sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Barragens e nova ponte sobre o Tejo obrigam o país a consumir mais energia

Estudo
Barragens e nova ponte sobre o Tejo obrigam o país a consumir mais energia
As barragens acrescentam um por cento à procura de energia final

Os grandes projectos de obras públicas defendidos pelo Governo de José Sócrates contradizem os seus próprios compromissos de política energética e ambiental e, em vez de porem o país a poupar, vão levá-lo a consumir mais energia, a emitir mais dióxido de carbono e a gastar mais dinheiro.
Esta é a ideia de fundo de um estudo elaborado pelo presidente do Geota (associação ambientalista), Joanaz de Melo, que pega em dois casos concretos - terceira travessia sobre o Tejo e o programa nacional de barragens - para demonstrar que se trata de opções "insustentáveis" face à sua factura energética e ambiental.

Segundo os cálculos de Joanaz de Melo, professor de Engenharia do Ambiente na Universidade Nova de Lisboa, os 700 milhões de euros de investimento previsto para o tabuleiro rodoviário da terceira ponte sobre o Tejo vão provocar, a prazo, um aumento de um por cento da procura de energia final, e mais um por cento de emissões de CO2, por via do novo tráfego que vai gerar. O programa de novas barragens (as 10 barragens do novo programa, mais o Baixo Sabor e Ribeiradio) vai custar, por sua vez, três mil milhões de euros e vai também contribuir com o acréscimo de um por cento da procura de energia final. Ora, diz o ambientalista, com significativamente menos dinheiro, com medidas dirigidas para a eficiência energética para vários sectores económicos e com tempos de retorno também menores, o país pode poupar até 30 por cento da energia que consome hoje. Com cerca de oito vezes menos capital (400 milhões de euros) do que o necessário para realizar o programa de barragens, garante que o país pode reduzir a procura de energia final em 1,3 por cento, reduzindo a energia mal gasta. Comparando com os tempos de retorno dos grandes investimentos públicos, de 40 anos na travessia do Tejo e de 70 anos nas barragens (correspondentes aos prazos de concessão), o do investimento em eficiência energética é sete a 10 vezes inferior.

Na análise que fez ao projecto da terceira travessia do Tejo, Joanaz de Melo não questiona a componente ferroviária, que, considera, "tem méritos claros", apesar de "precisar de ter estudos mais aprofundados". Já a decisão de incluir, de imediato, um tabuleiro rodoviário na travessia, com o pretexto de melhorar a mobilidade na cidade assim como os atravessamentos para a Margem Sul, onde estará o novo aeroporto, é descrito como "insustentável" em todos os níveis ambientais, sociais e económicos.
Joanaz de Melo recupera o exemplo da Vasco da Gama, para lembrar que, em apenas dois anos, esta segunda travessia aumentou em 23 por cento o tráfego na região, admitindo "ser muito provável que a terceira travessia venha a ter o mesmo impacto". "Para além da poluição ambiental e sonora, esta nova travessia vai trazer um aumento de seis por cento no tráfego global em Lisboa e corresponde, por si só, a um aumento de perto de um por cento no consumo de energia e nas emissões de CO2". No ensaio, Joanaz de Melo argumenta que se as acessibilidades do Barreiro a Lisboa vão sair melhoradas, todos os exemplos pré-existentes demonstram que as auto-estradas radiais (como as que estão previstas na Margem Sul) vão acelerar a dispersão urbana e o uso transporte individual. "O efeito marginalmente positivo da Ponte 25 de Abril [onde há transportes públicos a circular] vai desaparecer com o congestionamento de tráfego na cidade de Lisboa", alega. Também o argumento de ser necessário garantir acessibilidades ao novo aeroporto é apontado como "falível", pelo facto de a Vasco da Gama não só ser a travessia mais próxima de Alcochete como por ter ainda capacidade para suportar uma ligação ao aeroporto nos próximos 20 a 30 anos.

A decisão de construir um tabuleiro rodoviário na terceira travessia é caracterizada como "desastrosa" do ponto de vista financeiro por força da exclusividade da concessão atribuída à Lusoponte. "Não é possível montar nenhum project finance para pagar este tabuleiro, e terão de ser os contribuintes a arcar com esta despesa, ao mesmo tempo que vão pagar mais portagens para compensar a Lusoponte", sintetiza.

Faltaram alternativas
Apesar de as novas grandes barragens terem sido apresentadas com o objectivo de reduzir as emissões de gases de estufa e de equilibrar o sistema eléctrico nacional com a produção eólica e térmica, o autor diz que "não foram identificadas nem avaliadas alternativas" que permitissem objectivos mais ambiciosos para o mesmo esforço financeiro (três mil milhões de euros) e não foram tidos em conta critérios de sustentabilidade social, ambiental e económica, pelo que considera que o programa "é ineficaz quanto aos objectivos". As 12 novas barragens devem permitir uma capacidade hídrica adicional de 1,1 gigawatts, para atingir o total de sete gigawatts em 2020.

Se, por um lado, o programa vai estimular o consumo de mais energia (sem emissões), quando o discurso oficial é no sentido de uma maior eficiência do mesmo consumo, por outro, o esforço financeiro necessário é elevado para o resultado final projectado. "A relevância nacional do programa de barragens é mínima", conclui Joanaz de Melo.
Embora defenda que o programa não terá os benefícios ambientais pretendidos, concorda que estas grandes centrais "ajudam na operação das redes eléctricas", para responder aos períodos de pico e ao equilíbrio do sistema com a produção eólica e térmica. Contudo, considera que estes problemas podem ser "significativamente minimizados" por via da eficiência energética. Consumindo menos, o país reduziria os seus picos também. Quanto à ligação à restante produção, defende que o Governo devia apostar em maior capacidade de bombeamento das barragens e no reforço das já existentes, algo que o plano não estudou.

Luísa Pinto, Lurdes Ferreira, in Público e ecosfera - 6 de Agosto de 2009

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