sábado, 8 de janeiro de 2011

Testemunho: O rio Tâmega visto por Luís van Zeller Macedo

Testemunho
O rio Tâmega visto por Luís van Zeller de Macedo

Para mim falar do rio Tâmega ou simplesmente do rio, é fácil e difícil ao mesmo tempo. Fácil pela relação intimista que sempre mantive com ele. Difícil pela quantidade de vivências que a ele me ligam e pela dificuldade de escolha que isso comporta. Mas comecêmos pelo princípio.

Nasci numa casa da Rua Cândido dos Reis, bem no centro de Amarante, no ano de 1946. Esta zona da então vila de Amarante estava situada na margem direita do Tâmega e das traseiras da casa onde vim ao mundo via-se o rio a banhar o Parque Florestal e os remoinhos do açude dos Morleiros. Sem me ter apercebido cedo comecei a respirar o ar que emana do vale que ladeia o rio.
A primeira agua que bebi foi, estou certo, oriunda dessa fonte inesgotável de vida. O primeiro banho não poderia deixar de ser com a agua purificadora desse manancial. Amarante, na época, já possuía captação de água a partir do rio e a, então, Vila dispunha, pelo menos em parte, de distribuição pública deste bem fundamental. Sinal da evolução dos tempos.

De lá para cá pouco mudou, apesar de terem passado mais de seis décadas, o que não será nada em termos históricos mas muito face a evolução tecnológica que atravessamos durante este período.
Para mim Amarante, e digo-o com mágoa, não soube aproveitar os benefícios da ciência aplicada à melhoria da qualidade de vida dos seus habitantes. Muito por culpa daqueles que dirigiram os seus destinos, sobretudo ao longo das últimas décadas e que um dia, estou certo, serão julgados negativamente pela história. Mas voltemos ao assunto. O rio, esse maravilhoso rio com que a natureza brindou nossa terra.

Meu pai a quem devo em grande parte esta paixão pelo rio, desde cedo nos incutiu respeito por ele. Na sua opinião a única maneira de lidarmos com ele era respeitá-lo. E isso implicava naturalmente conhecê-lo. Como se tratava de um meio liquido, adverso aos humanos, a única forma era aprender a nadar. Foi isso que meu pai fez comigo e com os meus irmãos. Como meu pai era médico e tinha o tempo muito
ocupado procurou dentro do círculo de amigos, que também eram do rio, que nos pusessem aptos a lidar com o meio líquido. Outra preocupação dele era que o contacto com as águas se fizesse em zona não poluída do rio. Ao contrário da captação de água, o saneamento não existia nesse tempo e portanto era necessário fugir das zonas mais afectadas que eram naturalmente as mais próximas da então Vila.

Os primeiros sítios do rio para onde me lembro de nos levarem era para o Borralheiro, um pouco abaixo da confluência do rio Olo com o Tâmega. Seguíamos pela estrada marginal ao rio em direcção a Fridão e antes da ponte do Borralheiro saíamos e descíamos a pé por uma vereda até à margem. Aí atravessavamos numa barca para a outra margem, do lado de Gatão. Lembro-me de muitos anos depois o barqueiro que era caseiro da Casa de Meios, nessa freguesia, me dizer que me tinha tirado muitas vezes da barca para me por em terra. Certo é que na margem direita havia mais areia,como aliás ainda hoje acontece, resultado do assoreamento natural provocado pelo rio Olo. Aí tínhamos ‘mais pé’, como se dizia na gíria, e assim podíamos treinar mais facilmente a natação. Meu pai levava os filhos ao fim-de-semana que era quando estava um pouco mais disponível. Estando na margem direita, do lado de Gatão, subíamos um pouco pela margem direita acima até a umas ilhotas que ainda hoje lá se encontram onde meu pai nos dizia que havia mexilhões e que eu me lembro de apanhar metendo a mão por debaixo das rochas. Sabemos agora que ainda lá continuam a existir, sinal de que está zona do rio felizmente ainda não estar poluída.

Com a construção das previstas barragens de Fridão todo este ecossistema será destruído. É óbvio que quem tomou esta decisão no gabinete nunca teve esta vivência de infância que eu e centenas senão milhares de jovens amarantinos tiveram. Sorte a nossa e desgraça a deles, para desgraça nossa e proveito deles. Ironias do destino. Mas voltemos à aprendizagem no rio.
Numa fase posterior, meu pai resolveu mandar-nos com uma funcionária sua, chamada Aurora,e que felizmente ainda se encontra entre nós, para a zona da captação das águas da câmara, também conhecida por poços, e que a partir daí ficou a ser conhecida por praia Aurora. Aí meu pai estava seguro de que havia vigilância dado que o responssável pela captação, um dos ‘Cercas’ (o Quim), de uma família conhecida pela sua ligação ao rio e que eram grandes nadadores, estar sempre por perto. Nessa famosa praia tínhamos todo um mundo ao nosso dispor e era só dar largas à fantasia. Tanto éramos piratas como descobridores de novas ilhas. Cada penedo, cada ilhota, numa qualquer reentrância do rio, era uma nova descoberta. Um mundo que, diariamente, durante as férias grandes se nos abria.

Essa praia cresceu, chegou a ter foros de celebridade. Nela se juntava uma multidão durante os meses de Verão, de naturais a forasteiros. Os mergulhos no chamado pontilhão sucediam-se a um ritmo alucinante. Daí nadava-se até ao "penedinho" de que se adivinhava a localização apesar de estar sempre submerso. Depois de uma pausa seguia-se ‘em comboio’ para o "penedo Grande", na outra margem do lado da Costa Grande. Neste foi colocada a certa altura uma escada metálica para se poder subir. Do alto do "Penedo Grande", era todo um mundo que se descobria e para nós, miúdos, era como subir ao topo do mundo. Daí lançavamo-nos ao rio que nos purificava, repetindo-se a cena vezes sem conta até, exaustos mas felizes, regressarmos novamente à outra margem. De Verão, o dia terminava bem tarde, já perto da hora do jantar. Que apetite quando finalmente chegavamos a casa. Felizmente a nossa era relativamente perto, de qualquer maneira sempre a pé que era como meu pai dizia que nos fazia bem.
Saindo da Praia Aurora seguiamos junto ao, então, Parque de Campismo, para depois subirmos junto ao Tribunal, pelos "Carvalhidos", outro ícone da minha infância, até ao Terreiro das Freiras (nessa época era mesmo em terra) ou de Santa Clara, onde era e é a nossa casa, ali bem perto da torre do sino de São Gonçalo, que ouviamos constantemente (de quinze em quinze minutos) avisando-nos antecipadamente do atraso provocado pelo rio.

Esta vida descontraída durou anos enquanto estudante do Colégio de S. Gonçalo. Sendo este, na altura, junto ao rio, que víamos, aliás, olhando pelas janelas das salas de aula e para onde nos dirigíamos, mal terminavam as aulas, de Inverno para ver o rio subir e de Verão para simplesmente molharmos os pés ou ir para debaixo do Zé da Calçada pescar. Era só ir a casa num pulo buscar os apetrechos e o isco e voltar. Os deveres ficavam para mais tarde e felizmente ouve sempre tempo para tudo.
O rio e sua constante atracção nunca nos impediu de sermos bons alunos. De resto penso sinceramente que o facto de ele estar ali tão próximo sempre nos ajudou e até nos deu de alguma forma inspiração para nossa vida futura.

Mais tarde, já aluno do liceu de Vila Real (em Amarante só dispunhamos, na época, do antigo quinto ano), sempre que de Verão estava em Amarante, lá voltava ao rio acompanhado dos colegas e amigos de sempre, alguns que continuaram comigo até à faculdade em Agronomia. Amigos e colegas da "borda de água" nascidos e criados na ‘31 de Janeiro’, daqueles que durante as cheias andavam com a mobília às costa e que me lembro de nunca protestarem contra o rio. Era a sua natureza e isso eles aceitavam com naturalidade e até com um certo orgulho. ‘Subiu mais do que no ano passado’, ‘subiu menos’. Punha-se uma marca na parede, sinal de aviso e de respeito, que intimidava os forasteiros que ao mesmo tempo que as fotografavam iam debicando os doces conventuais da Lailai ou fazendo a digestão de um cabrito à Zé da Calçada. Lá pelas tardes de canícula um pouco mais abaixo ainda podiam tirar desforra com um "tinto" de pipa, na época no famoso "Avião".

Nesse tempo as aventuras de Verão já tinham mais amplitude e em grupo lá íamos rio acima da Praia Aurora até Frariz, passando em frente ao famoso e, para nós, ainda um pouco tenebroso (envolto num grande matagal) "Penedo da Rainha". Regressávamos sempre pelo rio que era a nossa estrada. Em frente à Costa Grande, na época das regas, ouviam-se os motores de captação e água a funcionar junto de um frondoso bosque de plátanos que ainda hoje existe. Na margem direita por de trás da captação das águas podiamos ver os campos de milho com belas espigas a despontar. Ouviam-se todo o tipo de aves numa sinfonia de fazer inveja aos melhores compositores.

Compreendi na altura, e hoje não tenho qualquer dúvida, de que este ambiente tenha inspirado os nossos poetas e pintores. Amarante não seria o que é se não fosse esta influência telúrica e omnipresente do Rio Tâmega. No futuro não será nada se os amarantinos se esquecerem dessa protecção, da qual o nosso padroeiro São Gonçalo soube, em boa hora, tirar partido ao construir pontes sobre o Tâmega que também o farão e ainda o são entre os homens.

Que os homens de hoje se lembrem daquilo que nos deu o "ser" e que é a única coisa que nos pode garantir o futuro.

Luís Rua van Zeller de Macedo (Amarante) - 5 de Janeiro de 2011
Presidente da Associação Cívica Pró-Tâmega

3 comentários:

Anónimo disse...

Um testemunho muito pessoal como tal sincero e apaixonado.
Ainda hoje tenho estas imagens na minha retina e os ruídos (água a correr, pássaros a cantar, gritos dos banhistas, etc.), nos ouvidos.
Luís van Zeller

Anónimo disse...

O valor económico de cada um dos recantos do rio descrito no texto referenciado é infinitamente superior ao valor paisagístico da uniformização e homogenização que as albufeiras vão criar. Tanto mais que o ser humano, de hoje, procura e está disposto a pagar cada vez mais por aquilo que é diferente e não por aquilo que é homogéneo e monótono e que encontra em qualquer parte do país ou do mundo.
Quem perde, são os proprietários e os residentes locais que verão o seu património diminuído de valor e procura.

Amílcar Salgado (Arcossó - Chaves)

Anónimo disse...

Agradeço penhorado a opinião que manifestou sobre o meu texto. Como agora saberá pelo Dr.Emanuel Queirós, filho, neto e sobrinho - neto de grandes amigos de meu pai (mais uma vez ele e o seu exemplo sempre presente), este texto modesto mas sincero, foi escrito com o objectivo de ser um contributo para um livro que se pretende editar sobre o Tâmega. Assim, desafio todos aqueles que se identificam com esta problemática do nosso "Rio" e com as barragens que nos querem impor unilateralmente e completamente ao arrepio de qualquer lógica que não seja a mercantilista, a escreverem aquilo que pensam e sentem sobre este assunto para nós tão premente. Estou certo que vamos poder contar, para isso, com todos os amigos do "alto Tâmega" tão empenhados como os amarantinos e, porque não, como os de Mondim, Ribeira de Pena, de Celorico, Cabeceiras de Basto e os de todas as terras banhadas pelo Tâmega, não esquecendo sequer os já afectados pela barragem do Torrão como os habitantes do Marco de Canaveses e de Penafiel. Diria até os de Castelo de Paiva que já foram afectados e de que maneira pela queda da ponte de Entre os Rios, pelo comprovado descalçamento do pilar da ponte que levou à sua derrocada em consequencia da falta de deposição de material inerte na base do pilar (consultar o parecer da Ordem dos Engenheiros publicado á época no seu boletim), pela sua retenção na base da barragem do Torrão, acrescido da abertura brutal dos descarregadores após a série de cheias do Tâmega naquele ano fatídico de 2001 (está a fazer agora precisamente 10 anos).
Que tudo isto nos sirva de exemplo e de incentivo para continuarmos com a nossa luta que é justa e inadiável.
Com um grande abraço para si e todos os companheiros do Alto Tâmega

Luís Rua van Zeller de Macedo