segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Barragens agravam o problema: O mar avança implacável na costa portuguesa



Barragens agravam o problema
O mar avança implacável na costa portuguesa


As barragens que o Governo pretende ver construídas deverão agravar ainda mais o problema da erosão da costa portuguesa, na medida em que retêm os sedimentos

A costa portuguesa está em sério risco. Todos o sabemos. E quase todos agimos como se nada estivesse a acontecer. O trabalho que o "Jornal de Notícias" publicou ao longo de mais de 40 dias não podia ser mais elucidativo. O problema não se circunscreve a uma região, é transversal, de Caminha a Vila Real de Santo António.

E, embora se reconheça que a situação mudou alguma coisa nos últimos anos, devido a uma maior vigilância e censura social, continua a haver tentativas de persistir no erro. Alveirinho Dias, professor da Universidade do Algarve, dizia, ao JN, que o fundamental para preservar o futuro é aprender com os erros do passado. Nem todos, enfim, aprendem. Há poucos anos, em plena Área de Paisagem Protegida do Litoral de Esposende, agora designada Parque Natural do Litoral Norte, a promoção de um empreendimento de luxo, na fustigada praia de Pedrinhas, convidava: more com o mar a seus pés. Não podiam ser mais reais. E os exemplo repetem-se.

O próprio Estado tem contribuído e continua a favorecer o agravamento do problema: todos os anos injecta milhões de euros em obras que nada resolvem, muitas vezes apenas pioram a situação. Também o Programa Nacional de Barragens - prevê a construção de 10 novos empreendimentos - , para além das dúvidas que subsistem em relação à sua necessidade em termos de produção de energia, virá com certeza agravar mais o problema. As barragens, como se sabe, retêm a areia, não a deixando chegar ao mar. Podem argumentar: a energia hídrica é verde (algo controverso), por isso as barragens ajudam a combater as alterações climáticas. Essas mesmas alterações climáticas que, com a subida do nível do mar, tanto têm ajudado ao encolher da costa portuguesa.

Não basta argumentar: é necessário agir, inverter procedimentos. Ao ritmo que o mar tem avançado - as fotos aéreas cedidas ao JN pelo Instituto Geográfico e os testemunhos ouvidos pelo repórter do JN provam-no -, nove metros por ano em algumas zonas, os refugiados ambientais não serão apenas os habitantes das ilhas do Pacífico, poderemos ser nós próprios.


Paula Ferreira, in Jornal de Notícias, N.º 92, Ano 123 (p. 6) - 1 de Setembro de 2010

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