segunda-feira, 16 de março de 2009

Novas barragens ameaçam sobrevivência da lampreia

Novas barragens ameaçam sobrevivência da lampreia

A crescente popularidade das lampreias à mesa dos portugueses explica, em parte, a diminuição das populações existentes nos rios. É por isso que no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal a lampreia continua a ser classificada como "vulnerável". Ainda que na última década a situação tenha estabilizado, nos anos 80 e 90 a espécie sofreu perdas que enfraqueceram muito a sua presença em águas portuguesas, devido sobretudo à pesca furtiva. Agora pode vir aí mais um "atentado" à lampreia: a construção de novas barragens.

O biólogo marinho Pedro Raposo de Almeida explica que "a construção de grandes barragens vai prejudicar as populações de lampreias". Aliás, a criação de reservatórios artificiais de água é um dos motivos que fazem com que este peixe seja uma espécie ameaçada, uma vez que contribuem para "a destruição do habitat", explica o especialista.

Por outro lado, o biólogo aponta "a pesca furtiva" e "o facto de não haver um plano nacional de conservação", como grandes obstáculos à saída da lampreia da zona de risco.

Pedro Raposo adverte que há recomendações feitas por especialistas ao Governo, que são ignoradas. E dá um exemplo: "Há mais de dez anos que a minha equipa defende uma passagem para peixes no açude do rio Mondego, que ainda por cima é da responsabilidade do Ministério do Ambiente, mas o pedido está na gaveta. Ia ser importante porque permitiria aumentar o habitat da espécie."

As alterações climáticas completam o rol de "atentados" à espécie e há períodos que têm sido devastadores. No ano passado, Pedro Raposo foi com a sua equipa de biólogos da Universidade de Évora tentar recolher uma amostra de um destes animais no rio Guadiana, mas não conseguiu. É a prova de que o peixe estava a escassear num local onde já foi abundante.

E, se por um lado, Portugal continua a figurar na lista de países onde a espécie é ameaçada, por outro, é também uma referência internacional no estudo da lampreia.

Como explica Pedro Raposo, há vários biólogos europeus que "pedem conselhos à minha equipa e aplicam-nos" nos seus estudo sobre esta espécie. No entanto, confessa num tom desiludido, "em Portugal os conselhos muitas vezes não são tidos em conta."

Porém, tal não impede o biólogo de ter várias publicações na área e de ter feito novas descobertas sobre a espécie, como o facto das lampreias "serem más nadadoras."

Raposo não desiste de lutar pela conservação deste peixe, mas garante que a extinção não está em causa devido "à capacidade que a lampreia tem para se adaptar a adversidades". Neste aspecto, o biólogo lembra que esta é uma espécie animal que já existe há 300 milhões de anos e que resistiu a inúmeras catástrofes naturais.

Enquanto em Portugal estão ameaçadas, nos Estados Unidos as lampreias são quase uma praga. O peixe foi acidentalmente introduzido em águas norte-americanas por acção do homem e acabou por se reproduzir em grandes quantidades. Tal fez com que as autoridades dos EUA e do Canadá já tenham investido milhões de dólares a tentarem controlar as lampreias. Uma ironia da Natureza.

Rui Pedro Antunes, in Diário de Notícias - 15 de Março de 2009

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