segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Programa Nacional de Barragens e Sustentabilidade - Dizer não a dinheiro “sujo”

Programa Nacional de Barragens e Sustentabilidade
Dizer não a dinheiro “sujo”

Foi há cerca de duas semanas que as Organizações Não Governamentais de Ambiente (ONGA) portuguesas emitiram um comunicado rejeitando a utilização do Fundo EDP Biodiversidade 2009 enquanto “persistirem na mentira de que as grandes barragens constituem um benefício para a Protecção da Natureza.”. Evidentemente, a razão apontada para esta rejeição é o Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico, aprovado apesar das fortes críticas destas associações. O episódio mostra um problema típico das empresas que querem vestir a camisola da sustentabilidade mas que não interiorizaram o conflito entre a sustentabilidade, nas suas múltiplas dimensões, e o seu modelo de negócio, conflito esse que numa empresa produtora de electricidade é bastante evidente. O problema é que por mais esforços que a EDP tenha feito em mudar a sua imagem, com campanhas publicitárias que apelam para a preservação do planeta e distribuição de lâmpadas com menor consumo energético, o seu negócio é vender energia. Ora o consumo de energia é precisamente uma das mais exigentes facetas da actividade humana em termos do seu peso na utilização de recursos, sobretudo em países desenvolvidos. No caso das Grandes Barragens, surgem pelo menos dois impactos ambientais contraditórios: um positivo, relacionado com a ausência de emissões de gases com efeito de estufa, e um negativo, que é a destruição total dos ecossistemas ribeirinhos (já agora, a criação de lagos artificiais que os seres humanos acham bonitos e onde podem andar passear, em barco a remos ou mota de água, não é de forma nenhuma um impacto ambiental positivo no sentido rigoroso da expressão!!!)Em qualquer caso, apoiar ou não a construção de novas barragens é sempre um exercício complicado. Num país como Portugal, em que uma boa parte do potencial hidroeléctrico está aproveitada e onde rareiam as zonas ribeirinhas em regime natural, é natural que o valor destas em termos da biodiversidade seja considerada pelas ONGA como superior ao potencial benefício de redução de emissões. Acresce que a biodiversidade (e a preservação de espécies e ecossistemas de que é indissociável) é um dos aspectos em que Portugal menos tem progredido (ver http://www.sedes.pt/blog/?p=1277). Mais, todos sabemos que depois de um forte investimento em capacidade instalada, com infra-estruturas como barragens que têm custos fixos elevados e custos variáveis relativamente reduzidos, a estratégia rentável será sempre vender o eventual excesso de produção de energia, ainda que a um preço baixo. Isto vai exactamente no sentido contrário do desejado, especialmente se considerarmos a apropriação dos recursos naturais não só em termos imediatos mas também olhando para a trajectória. O preço da energia tem de subir para dar o sinal correcto. O PNBEPH é, claramente, um movimento na direcção errada. Não admira que o “Canal ONGA” no site da EDP esteja às moscas… Uma observação final é que não basta perguntar o que fazem as barragens às alterações climáticas, é preciso ver também o que as alterações climáticas podem fazer às barragens…alguém fez uma análise de viabilidade destas barragens face às variações de precipitação e escoamento que estão previstas na Península Ibérica (e que podem chegar a uma descida de 50% nalgumas bacias hidrográficas)? Vai haver água para assegurar um fluxo suficiente para uma produção rentável? O caso do PNBEPH até vem destacado num recente relatório internacional da WWF sobre a utilização da água…O que as empresas têm que perceber é que o mais certo é haver conflitos entre diferentes objectivos ambientais, e entre estes e os objectivos financeiros. Não basta gastar dinheiro em marketing, como quem atira poeira para os olhos das pessoas, para os problemas desaparecerem. A sustentabilidade é um desafio para todos nós. Ninguém disse que era fácil.

Catarina Roseta, in sedes - 21 de Julho de 2009

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