terça-feira, 23 de março de 2010

ÁFRICA - Meio milhão de pessoas poderia ser afectado: Activistas lançam campanha contra gigantesca barragem na Etiópia







ÁFRICA - Meio milhão de pessoas poderia ser afectado
Activistas lançam campanha contra gigantesca barragem na Etiópia

A polémica barragem situa-se no rio Omo,
que desce do planalto central da Etiópia (DR)

Um grupo de activistas internacionais lançou hoje uma campanha online para que a Etiópia não prossiga a construção da enorme barragem de Gibe III, iniciada em 2006.

O grupo pretende exercer pressão sobre os dadores e os bancos ocidentais para que não financiem aquele projecto, que no seu entender colocaria em risco a vida de meio milhão de pessoas.

A polémica barragem situa-se no rio Omo, que desce do planalto central da Etiópia, atravessa o Sudoeste do país e vai desaguar no Lago Turkana, já no Quénia.

O Omo é uma autêntica linha vital para centenas de milhares de camponeses, pastores e pescadores, que dependem das suas águas e aluviões para aguentar o estilo de vida que há muito têm.

O Governo de Addis-Abeba afirma que a barragem de Gibe III é necessária para gerar electricidade suficiente para os seus 80 milhões de habitantes; e ainda para vender ao estrangeiro.
Mas a organização International Rivers, da Califórnia, que se dedica a proteger os rios e os direitos das comunidades que deles dependem, diz que a Etiópia ainda precisa de 1.400 milhões de dólares (1.035 milhões de euros) para acabar a obra.

As grandes barragens africanas têm sido construídas à custa das comunidades rurais, afirma aquela instituição, parte do grupo de activistas que entende que estas gigantescas obras têm causado consideráveis estragos sociais e ambientais. Gibe III, se vier a concretizar-se, irá inundar uma vasta superfície, criar um lago de 150 quilómetros de comprimento (uma vez e meia a albufeira do Alqueva) e impedir as populações de semear os campos em redor, como desde há séculos o têm feito.

A barragem vai devastar os ecosistemas e a cultura do Vale do Baixo Omo e do Lago Turka, ambos reconhecidos pela UNESCO como património mundial, sendo que o Turkana é o maior lago mundial que existe no meio de uma região desértica.

“Esta obra viola a Constituição da Etiópia, as convenções internacionais, a política ambiental das instituições financeiras internacionais e as prioridades estratégicas da Comissão Mundial das Barragens”, disseram as ONGs que hoje se pronunciaram sobre o tema.

A maior parte das pessoas afectadas sabe muito pouco do projecto. O Governo costuma reprimir todos os que não pensam como ele e por isso os habitantes da bacia do rio Omo não têm qualquer hipótese, mesmo que se sintam lesados, de manifestar as suas opiniões.

É por isso que entidades como a International Rivers, a Campanha para a Reforma do Banco Mundial, os Amigos do Lago Turkana e a Survival International estão a pedir à comunidade internacional que tome posição quanto a este assunto.

Outro projecto contra o qual muitas vozes já se ergueram é o de Grand Inga, que seria a maior central hidroeléctrica do mundo, projectada para o rio Zaire, na República Democrática do Congo (RDC), um dos países africanos politicamente mais instáveis e minados pela corrupção.

Grand Inga teria o dobro da envergadura daquela que é actualmente a maior barragem mundial, a das Três Gargantas, concluída em 2006 no rio Yangtzé, na China. E ficaria a 40 quilómetros de Matadi, o principal porto marítimo da RDC, frente à vila angolana de Nóqui.

Jorge Heitor, in Público - 23 de Março de 2010

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