

PNBEPH versus INAG: Qualquer semelhança entre o Instituto da Água com a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, é pura portugalidade

PNBEPH versus INAG
Qualquer semelhança entre o Instituto da Água com a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, é pura portugalidade


Face a uma carta dirigida à Comissão Europeia, e em particular a Durão Barroso, por um conjunto de associações ambientalistas portuguesas, a Comissão Europeia reconheceu algumas anormalidades no «Programa Nacional de Barragens» denunciadas na carta e decidiu investigar.

Em causa está o não cumprimento da
directiva-quadro comunitária sobre a água. Um dos pontos apontados, de entre outros de igual ou superior importância, pelo «Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega», que no seu manifesto se propõe a exortar o cumprimento desta directiva comunitária.

Contudo, Orlando Borges, presidente do Instituto da Água, instituto público que se propõe a acompanhar e assegurar a execução da política nacional no domínio dos recursos hídricos de forma a assegurar a sua gestão sustentável, bem como garantir a efectiva aplicação da Lei da Água, refere com a sua convicção que «não há qualquer violação da legislação comunitária».

Não é um pouco estranho que tantas associações ambientalistas se tenham juntado e, em consenso, focado este incumprimento da directiva-quadro comunitária sobre a água numa carta à Comissão Europeia, e que esta tenha "prestado" alguma atenção?

Infelizmente, os institutos de "supervisão" em Portugal têm uma certa tendência para ignorar certos e importantes pontos sobre o seu domínio de regulação. Menosprezando, quase sempre, com a sua "menos atenta" actuação coma a parte que deveriam defender-nós.

post scriptum: Salvar o Tâmega e a vida no Olo

Marco Gomes, in Remisso - 20 Janeiro 2009

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

RTP2 - Biosfera destaca Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega

Manifesto e Petição Anti-Barragem em destaque na TV (RTP2)
«Biosfera» referencia o Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega

No passado dia 14 de Janeiro de 2009 a acção cívica do Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega em prol do ambiente no Tâmega teve lugar de destaque no segundo canal da televisão pública. Para surpresa de todos, o programa Biosfera referenciou as iniciativas que o Movimento leva a efeito em defesa dos rios Tâmega e Olo, em oposição clara à devastação ambiental que a execução do Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico tende a introduzir nesta sub-bacia hidrográfica duriense. O conteúdo do programa e a respectiva referência ao Movimento podem ser visualizadas ao minuto 36:34 no seguinte endereço: http://tv1.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=24416&e_id=&c_id=1&dif=tv&dataP=2009-01-14.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Bruxelas investiga Programa Nacional de Barragens

Construção de novas unidades de elevado potencial hídrico
Bruxelas investiga Programa de Barragens

A Comissão Europeia está a investigar a possibilidade de o Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hídrico, que envolve a construção de dez novos aproveitamentos em Portugal, violar a directiva-quadro comunitária sobre a água.
A hipótese foi levantada por associações ambientalistas portuguesas, numa carta enviada a Durão Barroso, que foi assumida como uma queixa por Bruxelas. Um dos argumentos é o de que as barragens, ao alterarem radicalmente os rios onde se localizam, podem comprometer a obtenção do "bom estado da água" que a directiva-quadro exige até 2015.
A directiva não impede a construção de novas barragens, mas exige uma série de condições, uma delas a de que estejam contempladas em planos de gestão de bacias hidrográficas. Mas os planos exigidos pela directiva ainda não existem. Até ao final deste ano, deverá haver versões disponíveis para consulta pública, informa a assessoria de imprensa do Ministério do Ambiente.
Organizações ambientalistas unidas em torno da Plartaforma Sabor Livre entendem que, ao aprovar as barragens antes da elaboração dos planos de bacia, Portugal está a violar a directiva-quadro da água. A Comissão Europeia confirmou ao PÚBLICO, através do gabinete de imprensa do comissário do Ambiente, Stavros Dimas, que está a investigar a queixa, sem fornecer mais detalhes.
Bruxelas, entretanto, já pediu a uma empresa externa uma proposta para uma "avaliação independente" do Programa Nacional de Barragens. Nos termos da requisição do serviço, anexados a uma carta enviada em finais de Novembro à empresa em causa, o foco da avaliação é o "cumprimento da legislação da União Europeia sobre a água".
Segundo o documento, o plano nacional não inclui "uma comparação adequada" entre os benefícios das barragens e os objectivos de qualidade da água impostos pela directiva. "Há muito pouca atenção aos impactos na água", diz o documento. O texto não reflecte uma posição formal da Comissão Europeia, pois ainda nem sequer foi aberto um processo de infracção à legislação comunitária.
A estudo deverá avaliar outras alegadas lacunas do programa de barragens, tais como o efeito das alterações climáticas sobre a disponibilidade de água para os empreendimentos propostos. O PÚBLICO não conseguiu confirmar, junto da Comissão, se o estudo já foi ou não adjudicado. Mas o desejo de Bruxelas era o de que a avaliação fosse feita entre Janeiro e Maio. O presidente do Instituto da Água, Orlando Borges, afirma que não há qualquer violação da legislação comunitária.
Orlando Borges afirma que o plano do Governo foi sujeito a uma avaliação ambiental estratégica, que permitiu afastar as opções claramente inviáveis em termos ecológicos. "O ambiente foi preponderante", diz.
Além disso, cada projecto individual vai ser alvo, agora, de um estudo mais aprofundado. "Todas essas barragens vão ter uma avaliação de impacte ambiental", explica.
O plano do Governo é reduzir a fatia de potencial hídrico não-aproveitado no país de 54 por cento para 33 por cento. Orlando Borges afirma que outros países europeus, com muito menos potencial hídrico por aproveitar, fizeram mais barragens do que Portugal nos últimos 15 anos.Segundo Orlando Borges, Portugal já prestou vários esclarecimentos sobre o plano de barragens a Bruxelas, através do sistema Pilot, um procedimento agilizado de pedido e envio de informações sobre queixas apresentadas à Comissão Europeia.
O programa de barragens não envolve financiamentos comunitários, sendo a construção dos empreendimentos suportada pelas concessionárias que venceram os concursos lançados no ano passado - EDP, Iberdrola e Endesa. O Estado arrecadou 623 milhões de euros com os concursos. Se não surgir nenhum obstáculo, oito novas barragens do programa serão construídas até 2016. A esta somam-se três actualmente em obras ou prestes a serem lançadas. "Nunca em Portugal se fizeram tantas grandes barragens ao mesmo tempo", diz Orlando Borges.

Ricardo Garcia, in Público e Ecosfera - 19 de Janeiro de 2009

sábado, 17 de janeiro de 2009

Forum Amarante Agenda 25


O Forum Amarante Agenda 25, em colaboração com a Escola Superior Artística do Porto (direcção do Curso de Arquitectura) e o Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega, vai levar a efeito em Amarante um conjunto de conferências visando contribuir para o aprofundamento dos problemas e das potencialidades da cidade de Amarante e respectiva região do Tâmega.
Esta iniciativa vai ter início na próxima sexta-feira (23 de Janeiro) no Auditório da GAT - Amarante (ver cartaz em Anexo), e servirá para reforçar publicamente na região os mecanismos da intervenção cívica de forma aberta e plural, num contexto de grandes transformações sociais e económicas, perante um mundo cada vez mais globalizado e interdependente.
Para o efeito, foi convidado um conjunto de personalidades do meio político, académico e empresarial que, de forma independente e sequêncial, trarão novos contributos para a definição de estratégias de desenvolvimento local-regional e o aprofundamento de caminhos que possam nortear a nossa sociedade num período de grande crise económica e social.
À sociedade civil compete criar os seus próprios modelos de organização, disponibilizando-se para a discussão e para a intervenção cívica de forma a congregar novas sinergias que possam também alavancar a sociedade na procura de outras vias e rumos, necessariamente mais abrangentes.
Os debates estão organizados de forma transversal e interdisciplinar, como forma de procurar aprofundar na sociedade, prospectivamente, temas e assuntos presentes, para daí abrir espaço à definição de novas estratégias e à geração de alternativas que possam adoptar políticas de desenvolvimento ajustadas à região e cidade de Amarante.
Com a realização das conferências (cujo programa definitivo faremos seguir em breve) é compromisso do Fórum Amarante Agenda 25 discutir formas e modelos de organização social e de ordenamento territorial, compreender os modelos de produtividade e de competitividade económica, bem como promover o debate sobre os princípios que legitimam e sustentam a representação e a gestão política dos governos locais e regionais, em função da realidade social e cultural desta área eleitoral.
Os movimentos cívicos gozam cada vez mais de maior dinamismo de intervenção e acção, e de aceitação pela própria sociedade onde têm raiz, fruto dos compromissos assumidos com os cidadãos em contextos de maior proximidade. São também agentes cívicos de renovação e integração social e cultural de comunidades territoriais específicas, como também gozam de uma maior flexibilidade, adaptabilidade e capacidade de aprofundamento da discussão na resolução de problemas concretos.
Neste contexto, o Forum Amarante Agenda 25 assenta no reforço da coesão social e da solidariedade dos cidadãos em Amarante e na região, como princípios de colaboração para projectar ideias, projectos e programas que assentem na sustentabilidade territorial em função da formalização de contratos sociais mais abrangentes e inclusivos.
Forum Amarante Agenda 25

Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

PNBEPH - Barragem de Padroselos (Boticas) - "Meter água" no rio Beça

Meter Água

Estive a ler o Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico, mais o artigo em PDF, Nota sobre o Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico, e fiquei a saber que a barragem de Padroselos, no rio Beça, vai ter uma potência instalada de 113 MW e que vai produzir 102 GWh/ano.
Eu fico muito admirado de como é que um rio pequeno como o Beça poder vir a produzir 113 MW, que é o equivalente, em cavalos (1cv=735W), a 153.741 cv. Se um carro da fórmula 1 tem cerca de 800 cv, o rio Beça tem tanta potência como 192 desses carros! Parece-me cavalaria a mais para um rio tão calmo, onde eu já nadei tantas vezes, e que pouca água leva. É que a produção de energia numa barragem só pode gastar a água que o rio que a abastece lhe fornecer, senão seca, não adianta acumular muita água se só se pode gastar a que vai no rio.

Vamos lá fazer contas (Vou utilizar os conhecimentos que aprendi no liceu, em Chaves. Apesar de eu ser um emigrantezeco que anda para aqui nas jardinagens, ainda sei qualquer coisa.) a quanta água o rio tem que levar para produzir a potência de 113 MW. Sabe-se que a dita barragem vai ter 90 m de altura. Se 1 Kg de água cair da alturade 90 m, a energia que esse 1 Kg consegue transferir para a turbina é igual à sua energia potencial, que é dada por E=m×g×h. Se a massa m é 1 Kg, a constante da aceleração da gravidade g=9.8, e a altura h=90, a energia é E=882 J (J é de Joules). E esta quantidade de energia não é completamente produzida por causa da resistência do ar e do atrito, só se aproveita 76,5%, o que quer dizer que 1 Kg de água só pode produzir 674,73 J. Se imaginarmos que cai 1 Kg de água por segundo na turbina, a potência calcula-se como P=E/t, logo P=674,73/1, o que dá uma potência de P=674,73 W por quilo de água. Vamos (eu, vós corfimareis) lá calcular quanta água tem que cair por segundo para fazer a potência de 113 MW, o mesmo que 113.000.000W. Se 1Kg produz a potência de 674,73 W, são precisos 167.474 Kg para produzir 113MW! Que é o mesmo que dizer que se na turbina têm que cair 167 toneladas de água por segundo, ou que o rio Beça tem um fluxo de água de 167 toneladas de água por segundo!!!!!!!

Admitindo que a tal potência instalada é apenas a potência máxima das turbinas, vamos então fazer contas à energia produzida que é de 102 GWh/ano. Como o ano tem 365 vezes 24 horas, dá 8760 horas, tem que haver uma potência média de 11,6 MW para fazer esta energia, o que implica que haja um fluxo de água, médio, no rio de 17,2 toneladas de água por segundo, que mesmo assim ainda é mesmo muita água.
Conhecendo como eu conheço o rio Beça, um rio que em muitos sítios tem 6 ou 7 metros de largura, onde só se nada bem nas suas represas porque senão for aí a água dá pela cintura, e onde nalguns sítios é possível atravessar de jipe, não percebo como é que o fluxo pode ser de 17,2 toneladas de água (ou 17,2 metros cúbicos, é o mesmo) por segundo, em média, e muito menos 167! Como é que um jipe pode atravessar um rio e levar ao mesmo tempo com parte das 167 toneladas? Eu fico muito admirado com estes valores! Como é que um ribeiro como o Beça, um rio pequenino, pode fazer tanta potência como 192 fórmulas 1?!

Será que os técnicos não se enganaram?! Parece que os relatórios sobre a barragem têm vários erros, como os que são apontados aqui, por isso eu desconfio do que se apresenta nesses relatórios. Será que o Sócrates andou a dar trabalho a técnicos formados na Universidade Independente? Aquilo que me parece a mim é que algum desses meninos da Independente foi medir o fluxo do Beça com algum aparelho electrónico e se enganou, ao ler a escala, num factor de 1000, porque o que me parece mais certo é que no rio passem 167 Kg de água por segundo.

Parem a construção da barragem, o rio Beça não leva água suficiente para produzir energia que se veja, parem lá com isso, há outras opções melhores.

in Bloguex - 17 de Janeiro de 2008

PNBEPH - Contra a barragem de Padroselos no rio Beça

Barragem No Beça

Já há uns dias em que estou para escrever um post que apoie o José Carlos Barros contra a barragem que vai ser construida no rio Beça, no concelho de Boticas. Ainda não o tinha feito porque gostava de me informar mais sobre o assunto para poder dizer algo.

O Francisco José Viegas já deu destaque ao caso.
A única coisa que posso dizer, agora, é que não quero nada mais uma barragem a cortar a paisagem barrosã, já estou farto de tanta insensibilidade para com a nossa riqueza natural, a fauna, etc. E a barragem não vai ser pequena, terá 90 m de altura e 0,5 Km de largura. Mas sei que não é apenas dizendo "não quero" que se pode tentar contrariar uma decisão política.

Sei que confio naquilo que o JCB diz. Ele é formado em Arquitectura Paisagista, já foi Director do Parque da Reserva Natural da Ria Formosa, trabalhou no gabinete do Ministério do Ambiente com o José Sócrates, e é uma pessoa com conhecimentos e experiência na área do ambiente. Além disso, importa referir, é um grande pescador que conhece os rios de lés a lés. Também sabe bastante de como as coisas funcionam ao nível político porque, para além de já ter trabalhado com o José Sócrates, é actualmente Vice-Presidente da Câmara de V. R. de Santo António.
E, melhor do que todas as qualificações que tem, é uma pessoa com uma sensibilidade rara para este tipo de questões, coisa que muitas vezes não acontece com pessoas que trabalham na área do ambiente e do património.
Eu imagino que vai ser muito difícil contrariar uma decisão do Governo, embora não ache que seja impossível.

Acho que vai ser difícil pelas seguintes razões:

É uma decisão do Governo e não estou a ver os autarcas a contrariar uma decisão governamental, ainda que os autarcas sejam PSD. Mais, esses autarcas são os mesmos que nunca demonstraram sensibilidade para com questões ambientais e de prezervação das riquezas naturais, ou outras. São esses autarcas que deixaram que se "plantasse" uma eólica num dos Cornos das Alturas (isto diz muito) e que nunca zelaram pela qualidade das águas, dos rios do concelho, que se tem vindo a degradar, por exemplo. Claro que esses autarcas vão dizer que sim ao projeto da barragem, nem que seja para mostrar que fazem algo (Apesar da obra não ser camarária, é um garante de mais uma inauguração e da visita de algum secretário de estado.) num concelho onde quase nada se faz e aquilo que se faz nunca é de qualidade. Autarcas que publicitam a "Sedução da Montanha" enquanto plantam eólicas nas montanhas mais emblemáticas e desprezam completamente as águas onde vivem as trutas da "Dieta de Montanha", só podem ser classificados como ridículos, muito ridículos.

Por outro lado, a oposição PS não se irá impor contra uma obra do governo PS. E mesmo que por algum motivo decidam que são contra, a única coisa que irão fazer é falar, nos cafés, claro, mal da obra depois dela estar concluída, porque é aquilo que fazem sempre (é a oposição mais ridícula que eu conheço!), nunca se dão ao trabalho de protestar contra seja o que for ou organizar um mero abaixo-assinado.
Se o Governo, que emprega técnicos, supostamente, de qualidade, não sabe tomar decisões ambientais que sejam correctas, também não me admira nada que os autarcas, que na maior parte dos casos são de uma ignorância extrema, nada façam sobre questões ambientais e de prervação do património.
Restará a população para fazer alguma coisa sobre o caso. Mas como a maioria da população do concelho é constituída por pessoas pouco informadas, o que não é de admirar pois muitos vivem a mais de 20 km da livraria e tabacaria mais próximas, não estou à espera que por sua iniciativa se vão por contra técnicos governamentais e relatórios complicados que não lhes seriam fáceis de compreender. Acredito que parte da população das aldeias limítrofes, da tal barragem, sejam instintivamente contra a construção, mas não saberão mostrar o seu desagrado com argumentos de força.
O resto da população do concelho e da vila, onde reina o marasmo e o torpor diário, rejubilarão com as dezenas de trolhas que virão construir a tal barragem e que darão animação à vida social e cafés da vila. O "jetset" botiquense também tudo terá a ganhar com a passagem de algum engenheiro ou topógrafo que poderão também dar um toque exótico às conversas corriqueiras da sociedade.
Também os cucos e cuscos irão adorar a construção da barragem, um tema que lhes vai servir para milhentas conversas. Que se foda o ambiente, as trutas e as enguias. O prazer de dar uma espreitadela à barragem em construção e ir contar a novidade num dos cafés da vila vai ser orgástico.
Por isto tudo, resta-nos o JCB para fazer barulho, movimentar pessoas e encontrar uma maneira de que a construção da barragem não se venha a fazer.
Eu não posso fazer gande coisa, a não ser contribuir com a minha assinatura nalgum abaixo-assinado e falar mal da barragem, nos cafés, claro.

Eu ando desconfiado que todas as barragens, ou quase todas, são uma grande estupidez e irei escrevinhar algo sobre as minhas desconfianças, noutro post.

in Bloguex - 14 de Dezembro de 2007

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Presidente da Junta de Freguesia de Mondim contra Barragem de Fridão

PNBEPH - Terras de Basto
Presidente da Junta de Freguesia de Modim manifesta-se sobre barragem de Fridão

Tive o privilégio de nascer mondinense. Aos 17 anos regresso do Brasil e fixo-me definitivamente na minha terra natal. Apaixonei-me por esta terra mágica, pelo seu património natural, pelo seu povo, pela sua beleza única e o conforto que ela me transmitiu. Uma das suas riquezas que até hoje nunca mais deixei de usufruir e visitar - seja no inverno ou seja no verão - foi o rio Tâmega.

Recordo dos bons momentos que se vivia na época de veraneio, recordo com muitas saudades da forma como o meu pai tratava o rio Tâmega, chamava-a “a minha menina”, recordo-me quando se iniciou a canoagem pelo prof. Francisco Machado (Chico D’Asnela), e que ainda se pratica até hoje, como também da formação do Clube de Caça e Pesca pelo Dr. Faria e outros, associação que fazia todo sentido em existir, dado a pesca e a caça, remonta com certeza, como das actividades mais tradicionais nos hábitos de lazer dos mondinenses.

Como cidadão mondinense e também na qualidade de Presidente da Junta da Freguesia de Mondim de Basto, assinei a
petição que circula neste momento contra a construção da barragem. Participo neste movimento por que sei que a minha passagem pelo rio Tâmega faz parte da história de Mondim, porque tenho consideração por todos aqueles que vieram antes de mim, sei que se revoltariam e se manifestariam contra tal projecto. Assinei-a por duas razões: uma por adorar o rio como ele é, a segunda, conforme o estudo do INAG (Instituto Nacional da Água), revela que a água vai ter um elevado nível de eutrofização, isto quer dizer, uma péssima qualidade de água invalidando assim, qualquer tipo de actividade ou exploração comercial nas suas águas. No entanto, não podemos deixar de ser realista. Caso a construção da barragem seja irreversível - como já se verifica no rio Tua e Sabor - será importantíssimo que a nossa autarquia comece já reivindicar contrapartidas no sentido de melhorar aspectos fundamentais no concelho para dai proporcionar captação de investimento para o desenvolvimento de Mondim.

Referente ainda a barragem, existe uma questão que já tive a oportunidade de colocar aos protagonistas do Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega que, caso consigam impedir a construção da Barragem do Fridão, o que será do trecho do rio Tâmega entre Cavêz e Amarante, havendo a montante as barragens de Daivões e Vidago? Teremos apenas um fio de água? E no período do Verão com certeza teremos água choca.

Como um grande admirador do rio Tâmega e com a responsabilidade de um autarca, preocupo-me muito em preserva-lo e venho tentando reconquistar os antigos e nos mais jovens o hábito de frequentar e valorizar o rio Tâmega. Revolto-me quando passeio pelas margens do rio ou a praticar canoagem e vejo os plásticos pendurados pelas árvores, pneus e garrafas de plásticos no seu leito, restos de merendas nas margens, açudes destruídas, moinhos em ruínas, entre outras situações lamentáveis de assistir. Sinto tristeza por tantas pessoas terem virado costas ao rio Tâmega, abandonaram-no, “disseram que está poluído, já não é como antigamente, no meu tempo via-se o fundo do poço”. Pois é meus senhores, agora que a tal barragem que se fala há tantos anos e que agora parece ser uma realidade, diz-se, “não à barragem de Fridão!!!”. Infelizmente só quando sentimos a perda é que nos manifestamos. Revolta-me essa incapacidade e passividade em valorizarmos os nossos patrimónios, fruto de um bem-estar nosso, agravando ainda esse comodismo, quando sentimos um total vazio nos autarcas que vem gerindo este concelho durante esses intermináveis 25 anos, nunca produziram qualquer som ou gesto em prol do nosso potencial natural. Reparem no Monte Farinha, desfigurada e ninguém gritou, “Não estripem o nosso Monte!!!”. Se toda aquela ferida foi em troca de postos de trabalhos, que ao menos fosse disfarçada com a reflorestação de acordo como manda a lei das explorações de granitos.

Verifica-se também que as Fisgas do Ermelo está ameaçada em desaparecer com a construção de uma represa a montante no rio Olo. No entanto, as Fisgas do Ermelo é um local entregue ao abandono, sem graça, um turista chega, para, olha e vai de imediato embora. É extremamente importante que houvesse um ponto de apoio ao visitante, poderia ser perfeitamente a casa florestal que está apodrecendo como tantos outros imóveis deste concelho.
No meu ponto de vista, o futuro de Mondim passa pelo turismo. Já tinha essa visão o ex-presidente da Câmara que infelizmente já não se encontra entre nós o Sr. Noronha, que no seu mandato (1979-1982), já dinamizava algumas actividades dando a conhecer esta terra maravilhosa. Acolheu a construção do Parque de Campismo que em muito contribuiu como abrigo de milhares de campistas que vieram conhecer Mondim de Basto. Realidade essa, que não aconteceu até hoje com o empreendimento do “HOTEL DAS RÃS”, lançado pelo actual presidente da câmara. Agravando ainda mais, porque este Investimento foi feito com dinheiro público - dos nossos impostos - e que teimosamente o actual presidente da câmara não esclarece os mondinenses acerca deste falhanço encravado há 25 anos.

Entendo senhores mondinenses, que chegou a hora do povo dizer, “Chega de tanta pobreza de espírito!!!”.
Uma autarquia tem que ser o braço que apoia o cidadão, o pulso que faz este concelho funcionar e ter a mentalidade em despertar um espírito de conformidade de opiniões para que sejamos como uma única família mondinense. E pluribus unum. Dos muitos se faz um.

Fernando Maria Dinis de Carvalho Gomes - Presidente da Junta de Freguesia de Mondim de Basto

Artigo exposto in Mondim Online

Basto, rios de emoções

Basto, rios de emoções



Francisco Botelho, in Pessoas e Lugares, N.º 25 (p. 13) - Dezembro de 2004

O nosso rio [Tâmega]

O NOSSO RIO

O que vou referir é possível que fique na História triste de Amarante, porque se a Barragem do Torrão atingir uma cota alta, talvez os penedos com nome próprio, os lugares ribeirinhos, as ilhas, os canais, as praias, as golas e os açudes cantantes desapareçam para sempre, submerso pelas águas represadas.
Eu disse o nosso rio, porque todos nós, amarantinos, por enquanto, temos um bocadinho dele, como temos a nossa praia, a nossa ínsua ou a nossa Ilha dos Amores. As lavadeiras têm o seu lavadouro e, quem possui uma guiga, possui também na margem do rio uma árvore para a prender.
Até Pascoaes chamava seu a este Rio, pois diz num dos seus poemas:

... “Oh verdes águas do meu rio manso,
que os açudes não fazem revoltar...”

Verdes não por estarem poluídas, mas porque a luz coada através da vegetação verde das margens lhes dá uma bela cor esverdeada.
Que os açudes não fazem revoltar, porque passam suavemente por cima deles, sussurrando.
Mas deixemos por agora a poesia, para darmos um passeio de barco, vencendo as dificuldades naturais e a corrente, descendo o nosso Rio, como fiz muitas vezes, desde o açude de Frariz até ao Amarantinho. Para isso vamos seguir ao sabor da corrente, por entre margens de densa vegetação.
Deixando para tras o açude-cachoeira de Frariz, chegamos breve ao local onde está a ser construído o futuro Parque de Campismo, que ficará situado em óptimo e apropriado local. Logo adiante, à direita, podemos ver o conhecido Penedo da Rainha, impressionante pelo seu tamanho e na base do qual se podem descobrir algumas tocas de raposa. Mais abaixo, mas do lado esquerdo, temos as Veiguinhas que eram bonitas, mas agora não o são por terem sido ocupadas com instalações industriais. Ainda do lado esquerdo vemos o belo e agradável parque da Quinta da Costa Grande com altas e bonitas árvores, local que bem poderia ser aproveitado para fins turísticos. Seguindo sempre, aparece-nos, ainda do lado esquerdo, outro grande penedo, que até tem duas pranchas, de onde se pode saltar para a água, sem qualquer perigo, à sua volta, tem muita profundidade.
Sempre pelo meio e olhando agora para a direita, encontramos a Praia Aurora, a melhor, a única praia fluvial do nosso rio, onde a água não está poluída. Esta praia, com modernos e higiénicos balneários, tem um bar e tem o “penedinho”, meta inicial dos aprendizes de natação.
(Foto)
Ultrapassada a praia Aurora e as instalações de captação de água de abastecimento público, encontramos à nossa direita a conhecida Porta do Barco, hoje uma das entradas para o restaurante do Parque de Campismo. Era por esta porta que os frades saíam para embarcar e irem cultivar a Quinta de Frariz, onde criavam gado, colhiam boas hortaliças e tratavam das vinhas, que produziam excelentes vinhos. Nesta quinta há ainda uma bonita Capela do tempo deles, hoje fechada.
Depois da Porta do Barco estamos noutro açude-cachoeira, o da Feitoria, onde a água salta, com maior ou menor ruído, conforme a época do ano.
Do lado esquerdo deste açude estão as celebradas azenhas da Feitoria, um dos motivos mais procurados pelos pintores do nosso rio.
Passando o açude, temos à direita o Parque de Campismo tão apreciado e frequentado, mas que esperamos seja dentro em breve transferido para o, não menos próprio, Lugar da Rainha.
Vamos desembarcar agora na bela Ínsua. Mas antes reparemos no original Penedo do Açúcar, assim chamado por ter sempre alguma areia ou pedra moída, ma sua parte superios. Se for de Verão é certo que encontramos em cima dele alguns campistas regalados a apanhar sol.
Façamos então uma incursão na nossa pequena Ilha. Esta começa logo abaixo do açude da Feitoria e tem um avegetação densa, com aspecto selvagem. No seu interior há canais, os canelhos, assim chamados pelos antigos, que a dividem conforme as cheias e as épocas do ano. Se tivermos a sorte e for no mês de Março, podemos descobrir os ninhos com as gansas, no choco e os gansos a vigiar.
Na ponta da Ínsua, se olharmos para cima, vemos a estrutura da nova ponte, com os pilares e as tais vigas, que referi.
No lado esquerdo da ponta da Ínsua encontramos a grande gola, muito difícil de transpor em barco a remos.
A partir daqui o rio alarga muito até à Ponte Velha, onde é mais estreito.
Antes da ponte temos, do lado direito, o mercado que não devia ter sido construído aqui.
Ainda à direita, no leito do rio, próximo da margem, podemos na época seca e se o rio for baixo, apanhar grandes mexilhões, cujas válvulas chegam a atingir 10 centímetros.
Deixemos para trás e no fundo os mexilhões do Tâmega, passando agora por debaixo do grande arco da Ponte Velha, não nos esquecendo, ao transpô-lo, quando estivermos bem a meio, de bater as palmas, falar alto ou dar um berro, para ouvirmos o eco responder com nitidez.
Passada a ponte, o nosso rio alarga de novo e torna-se mais calmo, o que nos permite olhar para cima e saudar as pessoas que estão na grade do Largo de S. Gonçalo a ver os barcos ou os gansos deslizarem no rio. Um pouco mais abaixo, à esquerda, encontramos o Penedo dos Três Irmãos, de triste memória, segundo a tradição.
Estamos então no Rossio das lavadeiras, que hoje raras vezes lá se encontram, mas onde, em contrapartida, podemos encontrar parte da «frota» dos grandes gansos brancos, que tão bonitos são.
Chegamos depois a novo açude cantante, o dos Morleiros. Mas não podemos deixar de ver, antes dele, a Ilha dos Amores, paradisíaco lugar do Parque Florestal.
Na parte direita deste açude há um canal para levar a água ao moinho da azenha dos Morleiros, água que o faz funcionar há mais de 200 anos.
No lado esquerdo do açude vemos um penedo conhecido pelo nome de Penedo das Pombas onde, de facto, se encontram sempre duas ou três pombas a beber ou a tomar banho e onde há uma videira bravia vivendo há muitos anos com raiz na areia numa fenda da rocha.
A água, ao saltar neste açude e nos rochedos que se lhe seguem, faz um ruído suave que se ouve bem até no Hotel Silva e na Rua Cândido dos Reis.
Entre o açude e a margem, do lado da Florestal, há o estreito pequeno a que se seguem as sete golas, muito perigosas para quem não souber nadar ou nadar mal.
A seguir ao açude temos a Praia dos Morleiros, que seria também boa se a água não estivesse poluída pelos esgotos directos das casas ribeirinhas.
Estamos agora na Varziela e no meio do rio surge-nos o Penedo da Moura que, quando criança, eu queria desencantar à meia-noite, conforme a lenda. Este é o último penedo, com nome, no curso do rio dentro da área da Cidade.
Chegamos depois ao Paúl e finalmente ao Amarantinho, nossa meta.
Depois deste passeio paradisíaco, vem à ideia uma poesia de Pascoaes, bem enquadrada neste ambiente:

“Azenhas, velhas mós de pedra dura;
Açudes, borbotões de espuma a cair;
Grupos de árvores, maciços de verdura,
Cercados da água a rir.”

______________________

P.S. – Àqueles que ficaram admirados ou incrédulos ao saber que no nosso rio há grandes
mexilhões, digo que também há camarões, lampreias, enguias, irós, barbos, escalos, bogas e até já foram pescadas trutas no açude de Frariz.
Esta é a parte da fauna aquática, pois há outra que se alimenta desta: lontras, cágados ou sapo-conchas, pica-peixes, melros aquáticos, pitas de água ou mergulhões, etc., etc..

Luís van Zeller Macedo (1989), Pequena História de Amarante (pp. 21-24), edição autor, Amarante.

Mensagem de apoio à «Causa» do Tâmega na "blogosfera"

PNBEPH - Programa Nacional de Barragens
Mensagem de apoio à «Causa» do Tâmega na "blogosfera"

«Tâmega

Tal como no Rio Tua
, para o Tâmega está planeado um complexo hidroeléctrico que alterará por completo a face da região de Basto. Há uma petição online, devidamente justificada, contra esta opção arrojada do governo.»

Francisco Rodrigues, in Mesa da Ciência - 03 de Janeiro de 2009

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Uma carta dirigida ao Alto representante da Comissão Europeia Durão Barroso sobre o Programa nacional de barragens em Portugal e a legislação Europeia de
Ambiente




Para ler o conteúdo da carta clique no seguinte endereço:http://www.unizar.es/fnca/varios/080325barroso.pdf.

ONGs alertam UE para impacto de construção de barragens

ONGs alertam UE para impacto de construção de barragens

Lisboa, 21 mar (Lusa) - Organizações Não Governamentais do Ambiente (ONGA) alertam, no Dia Mundial da Água, o presidente da Comissão Européia (braço executivo da União Européia, UE), Durão Barroso, para o impacto da construção de 12 novas barragens na qualidade e quantidade dos ecossistemas aquáticos.

Os ambientalistas, em carta enviada a Durão Barroso, reconhecem os aspectos positivos da energia hidroelétrica, mas apontam "danos significativos nos cursos de água" e desvalorizam o impacto na redução das emissões para a atmosfera.

Em outubro, o governo português, através do Instituto da Água, apresentou o Programa de Barragens com Elevado Potencial Hidroelétrico (PNBEPH), um plano estratégico que seleciona, dentro de 25 hipóteses, a localização de dez novas barragens de acordo com critérios sociais, econômicos e ambientais.

Após um processo de avaliação ambiental estratégica, foram selecionadas seis barragens na bacia do Rio Douro, duas na bacia do Rio Tejo e uma nas bacias dos Rios Vouga e Mondego, tendo-se adicionado posteriormente o projeto do Ribeiradio e Baixo Sabor.

O PNBEPH visa aumentar o potencial hidroelétrico do país para 7000 MW, o que representa um acréscimo de 2000 MW até 2020 para reduzir a dependência energética de Portugal, diminuir as emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE) e, por último, visando cumprir a meta européia de atingir 20% de produção de energia a partir de fontes renováveis até 2020.

Mas os ambientalistas não vêm apenas os aspectos positivos destes empreendimentos, detectando vários problemas para a natureza.

Em comunicado, o presidente da Liga para a Proteção da Natureza Eugénio Sequeira explica que "os planos de construção de 12 novas barragens serão responsáveis por danos significativos em alguns cursos de água naturais".

O ambientalista acusa o governo de ter "fracassado na avaliação dos impactos ecológicos" e de não ter apresentado soluções alternativas mais efetivas em termos de custos e impactos ambientais, tais como a "microgeração, a expansão da energia solar ou a redução dos consumos".

Estas organizações ambientalistas afirmam que o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável Português (BCSD Portugal) estimou que o país tem potencial para poupar até 40% do seu atual consumo energético através da gestão de procura.

No entanto, afirmam, o governo em vez de se concentrar em soluções de implementação "simples" opta por investir um bilhão de euros num Programa de Barragens, cuja produção de eletricidade é equivalente a 3,3% da energia consumida em Portugal e que apenas diminui em 1% a emissão de gases com efeito de estufa.

Estes ambientalistas denunciam a ausência de uma avaliação "correta" sobre os impactos negativos da implementação deste programa e os benefícios decorrentes da não construção.

E adiantam que o plano das barragens "não apresenta uma avaliação qualitativa ou quantitativa ou qualquer ponderação sobre potenciais alternativas energéticas para a produção da energia prevista pelas barragens propostas", desconsiderando os compromissos governamentais de um aumento de 20% da eficiência energética em 2020 e ignorando a oportunidade de usufruir de tecnologias energéticas mais baratas e renováveis.

Esta ausência de avaliação do impacto da implementação do projeto e sugestão de alternativas exigida pela Diretiva de Avaliação Estratégica de Impactos Ambientais resulta numa violação da Diretiva-Quadro da Água (DQA), consideram os ecologistas.

"O PNBEPH não cumpre os objetivos da DQA no que toca a contribuir para a mitigação dos efeitos das cheias e secas pois este projeto não gera o fornecimento de uma quantidade suficiente de água de boa qualidade para uma utilização sustentável, equilibrada e eqüitativa", referem, na carta enviada ao presidente da Comissão Européia.

Os ambientalistas defendem que, considerando as características climáticas portuguesas, o armazenamento de água em aqüíferos subterrâneos é uma forma mais eficiente de garantir a qualidade e a quantidade de água do que os reservatórios superficiais.

Assim, esta ONGA - constituída pela LPN e Quercus em parceria com as associações Aldeia, Almargem, COAGRET-Portugal, Euronatura, FAPAS, Fundação Nova Cultura da Água, GEOTA, Grupo Flamingo, SPEA e o European Environmental Bureau - exige que Durão Barroso supervisione a concretização deste projeto e garanta que este não tenha seguimento sem antes ser avaliado.

in Uol (Ciência e Saúde) - 21 de Março de 2008

domingo, 11 de janeiro de 2009

Barragem de Fridão: Um crime capitalista




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Barragem de Fridão: Um crime capitalista
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(clicar na imagem para melhor visualização)

José Gonçalves, in O Jornal de Amarante (p. 9) - 23 de Outubro de 2008

Os prós e contras das barragens

Os prós e contras das barragens

O debate sobre as barragens é sempre complicado. Perante a emergência das alterações climáticas e o aumento do preço do petróleo, os ecologistas são constantemente encostados à parede pela sua suposta incoerência quando criticam a construção de uma barragem. Se ultrapassarmos a chantagem que consiste em escolher entre a água e o carvão, contudo, podemos analisar o dilema energético de forma mais sensata. Analisemos então as vantagens e desvantagens da opção hidroeléctrica e vejamos se merece ser encarada como uma alternativa ambientalmente correcta aos combustíveis fósseis.

O dilema ecológico

A Directiva-Quadro da Água (2000/60/CE) compromete os países da UE com metas em relação à qualidade da água até ao ano de 2015, prevendo a sua gestão em função de planos de bacia hidrográfica. Perante o investimento em grandes barragens e o impacto que esse investimento terá na qualidade da água dos rios, parece bastante claro que Portugal não vai cumprir esta regra. Num país onde as secas são cada vez mais frequentes, chega ao ponto de ser um crime contra a população o estado desastroso da gestão dos recursos hídricos. O Plano Nacional de Barragens é, aliás, demonstrativo deste ponto, tendo em conta que foi aprovado antes de terem sido aprovados os planos de gestão das bacias hidrográficas.

Não fosse o facto de a qualidade de água piorar imenso com a construção de barragens e até poderia fazer sentido construí-las em zonas agrícolas. O desastre em que resultou a construção da barragem do Alqueva, contudo, devia fazer-nos pelo menos reflectir sobre a viabilidade desta opção. O mesmo se pode dizer, aliás, relativamente à construção de barragens para controlo das cheias, tendo em conta que o seu efeito neste aspecto é pouco claro.

As barragens são também más notícias para a preservação da biodiversidade. Ao impedirem o percurso migratório de numerosas espécies de peixes, levam ao seu desaparecimento. Nas albufeiras, proliferam as espécies exóticas, tendo em conta que o ecossistema se aproxima do de um lago. Para os vertebrados que percorrem as zonas afectadas, o surgimento de uma enorme albufeira onde dantes havia um pequeno rio coloca também um entrave à sua mobilidade. O habitat de muitas espécies animais torna-se assim mais reduzido, aumentado o risco de extinção.

Outro grande inconveniente das barragens que é pouco mencionado é o da redução do caudal sólido. Os rios transportam grandes quantidades de sedimentos ao longo do seu trajecto. Quando desaguam no mar, uma parte uma parte dos sedimentos irá fornecer nutrientes ao mar, essenciais para muitas espécies piscícolas. Outra parte deposita-se na costa, dando origem à areia das praias. Ao impedirmos a circulação dos sedimentos pela construção de represas estamos assim a contribuir para a erosão costeira, potenciando fenómenos como os que assistimos recentemente na Costa da Caparica.

Tudo isto se justifica, dizem os defensores da opção hidroeléctrica, face à necessidade de combater o aquecimento global. Mas as barragens não são neutras em carbono. Nas albufeiras a matéria vegetal decompõe-se a um ritmo superior ao normal, estimulando a produção de metano, um poderoso gás com efeito de estufa. Um estudo recente[1] concluía que as barragens contribuem em 4% para o aquecimento global, tendo em conta estas emissões. Decorrem neste momento outros estudos visando quantificar a contribuição das barragens para a emissão de dióxido de carbono e de óxido nitroso.

O dilema social

Construir uma grande barragem implica quase sempre deslocar populações, sendo frequentes os casos em que povoações inteiras são submersas. As condições em que se efectuam os realojamentos são ilustrativas da forma como se encara o mundo rural. Forçados a abandonar as terras mais férteis, situadas nos vales dos rios, os habitantes da zona afectada pela barragem são deslocados para zonas onde a produtividade agrícola é menor, recebendo em troca uma indemnização cujo valor chega a ser insultuoso. Quanto às esperanças de desenvolvimento, cedo se desvanecem.

As barragens não geram emprego para os locais. Quem constrói as barragens são trabalhadores vindos de fora, frequentemente até de fora do país, trabalhadores esses que são colocados em guettos improvisados, sendo impedidos de ter qualquer contacto com a população local. Uma vez construída a barragem descobre-se rapidamente que o emprego gerado se resume a ... quase zero.

O mesmo se pode dizer das promessas de criação de uma atracção turística. Os dedos das mãos não chegam para contar as albufeiras que se tornaram em pólos dinamizadores de turismo. Por outro lado, deveria ser claro que existe um potencial não explorado de turismo de natureza nas zonas que irão ser submergidas dos rios Sabor e Tua.

O dilema energético

Estamos num país onde o desperdício de energia atinge os 60%. O Governo prefere ignorar este facto, contudo, preferindo apostar em políticas de expansão da oferta, em detrimento da conservação de energia via melhoria da eficiência energética e renovação da (obsoleta) rede eléctrica nacional. É neste contexto que surge o projecto megalómano de construir mais 10 barragens como solução para o dilema energético. Porquê as barragens? Por três grandes motivos.

O primeiro é o da fiabilidade. As renováveis apresentam uma grande desvantagem: a fiabilidade. A cada momento, a quantidade de energia eléctrica que entra na rede tem que ser obrigatoriamente igual à quantidade de energia que é consumida, dado que não temos forma de a armazenar. Ora, regular a energia produzida por uma central termoeléctrica é simples, dado que a produção depende de um combustível. Mas enquanto que uma central a gás natural pode começar a produzir energia à capacidade máxima em dois segundos, é impossível controlar a produção de uma turbina eólica. Isto pode parecer uma questão técnica menor mas é na realidade o maior entrave à expansão das energias renováveis.

Neste ponto entram as barragens. Actualmente é possível construirmos barragens capazes de bombear àgua de jusante para montante. Utilizando esta tecnologia podemos ter um sistema de barragens que nos permita aproveitarmos melhor o potencial da energia eólica. O funcionamento é simples. Entre duas barragens (a principal e uma mais pequena de apoio) armazena-se água durante as horas de cheia. Nas horas em que o consumo de energia é inferior à produção (usualmente, durante a noite) utiliza-se o excesso de energia para bombear de novo a água para a albufeira da barragem, de forma a termos a água ao nosso dispor para produzirmos energia quando necessitarmos. Aquilo que é uma maravilha da engenharia, contudo, é um pesadelo do ponto de vista ambiental. Ao bombearmos água desta forma de um lado para o outro antes de a libertarmos finalmente no rio estamos a exponenciar todos os problemas anteriormente mencionados relativamente à qualidade da água. Tendo em conta que a água que entra na barragem não é a mesma que sai, podemos mesmo dizer que é uma falácia caracterizar esta fonte de energia como renovável.

A fiabilidade da hidroeléctrica é, no entanto, um mito. Os dados apresentados pelo Prof. Bordalo e Sá numa conferência que assisti recentemente[2] são suficientemente elucidativos a este respeito. Se analisarmos a produção de energia das barragens ao longo de um ano ou de um mês assistimos a oscilações sazonais enormes. Mais surpreendentemente ainda, o caudal dos rios e, consequentemente, a produção eléctrica chega a apresentar oscilações consideráveis ao longo de um dia. Tomando como referência o Douro, o rio mais afectado pelas barragens, chegamos a ter várias horas durante a noite em que o caudal é zero, resultado sobretudo da actuação das enormes barragens situadas além da fronteira.

O segundo grande motivo apresentado para o reforço do investimento nas barragens é o da dependência energética. Para nos livrarmos da dependência dos combustíveis fósseis, diz o Governo, temos de expandir imenso a nossa produção de energia proveniente de fontes renováveis e isso implica um grande investimento na energia hídrica. Mas este argumento esbarra num factos que o demente. A maior parte da energia consumida em Portugal destina-se ao sector dos transportes, de onde se conclui que o nosso problema de dependência em relação ao petróleo pouco ou nada tem a ver com a estrutura do nosso sistema energético.

O terceiro motivo é o do aproveitamento do potencial hídrico. Devemos encarar como um desperdício o facto de aproveitarmos apenas metade do potencial energético dos nossos rios. Nada pode ser, do ponto de vista ecológico, mais enganador. Se quisermos viver neste planeta sem enfrentar alterações no meio que nos rodeia que ponham em causa a nossa civilização temos de saber encarar o facto de que não podemos utilizar todos os recursos que temos ao nosso dispor. A maior parte dos rios deverão, portanto, escapar à utilização para produção de energia, da mesma forma que a maior parte dos combustíveis fósseis terão que ser deixados no subsolo. Apenas assim podemos dizer que o conceito de desenvolvimento sustentável é algo mais que um chavão.

O que está em causa

A execução do Plano Nacional de Barragens levará a um acréscimo na produção de electricidade que corresponde a 3,3% do consumo final de 2006, permitindo uma redução nas emissões que, na melhor das hipóteses, representará 1% do valor de base do Protocolo de Quioto[3]. Mesmo estes números poderão estar, contudo, sobre-inflacionados. As recentes estimativas publicadas pelo IV Relatório do IPCC referem uma redução na produção hidroeléctrica até 2070 de 20% a 50%, como resultado das alterações climáticas. Tendo em conta que cada barragem custa 250 a 400 milhões de euros, não me parece que estejamos perante um bom investimento.
_______________
1. Dados da International Rivers.
2. Conferência sobre barragens organizada pela Liga para a Protecção da Natureza, a 29/11, no auditório da Fundação de Serralves, Porto.
3. Parecer da Quercus sobre o Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico.

Ricardo Coelho, in EcoBlogue - 10 de Dezembro de 2007

sábado, 10 de janeiro de 2009

Em defesa do direito à água


Um seminário interessante para a nossa causa "Salvar o Tâmega e a vida no Olo", que se baseia num importante ponto a ser discutido neste seminário: o direito à água com qualidade.

Para mais informações consultar o sítio: direito à água.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

AMARANTINOS NÃO ACEITAM BARRAGEM EM FRIDÃO

AMARANTINOS NÃO ACEITAM BARRAGEM EM FRIDÃO
A voz dos que estão na linha de rebentação




POPULAÇÃO DA ZONA RIBEIRINHA RECEIA UM ACIDENTE NA FUTURA BARRAGEM DE FRIDÃO

A população de Amarante está contra a anunciada construção de uma barragem no Rio Tâmega em Fridão.
Ainda bem frescos na memória dos amarantinos estão os malefícios que a barragem do Torrão causou à zona ribeirinha da cidade: O rio deixou de ser a principal atracção turística nos meses de Verão e toda a cidade perdeu, principalmente o sector da restauração.

Com a construção do novo empreendimento, " a cidade de Amarante corre o risco de sofrer um desastre ambiental devido à elevada poluição do rio Tâmega, se a barragem de Fridão for transformada em aproveitamento reversível, ficando emparedada entre dois açudes e duas barragens", alertou recentemente Rui Cortes, professor da Universidade de Trás-os- Montes e Alto Douro.
Em entrevista recente, a este jornal, Hugo Silva afirmou que se tivesse uma casa na Rua 31 de Janeiro "fugia de lá". Esta afirmação, corroborada pelo presidente da Câmara, deixou a população ribeirinha preocupada, ainda mais quando o deputado municipal Emanuel Queirós levantou a questão para o perigo dos sismos induzidos, um problema que "está completamente desvalorizado e foi até descurado".
Já em 1995, Emanuel Queirós falava das consequências previsíveis sobre o rio Tâmega e a cidade de Amarante.
Para o actual deputado municipal, "A Barragem de Fridão encontra-se projectada para ser construída no limite das freguesias de Fridão e Codeçoso, dos concelhos de Amarante e Celorico de Basto, respectivamente, 6 Km a montante da cidade de Amarante. Com a supressão da localização intermédia prevista inicialmente para o nível da Senhora da Graça (Mondim de Basto), prevê-se que a barragem de Fridão possa atingir uma altura de 110 metros, que a morfologia do lugar comporta. Pleneada para interceptar o leito do rio Tâmega e nele reter um volume de 210 hm3 de água, a barragem de Fridão, tanto pela sua dimensão como pela posição relativa face à cidade de Amarante, vem colocar em questão não só os impactes ecológicos imediatos resultantes da inundação que a albufeira originará nos concelhos de Basto, mas, sobretudo, os impactes directos potencialmente consequentes a jusante da construção. Assim será no que se relaciona com o desvio do leito do rio Olo, na parte final do seu traçado; a dificuldade em garantir a manutenção do caudal ecológico do próprio rio Tâmega em período normal de estiagem entre a barragem de Fridão e a cidade de Amarante; a integridade e eficiência do sistema de captação, tratamento e abastecimento público de águas, partindo do rio Tâmega, em consequência da libertação de águas quimicamente alteradas depois de acumuladas na albufeira.
A grandeza e a extensão das consequências que a construção da Barragem de Fridão irá provocar localmente justifica, que o respectivo dossier seja colocado perante as mais altas instâncias decisórias do País, levado aos principais órgãos de soberania do Estado Português, para que as mais sérias preocupações locais sejam devidamente atendidas, e a decisão final sobre o futuro da barragem de Fridão fique com quem tem o sentido justo do exercício democrático"
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Todos os partidos já manifestaram a sua discordância em relação à anunciada construção da barragem de Fridão.
Para conhecermos a posição das pessoas que trabalham e vivem da rua 31 de Janeiro, o NTA registou a opinião de alguns comerciantes, já habituados a sofrer com o efeito da barragem do Torrão em época de cheias. O sentimento é de revolta e manifestaram-se totalmente contra a construção de um paredão no Tâmega, com 110 metros de altura.
A possibilidade, ainda que remota, do rebentamento da barragem, é outro dos problemas que afligem os amarantinos.

António Gonçalves (Casa Gonçalves)
Sou contra a construção da Barragem por várias razões: a primeira é precisamente por causa da destruição ambiental que vai acontecer e a segunda por causa do nível das cheias. Se agora é mau, quando construírem a barragem o nível das águas vai subir ainda mais. Acho que ninguém construiria uma casa perto de uma central nuclear por muito seguro que fosse. Portanto, no nosso caso, é quase igual porque os nossos estabelecimentos ainda vão estar mais ameaçados.
A história diz-nos que de vez em quando uma barragem vai abaixo e também nos diz que a massa de água aliada à velocidade destruiriam Amarante em seis minutos. Uma parede de água com 110 metros de altura a uma distância de 6 Km ia com certeza destruir a nossa cidade. O que me comove é que o que representa a barragem de Fridão no plano energético nacional é praticamente nulo. Eu faço parte do movimento "Por Amarante sem barragens" e peço que toda agente se una a nós para travar esta barragem porque o que está aqui em causa é uma cidade e, por isso, não pode haver divisão de partidos.
Eles têm que se unir e lutarem com mais força. Estou convencido que Amarante ainda vai conseguir que não se faça esta barragem, já que o Dr. Armindo Abreu disse publicamente que é contra a construção da barragem.
Espero que ele não fique só pelas palavras. É um apelo que eu lhe faço.

Hilda Faria (Pastelaria Tinoca)
Sou contra a barragem porque já tenho tido muitos problemas com as cheias e acho o facto de ser construída uma tão perto ainda vai ser pior. Aquilo vai ser um muro de betão tão grande a reter a água que se vem um ano de chuvas fortes eles abrem as comportas e nós é que levamos com a água toda.

Lúcia Monteiro (Restaurante Zé da Calçada)
Sou contra a barragem, porque temo pelos meus bens. Sem a barragem já temos tido problemas de cheias, de águas paradas a provocar maus cheiros e isso é muito prejudicial para um estabelecimento de restauração porque os clientes não gostam de estar a comer e a sentir um cheiro nauseabundo vindo do rio.
Se o nível da água subir muito vai estragar as margens do rio e a paisagem que se vê.

Avelino Basto (Casa das Malas)
Sou contra a barragem. Preocupa-me muito manter o estabelecimento neste local atendendo à forma como irá ficar a barragem. Este é o meu local de trabalho e receio um dia vir a perder alguma coisa. Já é um transtorno muito grande quando acontecem as cheias que fará com a subida do nível das águas. É provável que com a barragem toda a beleza que esta rua transmite se perca e faça com que as pessoas se afastem.

in Por Amarante, Sem Barragens, (do "Tribuna de Amarante") - 21 de Maio de 2008


Programa Nacional de Barragens em sentido contrário à eficiência e à poupança

Andar ao contrário O Tratado de Lisboa não podia deixar de apontar novos caminhos para alguns dos novos grandes desafios que se colocam actualmente a nível global. Não surpreende, pois, que preveja disposições específicas sobre política energética; e que, neste domínio, dê clara prioridade à «promoção da eficiência e poupança».

A União não tem outro caminho. Portugal, sobretudo, não tem outro caminho: somos dos países da Europa onde a ineficiência energética apresenta os valores mais elevados e onde os potenciais de poupança de energia podem ascender a 40% do consumo actual.

Mas não. Com o Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEPH) decide o Governo atalhar exactamente em sentido contrário ao da promoção da eficiência e da poupança – actuando pelo lado da oferta, do desperdício financeiro, da destruição da Paisagem e de recursos endógenos, do facilitismo e da preguiça.

Veja-se o absurdo: os consumos energéticos actuais no nosso país têm vindo a aumentar 4% ao ano; o nosso potencial de poupança ascende a 40%; o PNBEPH, concluída a totalidade dos investimentos previstos e em velocidade de cruzeiro, prevê a ambiciosa meta de um aumento de 3% da energia disponível…

José Carlos Barros, in Negrilho - 15 de Dezembro de 2007

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A anunciada explosão de barragens no Tâmega

A anunciada explosão de barragens no Tâmega

O Plano Nacional de Barragens anunciado pelo Governo e que está em consulta Pública até ao fim do mês de Outubro [2007] prevê a construção de 10 novas barragens, seis da quais na bacia do Douro (dando já como adquirida uma sétima, no Sabor).

Dessas seis, cinco estão previstas para a sub-bacia do Tâmega (a outra é a famosa barragem do Foz-Tua, a que irá submergir a linha do Tua a que já nos referimos num post anterior). Quatro das cinco barragens da sub-bacia do Tâmega serão construidas no interior de um círculo com um raio de 10 km (Vidago e Daivões, no Tâmega, ; Gouvães, no afluente Louredo; Padroselos, no afluente Beça). A 5.ª, Fridão, situa-se a 12 [6] km a montante de Amarante.

Olhando para o mapa da bacia do Douro é fácil perceber que se trata de uma bacia com o rio principal artificializado e com quase todos os restantes altamente intervencionados. Restam pequenas áreas em que os sistemas lóticos prevalecentes se podem classificar de naturais, isto é, onde a biodiversidade ainda é relevante. Entre eles, o Tâmega, a montante de Amarante.

O Tâmega já tem uma barragem, a do Torrão. Segundo o catedrático de Hidrobiologia da UTAD, Prof. Rui Cortes, o Tâmega já se encontra altamente poluído no Torrão e a poluição tenderá a aumentar com a construção da barragem do Fridão. O funcionamento conjunto de ambas obrigará à submersão de parte do actual parque da cidade de Amarante. São previsíveis impactes negativos na cidade e no rio por efeito de fenómenos de eutrofização. A acumulação de nutrientes nas albufeiras levará à libertação de metano, um dos principais gases responsáveis pelo "efeito de estufa". Este académico interroga-se sobre a lógica de decidir pela localização destas grandes barragens antes da elaboração do Plano de Ordenamento da bacia do Douro, cujas características, já de si deficientes, serão obviamente alteradas pela construção das barragens.

Neste debate sobre o Plano Nacional de Barragens duas perspectivas se cruzam: a dos que olham para os rios como "grandes banheiras" ainda por encher, e a dos que olham para os rios como ecossistemas frágeis fornecedores de serviços ambientais diversificados (entre os quais o fornecimento de sedimentos ao litoral)que serão altamente prejudicados, para não dizer anulados, com a construção de grandes barragens.

Os primeiros põem a tónica no aumento da produção de energia eléctrica, vital, segundo dizem para o desenvolvimento do país. Os segundos defendem a adopção de um plano de medidas que melhorem a eficiência energética (isto é, produzir mais com a mesma quantidade de energia), já que Portugal é um dos piores da Europa neste capítulo.

Os primeiros apontam a Espanha como um exemplo de aproveitamento do potencial hidroeléctrico dos seus rios a 80%. Os segundos clamam contra a incapacidade do Estado português em fazer a Espanha cumprir os seus compromissos consignados na Convenção de Albufeira no que respeita aos caudais do Tejo, Douro e Guadiana, quer em termos de qualidade, quer de quantidade.

E claro, fica sempre a ideia de que, agora que o Novo Aeroporto de Lisboa e o TGV estão em "banho-maria", convirá acenar ao poderoso lobby das construtoras uma carteira fresquinha de obras para lançar brevemente, com os anunciados dinheiros do QREN.

Em nome da Valorização do Território.

Carlos Nunes da Costa, in GeoRiscos - 21 de Outubro de 2007

Barragem de Fridão - consequências negativas para Amarante

Barragem de Fridão
Consequências negativas para Amarante

O fantasma da construção da barragem de Fridão, paira sobre Amarante.

O projecto hidroeléctrico prevê a sua instalação a cerca de 12 quilómetros a montante do centro urbano de Amarante, o que a confirmar-se trará prejuízos irreparáveis no património paisagístico da cidade e destruirá permanentemente o ex-libris, envolvente das margens e as pequenas ilhas ou ínsuas existentes próximas da ponte de S. Gonçalo.

Diminuirá de forma irreversível a corrente da água, provocando uma estagnação das mesmas, o que contribui para a sua degradação e até para a própria qualidade de vida das populações, que vivem próximo da zona ribeirinha.

Com a água estagnada, será desencadeado um processo de eutrofização, o que originará no aparecimento de algas, algumas das quais com níveis de toxicidade, espécies piscícolas serão gravemente afectadas, e o seu desaparecimento uma certeza, subsistirá espécies exóticas, os ecossistemas existentes serão extintos.

Como se não basta a possível construção da barragem de Fridão, encontra-se também na "calha", a edificação de um açude a jusante para tentar restabelecer a circulação da água, mas que será insuficiente para manter viva a fauna e a flora.

Até mesmo a cota da barragem do Torrão poderá subir, com a implantação deste projecto hidroeléctrico o que acarretará ainda mais pesadas consequências, na água que atravessará a cidade, pela sua falta de oxigenação.

O referido empreendimento hidroeléctrico prevê o armazenamento de cerca de 200 mil milhões de metros cúbicos de água, ultrapassando em mais do dobro a água que actualmente comporta a barragem de Torrão.

No Plano Nacional Hidroeléctrico Foz Tua, Fridão e Vidago são os empreendimentos hidroeléctricos prioritários, o seu conjunto representa 487 megawatts, que representa cerca de 10% da energia eléctrica produzida em Portugal.

É por isso de vital importâncida toda a Sociedade Civil Amarantina mobilizar-se para lutarem constra a construção da Barragem de Fridão.

E até mesmo quem já visitou ou conhece Amarante, e passeou nas suas margens, ou visitou belos lugares frondosos de árvores, situadas na sua próximidade e viu o enquadramento paisagístico e arquitectónico proporcionado por aquelas imagina com certeza o que irá suceder com a existência de uma barragem a poucos quilómetros do centro de Amarante.

Voltarei em próximos artigos a abordar esta problemática indicada.

Carlos Portela, in Carlos Portela-Blogue - Sunday 16 November 2008 18:08

Barragem de Fridão - património a submergir pela albufeira

Ponte de Arame Lourido

A bela Ponte de Arame que atravessa o rio Tâmega e liga Lourido (Arnoia – Celorico de Basto) a Rebordelo concelho Amarante, foi votada ao abandono...

...mas para mim Celoricense, é motivo de grande orgulho, apesar de não a poder atravessar como gostaria com receio não da queda, mas porque não sei nadar, continua com o seu encanto e beleza.

Se como tudo indica avançar a Barragem de Codeçosso/Fridão então esta passará à história…

Viva a Ponte de Arame...

in Blog Celorico de Basto - 30 de Outubro de 2008

domingo, 4 de janeiro de 2009

Garcia Pereira diz «Não à barragem de Fridão!»

Garcia Pereira diz «Não à barragem de Fridão!»

Transcrevemos de seguida, da responsabilidade da redacção do blogue «Discurso directo», o teor de parte da intervenção de Garcia Pereira proferida em Amarante no dia 27 de Setembro de 2008, em debate realizado pelo PCTP/MRPP contra a construção da barragem de Fridão:

«Nós não somos, creio que aqui ninguém será em abstracto contra o recurso a novas tecnologias e contra a realização de obras públicas que se revelem de interesse para as populações. Agora o que de certeza nós não somos é estúpidos, nem somos carneiros nem queremos ser. E, portanto, não engulimos pela garganta abaixo, argumentos que visam apenas fazer uma coisa que hoje é muito típico do nosso país, que é dar uma veste alegadamente científica e correcta a algo que é profundamente incorrecto.

Porque é que os adeptos desta solução não dão a cara em debates, em pé de igualdade, com os críticos desta solução? Mas, porque é que não aceitam discutir em pé de igualdade? E porque é que as verdades que são feitas... saem na televisão, saem nos grandes órgãos da comunicação social, que são hoje meras caixas de ressonância do poder?!
É óbvio que não nos espantemos com a circunstância de não estar aqui nenhum órgão de grande expansão da comunicação social. Esses estão lá, que é para dar guarida aos sound bites dos ministros e do primeiro-ministro a propósito de recursos hídricos, a propósito de política de transportes, a propósito de política agrícola, a propósito de todos aqueles aspectos, a propósito de política ambiental, todos aqueles aspectos que se prendem directamente com os interesses e com direitos fundamentais dos cidadãos.

De facto, nós praticamos exactamente o oposto daquilo que devia ser! Portugal é hoje, designadamente no quadro da União Europeia, uma mera colónia europeia. Isto é, o governo português é um comité de negócios daquilo que é decidido em Bruxelas e, portanto, a política ferroviária, por exemplo, que é decidida para o nosso país, toda a gente percebe hoje, e percebeu e tornou-se e, depois, apareceram por aí uns espertos, daqueles que estão sempre calados, ou daqueles que estão sempre a apontar o dedo aos que levantam a voz dizendo "lá estão os bota-abaixo, lá estão os críticos por sistema", esses descobriram, por exemplo, quando foi a última chamada "greve dos camionistas", que Portugal tem um trânsito rodoviário, designadamente em camiões TIR, absolutamente brutal e que, para um país medianamente desenvolvido como nós temos condições para ser, uma rede ferroviária, com transporte que é mais barato, mais cómodo, mais seguro e que permite o grande transporte de massa, nós precisávamos, de facto, de uma rede ferroviária de interior que ligasse harmonicamente todas as regiões do país.

Mas isso era o que alguns, entre os quais o PCTP/MRPP, andam a dizer à décadas! No entanto, evidentemente, qual é a política ferroviária que nós temos?
Os senhores conhecem isso até melhor do que eu, é a política ferroviária imposta pelos grandes interesses. E, portanto, a política ferroviária, a política de transportes que interessa não é haver grandes linhas ferroviárias para esta zona da Europa. Isto aqui é o refugo! Isto aqui é, para essa gente, o receptáculo dos produtos que já não têm escoamento no resto da Europa, é uma zona como, aliás, nós estamos a ver o nosso país ser transformado, uma zona que não tem agricultura, está a ser destruída na sua amplitude total, é um país que não tem praticamente indústrias neste momento, não tem pescas, não tem minas; é um país que tem alguma construção civil, quando se anima, de vez em quando, quando há uns negócios de barragens, ou estádios, ou um aeroporto para construir e um terciário, que na sua maioria, é um terciário de baixissima qualificação. É, aliás, por isso - e vai de passagem - Portugal tem, apesar do discurso oficial que diz que Portugal tem muitos doutores, nós temos duas vezes e meia menos licenciados e portadores de qualificações de grau equivalente ao superior e, no entanto, temos, de longe, a maior percentagem de desemprego de licenciados, em particular, dos jovens. Isto é, hoje, o futuro que se abre aos jovens no nosso país é tirarem um curso superior e na maioria dos casos ou irem para o desem..., ou emigrarem, ou irem para o desemprego ou terem, andarem à procura de um call center da PT ou uma coisa semelhante, ou um lugar na peixaria do Continente, ou um repositor das lojas do mesmo hipermercado mediante um miserável emprego de quinhentos ou seiscentos euros por mês quando muito, e a prazo ou recibo verde.

Nós não temos licenciados a mais nem temos jovens a mais, temos é economia a menos o que é um problema completamente oposto, mas isto decorre exactamente de o destino que foi dado ao nosso país é este.
Depois, Portugal não é uma democracia! Também temos de dizer as coisas com todas as letras, e desafio: este debate tem de ser feito em Portugal, tem de ser feito sem ser com base nas bocas e nos chavões. É que a democracia, desde os tempos da antiga Grécia, a essência da democracia, não é meter um papelinho, dobrado em quatro, de quatro em quatro anos dentro de uma urna e, depois, uns senhores que por acaso até ganham a maioria desse voto, se arvorarem em donos dos nossos próprios destinos, se esquecerem completamente daquilo que nos prometeram e passarem a fazer rigorosamente o oposto, em nome de que lhes foram dados os votos. A democracia é exactamente o oposto disso.
A democracia é a salvaguarda dos pontos de vista da minoria, porque as minorias podem ter razão, e ao longo da história têm tido muitas vezes razão. Quando Giordano Bruno ousou dizer que não era a Terra que era o centro do Universo, mas a Terra girava em volta do Sol, os doutores da ciência, os adeptos das teorias maioritárias, os sempre dispostos a dobrar a coluna perante o poder, gritaram histericamente que aquele era um dos tais do contra, era um bota-abaixo, e por isso mesmo ele morreu queimado nas chamas da Santa Inquisição, e, no entanto, passados uns séculos vê-se, afinal, que os maioritários é que estavam profundamente errados e que aquele que foi queimado nessas chamas é quem tinha profunda razão. E a democracia é mais do que isso!
Quer dizer, uma das coisas que eu noto aqui, e aqui, agora, aproveito o facto de estar um pouco de fora, do ponto de vista geográfico, do ponto de vista do coração estou convosco, evidentemente, mas do ponto de vista geográfico toda a minha vida pessoal, profissional, política é fundamentalmente desenvolvida lá em baixo [Lisboa], mas uma das coisas que eu noto é: se há estes pontos de vista, e eu tenho-me preocupado em acompanhar, pontos de vista que aparecem tecnicamente fundados, tecnicamente fundados, nós ao ouvirmos os dois oradores que me precederam, não ouvimos pessoas a dizerem bocas, são pessoas que estudaram as questões e que chamam a atenção para os problemas, porque é que estas pessoas não têm onde colocar essas posições?
Onde é que os cidadãos se dirigem hoje para exprimirem as suas ansiedades, os seus anseios, as suas dúvidas, as suas críticas que não lhes batam com a porta na cara. E isto é um problema seriíssimo!»

1.ª parte

2.ª parte

3.ª parte

4.ª parte

António Garcia Pereira, in Discurso Directo - 11 de Novembro de 2008