sábado, 26 de junho de 2010

Sociedade adormecida: Chumbo da barragem de Padroselos foi decisão "política", diz investigador




Sociedade adormecida
Chumbo da barragem de Padroselos foi decisão "política", diz investigador

O investigador da Universidade de Vila Real António Crespí afirmou hoje que o chumbo na barragem de Padroselos, inserida na Cascata do Alto Tâmega, foi "apenas" uma "decisão política" para compensar o "mal conduzido" processo de avaliação ambiental.

O Ministério do Ambiente chumbou segunda-feira uma das quatro barragens do Alto Tâmega por causa do mexilhão de rio do Norte, uma espécie rara descoberta no rio Beça, em Boticas.

O mexilhão-de-rio do norte, “Margaritifera margaritifera”, é uma espécie rara protegida pela legislação nacional e europeia e que, em 1986, chegou a ser dado como extinto em Portugal.

"O chumbo foi uma compensação política por um processo de avaliação de impacte ambiental que foi desenvolvido muito mal desde o princípio", afirmou à agência Lusa o especialista da área do ambiente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

António Crespí disse que se trata de uma espécie "extremamente importante", principalmente "porque funciona como indicador ecológico de um conjunto de inter-relações complexas" que existem naquele território.

No entanto, considerou "ridículo e até cómico" que se "reduza todo este processo a uma única espécie".

"Que seja uma espécie que acabe por determinar como deve ser feita esta obra, isto resulta no mínimo cómico. Estamos a falar de uma área que tem, em termos de fauna e flora, mais de dois milhares de espécies", salientou.

O investigador criticou a "falta de rigor" com que foi feita "toda a avaliação de impacte ambiental das barragens do Tâmega" e, por isso, diz que o Governo "teve que tomar a decisão de travar pelo menos um destes empreendimentos".

Salientou que o Ministério do Ambiente acabou "por travar o mais óbvio".

"O problema é que o processo continua mal. O estudo foi mal feito. O Padroselos é uma forma de lavar a cara a todo um processo que, desde o princípio, foi extremamente mal conduzido", sublinhou.

Para o professor, a solução "ideal" para o Alto Tâmega não passa por chumbar todas as barragens, até porque diz que a região está deprimida, económica e socialmente, e é uma área que não tem desenvolvimento económico e industrial.

"Temos que ser sensatos e temos que intervir nesta área para criar planos de desenvolvimento sustentáveis. Só que as barragens como estão projectadas não vão gerar desenvolvimento sustentável de forma nenhuma", frisou.

O ideal seria, defendeu, "fazer o processo bem feito".

O mexilhão de rio do Norte foi descoberto no rio Beça no âmbito do Estudo de Impacte Ambiental (EIA) de Padroselos.

in Jornal de Notícias, Correio do Minho - 22 de Junho de 2010

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