terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Eu não vendo o meu Rio e o meu Vale (O Plano Nacional de Barragens e o Vale do Tâmega)

O Plano Nacional de Barragens e o Vale do Tâmega
Eu não vendo o meu Rio e o meu Vale!

Eu não vendo o meu rio e o meu vale, porque “a água não é um produto comercial como outro qualquer, mas um património que deve ser protegido, defendido e tratado como tal”... (Directiva-Quadro da água)

Eu não vendo, porque concordo que “um dos grandes desafios do século XXI é o da nossa reconciliação com a natureza. Não somos donos da terra, estamos de passagem e somos devedores de gerações que ainda não nasceram”. (Manuel Alegre, in ManuelAlegre.com)

Eu não vendo, porque o Programa Nacional de Barragens não é um programa de desenvolvimento para a região e não é sequer um meio para o desenvolvimento sustentável do território, tanto mais que está nas antípodas do que perfilho: a salvaguarda dos valores ambientais, que no caso em apreço, são substancialmente destruídos com a sua implementação.

Eu não vendo, o meu Rio e o meu Vale por um Plano Hidroeléctrico que não é mais do que “a reedição do programa hidroeléctrico do Estado Novo, consignado no Plano hidráulico da extinta Hidro-Eléctrica do Douro, desde meados da década de 1950, também ele, tal como hoje, prometendo contribuir para a valorização económica e social da região”. (José Emanuel Queirós, in PlenaCidadania/Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega)

Eu não vendo, porque não aceito que se “passe a patacos” todo um património histórico, cultural e social, identificador de toda uma região em nome de um “ganho” que não ocorrerá, e em que não acredito....

Eu não vendo, porque o Tâmega é rio, não é lago. (Vítor Pimenta, in Mal Maior)

Eu não vendo, porque concordo que se trata de uma verdadeira falácia o propalado “turismo de albufeira”, mais valia tal, que se pode constatar na incongruência que é verificar que nas regiões do Norte do País, onde estão as ditas cujas, o nível de desenvolvimento é dos mais baixos de Portugal...

Eu não vendo, porque a produção de energia prevista não compensa a destruição de tanto e tanto património natural que é de todos!

Eu não vendo, porque é possível optar por poupar energia e promover a eficiência energética. Estudos da EDP em 2000 já referiam que se pode poupar 1/3 da energia consumida. Especialistas argumentam que a implementação de um verdadeiro plano com vista à eficiência energética pode diminuir os gastos em energia em cerca de 20-30% do gasto actual.

Eu não vendo, porque a dependência energética do País é essencialmente ao nível dos combustíveis fósseis e não da energia que se pretende produzir.

Eu não vendo, porque considero que tem maior peso (negativo) a agressão que as barragens provocam aos nossos rios e ao património natural enquanto um todo, do que uma contribuição positiva para as alterações climáticas (versus, objectivos de Quioto).

Eu não vendo, não por ser contra as energias renováveis, que são de apoiar sem hesitação, mas porque o problema “está, como em tudo, na combinação da ganância com o desenvolvimentismo, na pressa para ganhar dinheiro no primeiro sítio onde ele pareça poder ganhar-se.... “ (José Pacheco Pereira, in Abrupto).

Veja-se o exemplo do transvase do Rio Olo previsto no Plano Nacional de Barragens, e cujo recuo se deve à “bendita” sensibilidade da Iberdrola que, através do seu Director, em sessão pública decorrida em 3 de Fevereiro (pp) no Porto, afirmou peremptoriamente que seria um CRIME (!!!) desviar a água do Olo para a barragem de Gouvães. Mas a verdade, é que o transvaze se encontra previsto no Plano Nacional de Barragens demonstrando por isso, os responsáveis, um total desconhecimento da realidade local ou/e uma ganância imensurável de se fazer dinheiro a todo o custo. Mesmo que para tal se sacrifique valores supremos e cuja salvação, neste caso, se deve a quem menos se esperava, pois a empresa hidroeléctrica considerou que o meio (desvio da água do Olo) não justificava o fim (lucro).

Eu não vendo, porque a energia a produzir não é “energia limpa”, nem “energia verde”, ou como lhe quiserem chamar... De verde só se for da cor das algas formadas pelo processo de eutrofização que se nos irá deparar na prevista albufeira de Fridão...

Eu não vendo, porque as barragens previstas para o Tâmega “vão aumentar a poluição”. (Rui Cortes)

Eu não vendo, porque não quero que os meus filhos e os dos outros, no local onde agora é o Rio e suas encostas, se “deliciem” a cheirar o metano, se “divirtam” a contar as algas (algumas perigosas para a saúde) e por fim, se “revoltem” com o destino que nós, os do presente, lhes decidimos ofertar.

Eu não vendo, porque não acredito que após acto consumado, com a barragem feita, se preocupem em despoluir o Tâmega e seus afluentes, uma vez que até agora nada fizeram e com muito maior facilidade o poderiam ter feito.

Eu não vendo, porque não tenho os olhos fechados e vejo o exemplo catastrófico que é o verdadeiro atentado ambiental, irreversível, da albufeira do Torrão.

Eu não vendo, porque não comparo a minha realidade, em termos de ecossistema, com outras que nada têm a ver com a minha, tentando minorar assim, ilusoriamente, os efeitos catastróficos que vou sofrer em termos de qualidade de vida...

Eu não vendo, porque ninguém conhece o plano de segurança para a cidade de Amarante e populações ribeirinhas afectadas pela barragem o qual é obrigatório por lei e indispensável para o bem-estar das pessoas que são minhas concidadãs.

Eu não vendo, porque não quero para os outros (Amarante) o que não quero para mim, em termos de segurança das populações.

Eu não vendo, porque o meu Rio e o meu Vale não estão à venda por preço algum, (cerca de 200 milhões de euros a pagar ao Estado) nem se alugam (75 anos!!) a uma empresa hidroeléctrica, seja ela qual for.

Eu não vendo, porque a viver num Estado de direito, acredito que a lei é para cumprir, sejam eles quais forem os interessados em a desrespeitar. Por isso, orgulhosamente, faço parte de um grupo de cidadãos, entre muitos outros que não tendo voz partilham a mesma opinião, que fez chegar uma missiva ao SR. Presidente da República de Portugal, ao Presidente da Comissão Europeia, aos presidentes das câmaras e assembleias municipais de Amarante, Cabeceiras, Celorico e Mondim de Basto, denunciando o não cumprimento da lei, por parte do Plano relativamente à Directiva-Quadro da água (Directiva 2000/60/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 23 de Outubro de 2000).

Eu não vendo as encostas do Tâmega, pois é lá que se produzem os melhores vinhos de Basto e que, com a alteração climática previsível, diminuirão a sua qualidade. Não importa dizerem-me que poucos hectares de vinha serão afectados directamente (inundados), pois o que está em causa são os efeitos indirectos que as outras vinhas vão receber.

Eu não vendo o clima da minha terra, recebendo em troca mais nevoeiro, menos horas de luminosidade directa e humidade atmosférica relativa mais elevada, aumentando drasticamente os custos de produção das vinhas mais afectadas, no que diz respeito ao combate das doenças criptogâmicas que afectam a viticultura regional.

Eu não vendo, a qualidade de vida que a minha terra “graciosamente” me dá, da mesma forma que é impensável alguém vender a saúde que possui.

Eu não vendo o meu Rio e o meu Vale, porque o “sangue” da Terra que corre dentro de mim não está à venda.

Alfredo Pinto Coelho – eng.º Agrícola / lic. Gestão Agrária – Fevereiro de 2009
Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega (Mondim de Basto)

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