quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Se o óbvio não interessa

«Se o óbvio não interessa aos seus olhos

Porque parece o óbvio variar segundo os olhos

Que venham hostes de quem menos cego

Tenta provar o que não precisa de adeptos

Para ser verdade.

Mas as multidões não se medem em números

Medem-se em conveniência

E se já afogados estamos em mentiras

Porque não afogar-nos também em águas pútridas?


Talvez a inundação turva melhor reflicta

O que nas mentes de outras multidões revira.



Eu não sei, não vejo com olhos de contas

Nem sequer com olhos políticos,

Talvez por ignorância não se me infiltrem

As verdadeiras razões pela razão dentro.

Não é talvez a verdade o centro de qualquer disputa

E as mentiras têm valor relativo

Assim como a vida tem valor relativo

E rios e beleza têm valores relativos.


Relativamente à inutilidade de protesto pela verdade

Não tenho muitas dúvidas

Nem a considero relativa.

Destruam, inundem e matem

Mas que é óbvio que o fazem

Não tentem contestar.

Não precisam de o fazer de qualquer forma.

Quem contesta e fala e protesta

Não tem que o fazer mas fá-lo

Porque acredita,

Até que finalmente lhes mostram

Que há outras evidências mais relevantes

Que as evidências óbvias claras manifestas.»


Escrito por Ana Paula Sardoeira

Sem comentários: