domingo, 30 de janeiro de 2011

Tâmega - Barragem de Fridão: Barragem rouba lares a famílias do Tâmega - 56 casas afectadas








Tâmega - Barragem de Fridão
Barragem rouba lares a famílias do Tâmega - 56 casas afectadas

“Bom dia, são da EDP?”. A interrogação de Maria Carvalho, 67 anos, é pertinente e é por isso que confunde a equipa de reportagem do GRANDE PORTO com os técnicos que, no domingo passado, estiveram em Vilar de Viando, Mondim de Basto, a anunciar a Barragem de Fridão. Nos últimos meses, diz a agricultora, sucederam-se as reuniões com a população para explicar o que vai acontecer às casas e terrenos afectas pela estrutura e pelas águas.

A EDP contratou uma equipa de técnicos do Instituto Superior de Trabalho e Empresa para realizar um estudo sócio-económico da população. “No domingo vieram ver a minha casa, fizeram-me perguntas e disseram-me que vou ter de sair daqui. Lá se vão as nossas vidas, as casas e as memórias. Há dois meses gastei aqui muito dinheiro”, chora. Maria, proprietária de três casas mesmo na encosta do Rio Cabril, junto à Ponte Medieval, lamenta o investimento que fez na recuperação das casas. “Tenho um terreno lá mais a cima, mas mal dá para construir uma casinha. Não sei como vai ser”, afirma, olhando o velho moinho de água que irá perder.

Em Vilar de Viando, a Barragem de Cabril, que deverá estar em funcionamento em 2015, irá afectar a Ponte Medieval, a Capela do Senhora da Ponte e uma outra ponte que data do Estado Novo. Apenas os dois primeiros equipamentos serão desmontados e transladados para outro local, ainda por definir. No total dos cinco municípios afectados com a construção da albufeira da barragem, contam-se 56 habitações que terão de ser abandonadas.

“Isto não vai ficar tudo debaixo de água, mas ficará sem acessos, por isso não podemos cá ficar. Podiam ter avisado, só soubemos pelo padre. Valha-me Deus”, exorta. Mais acima, no caminho da ponte que não deverá sobreviver à barragem, Diogo Tapada cruza o Rio Cabril com o saco dos livros. “Vieram cá uns psicólogos no domingo falar connosco. Explicaram-nos tudo, mas não estavam cá osmeus pais”, conta Diogo, de 17 anos. O jovem admite ainda a tristeza de ter de abandonar o local onde cresceu. “Nasci aqui. É uma grande perda, claro. Estou habituado a este sitio. Vilar de Viando parece uma aldeia perdida no tempo, das que ainda têm placas de acesso a vilas e cidades que apontam para estradas de terra batida pelas fortes chuvas do Inverno rigoroso.

Marlene Mota, 30 anos, assoma-se à porta de uma das habitações de Maria Carvalho. A arrendatária, que cuida do filho, lamenta o infortúnio do destino. “Perdemos tanto tempo à procura desta casa e agora vamos perde-la. Trabalhamos em Mondim. Não é fácil encontrar aqui uma casa para alugar. Vieram falar connosco no domingo, mas não sabem se nos podem ajudar financeiramente porque nós só somos arrendatários”, explica.

Indemnizações

Convencidos que não há outro remédio, os habitantes reclamam agora indemnizações suficientes. “Gastei aqui muito dinheirinho. Têm de me dar o suficiente para eu refazer a minha vida. Já viu? Refazer a vida aos 67 anos. Nem quero pensar”, declina Maria.

Já Rosa Peneda, que esperava ainda a visita dos elementos da EDP, revela maior calma. “Daqui a cinco anos? Não estarei cá certamente”, graceja a jovial senhora de 84 anos. Traquina e de sorriso fácil, acaba por admitir que “não será fácil abandondar a casa. Gosto muito disto. É natural, não é?”, pergunta.

Todos os outros habitantes dizem que sim. É natural. Até porque Vilar de Viando, junto ao Rio Cabril, é um pequeno paraíso de veraneantes. “Olhe, vêm todos para cá no Verão. Isto é muito bonito. Os miúdos atiram-se ao rio”, sorri Rosa Peneda.

Contra a Barragem

Em contra corrente, A Associação Cívica Pró-Tamega é uma das principais organizações que se batem contra a construção da Barragem de Fridão. No segundo semestre de 2010, a associação interpôs uma acção popular no Tribunal Administrativo de Penafiel. Acredita que as consequências ao nível de segurança e efeitos ambientais não compensam. “O Instituto da Água diz que a onda de choque - que pode surgir se ocorrer algum problema grave com a barragem - pode chegar a Amarante em 13 minutos e submergir tudo. Em 13 minutos não há hipótese de evacuar a zona toda. Irá submergir a igreja, o convento, a ponte e toda a zona histórica de Amarante”, explica Luís Van Zeller, presidente da associação.

O engenheiro agrónomo, que também presidiu à comissão de acompanhamento ao projecto da barragem criada no seio da Assembléia Municipal, critica ainda a EDP por querer construir uma barragem num local atravessado por uma falha geotectónica.

A Pró-Tâmega espera evitar a construção da barragem com a acção em tribunal e diz estar disponível para ir até às últimas consequências. “A declaração de impacto ambiental aponta várias lacunas. A paisagem vai ficar descaracterizada. Uma indemnização não paga tudo”, acusa Van Zeller.
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Pedro Sales Dias e António Rilo, in Grande Porto, N.º 83, Ano II (p. 1, 10 e 11) - 28 de Janeiro de 2011

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