quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

BARRAGENS - ALDEIAS SUBMERSAS: Aldeia da Luz continua à procura de alma



BARRAGENS - ALDEIAS SUBMERSAS

Aldeia da Luz continua à procura de alma

Entre a demolição da antiga Aldeia da Luz e o realojamento dos moradores de Ribeira de Pena, no Tâmega, existem 18 anos de diferença. Os problemas que ainda hoje os alentejanos enfrentam serviram de exemplo ao autarca do Norte. Ganharam as pessoas afetadas pela barragem ainda em construção. Os outros, os que mais sofreram com o Alqueva, continuam a pensar no que perderam. E empenham-se, novos e velhos, por se apaixonarem por um lugar que ainda não sentem como seu.


Foto: Artur Machado/Global Imagens

O vulto de um homem aparece recortado à porta de um casão, no lusco-fusco de uma fria quinta-feira de janeiro. Horácio Guerra fuma lentamente um cigarro. Parece sincronizado com a lua, que entre as nuvens espreita e intensifica a aura singular de silêncio da aldeia. Olha desconfiado. Prevê que lhe queiram remexer nas memórias. Avalia e aceita. Guarda a beata e recolhe-se, deixando lá fora o que resta de um céu alaranjado que mergulha rápido num enorme lago. Aquele que submergiu, há quase 18 anos, o lugar onde jaz a antiga Aldeia da Luz, no Alentejo profundo.
Horácio, 62 anos, conserva fresco cada um dos momentos que constituíram a saga da construção da barragem do Alqueva. A mudança da velha para a nova Aldeia da Luz avançou e recuou devido a muitos fatores. Políticos e económicos, fundamentalmente. Desde que tem consciência, os locais viveram na incerteza. “Décadas de impasse. Não se construía na aldeia velha, porque diziam que ela ia abaixo. Não podíamos construir na nova, porque o projeto não avançava. E assim as pessoas foram ficando na expectativa, com as vidas em suspenso, por não saberem o que lhes ia acontecer.” Quando ganhou a Junta de Freguesia da Luz, no mandato de 1990 a 1994, o alentejano teve a sorte, ou o azar, de apanhar os anos em que o projeto da barragem voltou em força a ser discutido.
Os planos eram antigos. Em 1957, o projeto do Alqueva era referido como um Plano de Rega do Alentejo. Só 11 anos depois se começou a falar da construção da barragem. Até 1975 as obras andaram num pára-arranca. Nesse ano, foi tomada a decisão histórica governamental de dar um real início aos trabalhos. O que aconteceu um ano depois. Fizeram-se as obras preliminares, interrompidas entre 1978 e 1993, altura em que o projeto foi retomado ao ser criada uma Comissão Instaladora da empresa do Alqueva, que preparou e lançou os primeiros concursos públicos internacionais para tomar conta do empreendimento.

Horácio Guerra teve um papel fundamental na mediação entre a população, os governantes e a EDIA. Tenta, todos os dias, apaixonar-se pela nova Luz (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


Em 1995, a sociedade anónima de capitais públicos EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva) fica com a missão de conceber, executar, construir e explorar o empreendimento. Parecia cada vez mais certo que a aldeia iria desaparecer no fundo da tão ambicionada reserva de água. Mas andava tudo a passo de caracol.
Horácio já não estava em funções quando os seus conhecimentos da tipologia das habitações da aldeia antiga, adquiridos com o tempo, foram requisitados para ajudar nos processos de negociação entre luzenses e EDIA.
Assumiu o papel de mediador. “Não foi fácil. Custava a entrar na cabeça das pessoas que não se podiam construir casas velhas numa aldeia nova. Ou seja, os vizinhos que antes tinham piores condições iam beneficiar com a mudança, teriam casas melhores e os que ficaram igual não se conformavam. Pensavam, ‘a mim não me tiraram terreno, mas deram mais ao outro’.” Isto aliado a erros grosseiros nas obras resultou num cocktail explosivo. “Nada ajudou.” Como a nova aldeia era maior, os vizinhos estavam mais afastados, o que não foi benéfico e aumentou quezílias. “A forma de habitar mudou por completo. A união desta comunidade pequena desapareceu.”

Francelina Marques, Camila e Josefa Farias passam os dias no lar da aldeia. Recordar o passado faz parte da rotina. E do passado faz parte a mudança de casa, há 18 anos. (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


Por parte da EDIA também havia limitações de compreensão. “O apego que as pessoas tinham às suas casas, aos espaços de toda uma vida, às configurações, ainda que fossem piores do que aquelas que iam ganhar, também não era coisa que os engenheiros e arquitetos percebessem com facilidade. O povo teve de aceitar a contragosto o que lhes foi imposto.”
Conhecendo o caso da Luz de ginjeira, João Noronha, presidente da Câmara de Ribeira de Pena, bateu-se, recentemente, o mais que pôde “pelo futuro das famílias afetadas no concelho por força da construção da recente barragem de Daivões, incluída no Sistema Eletroprodutor do Tâmega”. Recorde-se que o enchimento das albufeiras de Daivões e de Alto Tâmega, barragens concessionadas à Iberdrola, vai ter impacto em 52 casas, 43 das quais ficam situadas no município de Ribeira de Pena. Há dois meses, as negociações estavam tensas e o autarca chegou mesmo a ameaçar a elétrica espanhola com medidas drásticas, caso o realojamento não fosse resolvido “com dignidade”, antes de junho deste ano, data prevista para o enchimento da albufeira de Daivões.
Hoje, o processo está etiquetado como “concluído”, diz o edil. “A Iberdrola assegurou que as famílias já não serão realojadas em contentores e vai assegurar o pagamento de casas que serão arrendadas no centro da vila.” À Iberdrola caberá também “o pagamento das novas habitações a construir nos terrenos que o Município vai disponibilizar a um preço simbólico”. As indemnizações inicialmente propostas, que moradores e autarquia não aceitaram, sofreram alterações quando a empresa avançou com compensações adicionais, “que tornam os valores justos” para quem passa “por uma situação desta natureza”. “Há coisas que o dinheiro não paga, como os transtornos da mudança, físicos e psicológicos, mas pode amenizar e foi por isso que lutámos tanto.”

Horácio Oliveira, aos 90 anos, lembra-se bem de como foi ser obrigado a sair da terra, onde construiu grande parte das memórias (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


Na nova Luz, a luta foi grande, mas serviu de pouco. Na mudança, foram entregues 250 parcelas, entre casas e quintais. Onze estabelecimentos comerciais e 16 equipamentos coletivos. “Respeitou-se o que foi possível na construção. E o que ficou por fazer, a EDIA pagou para que se concluísse. E para que se refizesse o que estava errado.” A questão é que “o dinheiro não ajudou a minimizar o desgosto nem a resolver a maior parte dos problemas estruturais do novo povoado”. Por isso, passados tantos anos, o sentimento de pertença ainda não é igual. “Eu próprio tento apaixonar-me por esta aldeia, mas não consigo esquecer a outra”, resigna-se Horácio. O Guadiana está ali, mas já não corre. Ficaram as lembranças. “Temos casas melhores, mas com muitos problemas na rede de água e nos saneamentos.”
A região, situada no sudeste de Portugal, caracteriza-se pela escassez de água, baixa densidade populacional e por ser uma das mais desfavorecidas da Europa. Fatores que justificaram a construção da barragem de Alqueva e a formação da albufeira, que visava abastecer a população local, promover a rega agrícola e o consequente desenvolvimento do turismo.
A 8 de fevereiro de 2002, antes mesmo de os habitantes mudarem de casa, fecharam as comportas para dar início ao enchimento da albufeira. O novo lugar, construído de raiz, estava a dois quilómetros do original. Camila Farias, quase nos 90, mostra um sorriso afável, mas com laivos de desgosto. “A mudança foi muito triste.” Na cadeira ao lado, no Lar de Idosos da aldeia, está a “mana”, Josefa, a mais nova de dez, que se recorda bem da antiga aldeia, “muito pobrezinha”, onde passaram a juventude. “Éramos todos muito amigos. Ainda somos, apesar de tudo.” A amiga de ambas, Francelina Marques, 87 anos, acena com a cabeça, “custou a todos, custou a todos”.

Duarte Godinho tem 29 anos e não quer deixar a Luz. Por isso, ajuda a mãe, Albertina, no negócio de família que já vem desde a velha aldeia, a Padaria Grilos (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


Numa outra sala, as memórias também seguem vivas. “Se me levantasse daqui agora e andasse até à aldeia antiga, saberia exatamente onde era a minha casa.” A primeira à esquerda. “Foi a última a ser deitada abaixo”, garante. Uma demolição a que assistiu. “A minha mulher muito chorou”, recorda Horácio Oliveira, 90 anos. “Mas tivemos de sair, não nos deram opção.” Da nova casa, “muito mal feita”, também a primeira à esquerda, quem vira para Mourão, lembra os dias passados a dar corda à aceitação. “Nunca nos vamos adaptar totalmente.”
Francisco Oliveira, o filho, completou cinco mandatos ao leme da junta de Freguesia da Luz. “Quase 20 anos, de 1994 a 2013. Estive aqui em todos os momentos.” Aos 57 anos, confessa que a primeira vez que concorreu à Junta foi quase por brincadeira. Formação académica não tinha. De obras nada percebia. E a construção da nova aldeia a principiar. “A população só acreditou que a coisa ia sair da gaveta quando em 1997 o Jorge Sampaio, presidente da República, veio cá.” Em Janeiro de 1998, foi a vez de António Guterres, primeiro-ministro. No local, reafirmou a intenção “irreversível” do seu Executivo em concretizar um projeto que considerou ser “um gesto de solidariedade nacional para com o Alentejo”. Esperava-se que o projeto fosse representativo da vontade da população, já que a submersão dos terrenos dos cerca de 400 habitantes da Luz constituiu o principal impacto social da construção do Alqueva.
“Mal ergueram as primeiras casas percebeu-se que as janelas, portas e cómodos tinham sido feitos sem ter em conta a dimensão da mobília das pessoas, portanto as gentes não conseguiam sequer entrar com elas em casa.” Foi um crescendo de problemas e reivindicações. “Não foi bem feito. E as asneiras não foram só nas casas. Fizeram um pavilhão gimnodesportivo sem bancadas ou cadeiras para as pessoas se sentarem. Uma praça de touros sem curros”, anexo onde os animais são mantidos. E a questão do cemitério continua a ser um dos problema mais graves. “Na altura avisámos o arquiteto contratado pela EDIA que era necessário haver um espaço livre de 2,05 metros de comprimento, para que todos os caixões transladados coubessem nos ocos sem problema. Não nos deram ouvidos.”
Joaquim Chilrito e a mulher Donzília estão emigrados na Suíça. Regressam à Luz todos os anos. Ficam na casa que não querem vender. Marco Vieira, serve-os no café. Não é filho da terra, mas percebe o apego do casal (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


Dos 250 cadáveres exumados do antigo cemitério, 45 não couberam nas novas sepulturas. Os erros foram assumidos num relatório preliminar elaborado por Francisco Moita Flores, coordenador científico do processo de trasladação. As irregularidades obrigaram “à drástica medida de remover para urnas zincadas”, de menor dimensão, “todos os cadáveres em putrefação ativa, sepultados desde 1995”.
O caixão do avô da atual presidente de Junta, Sara Correia, entrou nessa lista. “Imagine-se o cheiro que era a cada enterro por causa da mudança das urnas.” Além disso, Pedro Pacheco, o arquiteto responsável pelo projeto, não terá acautelado o futuro de uma aldeia envelhecida. “Não fizeram um cálculo para 50 anos. Agora, não há onde enterrar gente. É preciso expandir o cemitério e, como o projeto tem direitos de autor, o arquiteto não admite que seja outra pessoa a tratar da ampliação, que basicamente é abrir uma das paredes para que o cemitério possa crescer. Assim, vamos pagar 150 mil euros, sendo que a EDIA não comparticipa nem com metade.” Um custo que terá de ser maioritariamente suportado pela Câmara de Mourão. “E andamos há mais de três anos em negociações.” Essa não é a única contrariedade que Sara Correia tem para resolver na nova Luz, que conta hoje com cerca de 320 residentes.
Regresso no tempo. A 19 de novembro de 2002, o primeiro-ministro Durão Barroso inaugurava às pressas uma obra inacabada. Debaixo de forte chuva e de protestos. As queixas de outrora são as mesmas de hoje. Má drenagem de esgotos, problema com a rede de águas. Paredes tortas, portas empenadas, chãos a levantar. Isaltino Morais, à época ministro das cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, garantiu: as situações “hão de ser reparadas”. Isto depois de descerrado o monumento de reconhecimento ao sacrifício da população luzense. Um quadrado de mármore no Largo 25 de abril que, como naquele dia, nada diz à população.

A igreja de Nossa Senhora da Luz é uma réplica da original, existente na antiga aldeia, fundada no século XV. A construção no novo lugar não estava inicialmente prevista (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


No fim da cerimónia, Durão Barroso referiu que o projeto orgulhava o país. “Quem dera aos portugueses que todas as aldeias fossem como a nova Luz.” Mas os habitantes nunca concordaram. “De 15 em 15 anos, é preciso abrir o chão por causa dos esgotos”, afirma a atual autarca. “E continuamos a consumir o dobro da água expectável porque há desperdício por canos mal unidos.”
Outro “exemplo vergonhoso” do que se passa é o IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) relativo aos terrenos rústicos, destinados a fins estritamente agrícolas e para cultivo. “Passados quase 18 anos, as pessoas continuam a pagar IMI dos terrenos da velha Luz, submersos pela albufeira do Alqueva, porque ainda não foi feito o cadastro das terras correspondentes na nova aldeia.”
As pessoas “usam as terras, mas, se amanhã quiserem vender, é um problema, porque não estão em seu nome”. E quem recebe terras como herança não possui um documento que legitime a sua propriedade. “Não há qualquer registo nas Finanças. Sendo que o Estado sai lesado com isto.” Um problema que já passou por por vários ministros com a pasta da Agricultura. “Já recorremos ao presidente da República e tudo. Só nos falta ir ao Papa. É uma luta inglória.”
Há cinco anos, o Ministério da Agricultura referia que o emparcelamento rural da freguesia se encontrava “concluído”. No entanto, admitia que se encontravam “por elaborar alguns dos autos”, estando a Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural “a trabalhar para obter os elementos necessários para a elaboração dos títulos de propriedade”.
Mais de metade dos 155 registos estão ainda por concluir. Porque “a regularização destes processos é morosa, sobretudo dada a escassez, na maioria dos autos pendentes, dos comprovativos de propriedade”. Sara Correia contraria. Antes da mudança, “foi tudo apurado e escrito”, para que, na “nova” Luz, fosse entregue aos proprietários a terra a que tinham direito.

O monumento ao sacrifício dos luzenses foi inaugurado por Durão Barroso, em 2002. O povo preferia trocá-lo pela resolução dos problemas que ainda enfrenta (Foto: Artur Machado/Global Imagens


A presidente de Junta não se detém nas críticas. “Nem nós temos as coisas bem. A aldeia é da EDIA, a praça de touros também. Há lotes urbanos que na prática são nossos, mas que estão em nome da EDIA e assim, legalmente, pouco podemos fazer para os dinamizar em prol da população, ou para exploração turística.”
Diogo Nascimento, engenheiro da EDIA, afirma que a empresa, atualmente, só “é proprietária de cinco imóveis na aldeia”. Três destinam-se a “colmatar necessidades de habitação de alguns moradores, e um posto de venda de medicamentos, cedido à Junta de Freguesia”; outro serve de “residência artística do Museu” e o restante é utilizado “pela Câmara Municipal de Mourão”.
Francisco Oliveira, o ex-autarca, pensa o mesmo. “Dediquei-me de alma e coração a esta causa. Quase não vi as minhas filhas crescer. Sacrificámo-nos e não valeu a pena. Tínhamos moinhos, praia fluvial, fontanários e perdemos tudo. Isso revolta-me. Perdemos habitantes. Perdemos comércio. Eu bati palmas atrás do Durão Barroso no dia da inauguração da aldeia. Acreditei que o esforço que fizemos ia ser recompensado. Foi a mim que me prometeram. Hoje, sinto que lesei uma população sem ter tido noção disso. Onde estão os dois milhões de euros que tinham para investimento e emprego na Aldeia da Luz? Revolta-me. O Alqueva pode ter melhorado outras terras, mas a nossa não.”
Duarte Godinho tinha 11 anos quando a Luz mudou de lugar. Pareceu-lhe uma brincadeira. Agora, se se põe a pensar, dá-lhe as saudades. “É a nostalgia. Recordo-me da aldeia toda tal como era.” Bem mais mexida. “Hoje, os cafés estão fechados, não aparece ninguém.” O jovem ajuda no negócio que os pais já geriam na Luz velha, a Padaria Grilos. Aos 29 anos, não doura a pílula. “Esta é a minha aldeia, mas não parece ter futuro. Não se vê ninguém na rua.” São poucos os jovens que ficam. Duarte resiste. “As minhas perspetivas são de aqui continuar com o negócio de família. Algo que vai dando porque também entregamos pão nas aldeias vizinhas.”

Inaugurado em 2003, o Museu da Luz é o único espaço que ainda vai atraindo turistas. Foi projetado no quadro de medidas compensatórias à população, com a construção da barragem (Foto: Artur Machado/Global Imagens)

A Sociedade Recreativa Luzense faz o que pode. “Decidimos recomeçar os jogos de futebol.” Os resultados não dão orgulho. Hão de melhorar com o desinferrujar das articulações. “Para já, damos algum ânimo à terra. Os mais velhos têm aparecido para assistir, o que nos incentiva.” O olhar recai sobre a mãe, Albertina, 54 anos. “Agora já me começo a conformar. Estou menos zangada pelo que nos fizeram. Mesmo assim, quando sonho, não é nesta aldeia que me vejo.”
A obra prometia trazer esperança ao Alentejo. O que mais apareceram, nos primeiros tempos, foram curiosos. “Eram romarias. Entravam pelas portas sem pedir. Parecíamos animais de zoológico. Fizeram isso tantas vezes que o povo fechou as portas à chave e mal saía à rua.”
Passada a novidade, só o Museu da Luz, aberto em 2003, que reúne toda a informação sobre a relocalização da aldeia, através de fotografias, vídeos e coleções etnográficas e arqueológicas, atrai o turismo. Diogo Nascimento, o engenheiro da EDIA que é também diretor e coordenador do espaço, sob alçada da empresa, refere que até finais de 2019 recebeu 158 220 visitantes. 9 938 só no ano passado. Mas é gente que, sem mais atrações, segue viagem e não dinamiza a economia.

O cemitério continua a ser um tema sensível na Luz. A luta da Junta de Freguesia, da envelhecida aldeia, tem sido conseguir ampliá-lo, uma vez que já não dispõe de espaço suficiente (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


No restaurante de grelhados da afilhada, Joaquim Chilrito, 55 anos, abre o baú das memórias. Saiu da Luz para a Suíça, aos 23 anos. “Todo o sítio era outro. Mal cheguei, peguei num barco, mais um amigo, e fomos dar um mergulho no lugar da aldeia velha.” Irritado, levanta a voz e o dedo. “Escreva aí, a antiga aldeia não foi submersa, foi demolida! Não existe! A única coisa que está submersa são as ruínas do castelo da Lousa.” Passada a irritação volta ao mergulho. “Foi triste. Eu cresci entre a aldeia velha e os arrabaldes. Saíamos da escola e do trabalho e íamos diretos ao Guadiana. Pescávamos peixes à mão. Isto agora é um lago. Até o peixe tem outro sabor.” É nas rotinas que mais nota diferenças entre o antes e o depois da barragem.
“As pessoas vinham para a rua conviver no verão, até à uma da manhã. Quando ganharam casas novas, com quintais, deixaram de sair. Individualizaram-se. Ficaram tristes. Fechadas. Recolhidas. Se calhar, até para meditar no que lhes tinha acontecido. As pessoas precisaram, e ainda precisam, de tempo para se adaptarem ao que aqui se passou.” A perda do rio tal como era mudou até as segundas-feira de Páscoa. “Só ficava na aldeia quem não se mexesse. Íamos todos para a água. Havia malandrices. Inocentes.” E por causa desse dia também havia depois falatório.

Mariana Carrilho tem mais memórias da nova aldeia do que da velha. Está convencida que o povo pode fazer as pazes com o passado (Foto: Artur Machado/Global Imagens)


É mesmo como dizem – a esperança é a última a morrer. “Há dois ou três anos que se nota outra vez algo diferente. O povo começa a mentalizar-se. Regressam, aos poucos, à rua.” A união, essa, nunca morreu. “As pessoas podem nem se falar. Mas se surgirem infortúnios defendem o outro com o que podem. É complexo, mas é assim. E é por isso que eu gosto desta terra. Somos todos família uns dos outros.” Uma última pergunta leva Joaquim a lançar um olhar cauteloso à mulher, Donzília. “Voltar a viver aqui? O pensamento não me sai da cabeça, mas não sou só eu a decidir. Temos aqui uma casa. Até já ma quiseram comprar, mas eu não a quis vender. Sou daqui. Não nasci nesta Luz, mas sou deste povo.”
De dentro do balcão, Nídia Suzano, 37 anos, e o companheiro Marco Vieira, donos do único restaurante da Luz, são responsáveis por renovar o convívio tardio na aldeia. “Às vezes, há mais gente do que de dia.” Nídia é filha da terra. Marco acabou perfilhado. “Queríamos abrir um negócio. Isto estava fechado e arriscámos.” Um passo dado há dois anos, que, até agora, “tem superado as expectativas”.

Nídia Suzano regressou à aldeia para abrir um restaurante. Ela e o companheiro mantêm as portas abertas à noite para fomentar o convívio entre os habitantes (Foto: Artur Machado/Global Imagens)

“É normal que os mais novos não rejeitem a aldeia como os mais velhos”, explica Mariana Carrilho, 27 anos, diretora técnica do Centro de Dia e Lar da Granja há seis. Vai e vem todos os dias para a freguesia do concelho de Mourão. “Não me vejo a morar noutro sítio. Não vivi naquela Luz até aos oito anos, mas sinto-o como minha.” É a voz doce da jovem que dá vida ao documentário “A Minha Aldeia Já Não Mora Aqui”, da autoria de Catarina Mourão, que pode ser visto no Museu da Luz. “Há coisas que me vão ficar marcadas na memória. Como as pessoas, mesmo tendo esvaziado as casas antigas, fazerem questão de as varrer e limpar, sabendo que iam ser demolidas.”
O namorado ainda hoje lhe diz que não percebe. “Eram as casas delas. Viveram ali toda a vida. Saíram porque foram obrigadas. Só quem passou por aquilo é que sabe. Deixar a casa limpa é tentar encerrar o assunto.” O seguir em frente ainda é difícil por haver questões por resolver. A esperança são os jovens. “Estamos a construir tudo de novo. Já temos mais memórias da nova aldeia do que da velha.” O sentimento de pertença vai fazendo o resto. “Tem havido mais atividades, as comissões de festas são dinâmicas e isso faz a diferença. Se houver mais momentos que juntem as pessoas estou convencida que recuperaremos parte daquilo que um dia fomos.”

Outras aldeias submersas

1954
Vilar da Amoreira
Era uma localidade de Portela do Fojo, na Pampilhosa da Serra. Ficou submersa pela barragem do Cabril.
1955
Barca do Bispo
A aldeia também ficou debaixo de água, por causa da barragem da Bouçã.
1971
Vilarinho das Furnas
A aldeia de Campo do Gerês, uma freguesia de Terras de Bouro, está submersa pela barragem de Vilarinho.
1980
Breda
Pertencia à freguesia de Sobral, em Mortágua. Foi demolida para a construção da barragem da Aguieira.
1981
Foz do Dão
A aldeia da freguesia de Óvoa, em Santa Comba Dão, desapareceu quando se construiu a barragem da Aguieira, que a deixou submersa.
, in Notícias Magazine - 5 de Fevereiro de 2020

1 comentário:

Paul Delphine disse...

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