domingo, 24 de maio de 2009

Por um Tâmega livre - Sou um rio

Sou um rio

No passado fim de semana convidaram-me para palestrar sobre a canoagem e a minha relação pessoal com os rios num evento cultural em Mondim de Basto. Partilho convosco as minhas palavras.

Por um Tâmega livre.


Rio
Eu sou um Rio
Sou uma catedral da água
Água
Sou uma igreja da gravidade
Fim das partículas
Gotas e areias

Rio
Eu sou uma viagem
Uma viagem onde haja um rio
Em lugar nenhum e em toda a parte
Sou um conhecer-te
Sou mil conversas com quem tamém és tu
Cá, ali, atrás daquele monte, naquela cordilheira
No Chile, na Suiça ou aqui mesmo Cabril

Rio
Sou um viver a cultura que encerras
As mil pessoas
Irmãs e desconhecidas que vivem e são como eu e como tu …. São um rio.
Sou uma comida de mil sabores
Sou uma festa
Sou uma noite a ouvir-te… incessantemente!

Rio
Eu sou um rio
Sou uma canoa
E sou levado na corrente, permanente, permanente
Sou hoje um regato, amanhã um ribeiro, e depois um rio…
Sou um ser vivo
Um ser com personalidade própria
Independente na minha essência

Rio
Amigo e inimigo
Converso contigo
Jogo contigo
Luto contigo
Muitas vezes em guerra contigo
Hematomas, arranhões, cieiro e Herpes e deslocações
Sempre vencido, sempre vencido

Rio
Eu sou um rio
Sou as primeiras chuvas de Outuno
Frias
Que me põem as águas turvas
Sou os arcos alagados de uma ponte
Sou um céu carregado de negro
Sou um medo, uma angústia, um desconforto

Rio
Ontem também fui um rio
Fui as últimas águas da Primavera
Que me rebentam as nascentes
Que escorregam nas pedras limpas e quentes
E me põem de cores brancas
No Maio
Sou a dança dos rápidos
Sou o verde dos salgueiros
Sou amarelo das Urzes

Rio
Eu sou as tuas rochas
Que te prendem e encalham
Sou os granitos do Rio Beça
Duros, lisos e lavados
Imensos
Sou mil piocas
Sou mil cascatas
Sou os xistos do rio Olo
Mais moles
E sou as tuas escadarias de águas infinitas

Rio
Sou um rio desconhecido
Onde todos me vêm das margens
E onde poucos me percorrem as artérias
Sou o carro em contra-mão
Errático e sistemático
Nas pontes
A cada instante
A olhar-te
Sempre, sempre, sempre...

Rio
Sou as lágrimas das fugas e das perdas
Dos amores e ódios
Sou uma escola
Sou uma casa
Mil e um açudes
Sou o rio Tâmega, o Cabril, o Olo, o Louredo
Sou o Cabrão, Ribeira de Cavez de Fermil e Moimenta
Sou o Beça, sou Poio

Rio
Sou um Silêncio
Um silêncio na imensidão do teu ruido
Sou uma nota musical, uma pauta
Sou uma dança nas tuas águas
Sou uma música

Rio
Eu sou um rio.

Jorge Rabiço Costa, in aquavertical - 15 de Maio de 2009

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