segunda-feira, 23 de março de 2009

Amarante: Especialistas em engenharia não tranquilizam adversários da barragem de Fridão

Reunião ontem à noite em Amarante
Especialistas em engenharia não tranquilizam adversários da barragem de Fridão

Os quatro especialistas de engenharia civil convidados pela Câmara Municipal de Amarante para um debate, ontem à noite, sobre a segurança da barragem de Fridão, no rio Tâmega, não conseguiram tranquilizar os adversários da sua construção.

Os intervenientes asseguraram "a excelência da engenharia portuguesa" na construção de aproveitamentos hidroeléctricos, reputada em todo o mundo, mas ao mesmo tempo reconheceram "que não existe risco zero", deixando na centena e meia de assistentes a ideia de que a construção de duas barragens, a apenas três e seis quilómetros a montante da cidade, "é um facto consumado".

O debate sobre segurança das barragens reuniu dois dirigentes do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), o presidente Carlos Matias Ramos e o responsável do Departamento de Barragens de Betão, Carlos Pina, um representante do Instituto da Água (INAG), João Avilez e ainda Ferreira Lemos, director do Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).

Carlos Ramos disse à Lusa que compreende a "intranquilidade e o desconforto" da população de Amarante, mas assegura que nunca houve um acidente numa barragem em Portugal que tenha sido acompanhada pelo LNEC e que estes empreendimentos, além de cumprirem rigorosos controlos durante o projecto e a construção, são monitorizados permanentemente durante a sua fase de exploração.

"Há um sentimento [de insegurança] que eu entendo perfeitamente, mas entendo também que a nossa lógica é técnica, de quem dedicou toda uma vida a este tipo de obras e à melhoria dos procedimentos tendo em vista uma antecipação dos problemas e um melhor dimensionamento", disse Carlos Ramos à Lusa.

"O que sabemos hoje é muito mais do que sabíamos em 1954 [quando foi construída a barragem do Cabril, no rio Zêzere, a primeira construída exclusivamente pela engenharia portuguesa]", concluiu o presidente do LNEC.

O responsável do LNEC pela área de barragens, Carlos Pina, insistiu que qualquer empreendimento deste tipo terá obrigatoriamente planos de emergência internos e externos e assegurou que num hipotético acidente há tempo suficiente para executar um plano de evacuação, colocando a salvo a população da cidade.

O debate girou também em redor do tempo de evacuação da população da cidade no caso de um acidente, que os ambientalistas e adversários da barragem estimam ser de apenas meia hora, mas há também respostas que apenas vão ser obtidas na fase de execução do projecto, como a questão de saber "até onde chegará a onda", ou seja, que zonas de Amarante serão inundadas, no caso de ocorrer um colapso do paredão da barragem.

Por esclarecer ficou também a questão da sismicidade da zona, assinalada num relatório elaborado há 17 anos, mas que os técnicos procuraram minimizar, garantindo que serão feitos estudos rigorosos para o Estudo de Impacte Ambiental (EIA) e que a barragem, a ser construída, será dotada de instrumentos de registo de sismicidade.

Na fase de debate, o líder do movimento local de contestação à obra acusou os técnicos de serem pessoas ligadas à engenharia das barragens, apesar da sua elevada reputação técnica, e de terem vindo ao debate com o intuito de "defender a sua dama".

Para esta ideia, que perpassou em parte da assistência, contribuiu a apresentação inicial do vice-presidente do LNEC, ao deixar a "profecia" de que nenhum argumento conseguirá travar a construção das barragens no rio Tâmega, sobretudo se atentarmos à sua valia económica.

"Nos próximos anos passaremos várias por esta cidade na visita às barragens que se vão construir no Tâmega", afirmou Carlos Pina, ao saudar a hospitalidade de Amarante.

Ferreira Lemos, da FEUP, realçou a "cultura de segurança" dos empreendimentos hidroeléctricos e, socorrendo-se de material da EDP, mostrou a antevisão das duas barragens, indicando que os planos da empresa prevêem que comece a produzir energia em 2016 e que a sua construção iniciar-se-á em 2012.

Para João Avilez, do INAG, a adjudicação à EDP é ainda provisória mas também este responsável salienta a valia económica da barragem de Fridão que contribuirá, com os outros nove empreendimentos lançados pelo Governo, para elevar a produção hidroeléctrica portuguesa para os 8.000 MW.

O estudo prévio da EDP relativamente a Fridão define a construção de uma barragem principal com quase uma centena de metros de altura e de um contra-embalse com 30 metros, este a apenas três quilómetros de Amarante, que os técnicos asseguram ser necessário para "modelar" [regularizar] o caudal do rio Tâmega na área urbana da cidade.

A Câmara de Amarante promete realizar outro debate sobre a barragem, este sobre os impactes ambientais sobre a cidade, uma área onde os ambientalistas e adversários da obra esperam ganhar algum terreno e ter argumentos mais convincentes para contrapor ao designado "lóbi dos engenheiros e do betão".

Lusa, in Público - 21 de Março de 2009

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