quarta-feira, 6 de maio de 2015

José Morais Clemente Teixeira: No Regresso ao Pó das Estrelas

José Morais Clemente Teixeira (13/05/1945 - 05/05/2015)
No Regresso ao Pó das Estrelas
A chegada ao mundo ocorre desejada como o sol despontando pela manhã atrás das encumeadas do Marão, a dissipar a noite e a novena estendida no chão de orvalho. 

Das incertezas do dia faz-se o tempo comum do permanecer, num trânsito breve e esvoaçante que devolve às alturas a depuração das formas e dos modos semeados, em partilha. 

Florescem memórias cruzadas no sonho e na saudade da comunhão, dissimuladas como se não houvera bem maior além dos territórios da posse e da conquista. Nos silêncios reservam-se instâncias finas e translúcidas indecifráveis, códigos de aproximação ao magma e ao éter onde se desenha o voo suave das gaivotas ao entardecer.

Quando as portas do mundo se encerram para um amigo quebram-se os cristais e as porcelanas ressonantes nas fibras descidas da alma à terra. Em piras e archotes de fogos voláteis se evolam vidas fraternas levadas por instantes eternos como se o próprio mundo não passasse de uma última fasquia ou uma derradeira ilusão colectiva de perdas e danos a superar sem entender as causas e os porquês.

Um amigo que parte é uma parte de nós que se perde arrancada ao parco elenco daqueles que nos são íntimos e sempre fazem por nos preservar.

Não sei por que assim é, mas sei que é assim para José Clemente (13/05/1945 - 05/05/2015), amigo que deixa amigos por todas as causas que se cruzaram em sua vida, sem lhe deixar tempo a comemorar o septuagésimo aniversário. Sempre disponível para todas as lutas pacíficas em se que revela a grandeza dos homens simples, capaz para os trabalhos mais ousados nas dificuldades, leva consigo a coroação terrena espelhada em Amarante na organização do empresariado comercial e industrial e nos eventos de Verão, no incremento e consolidação do futebol amador, da comunicação social à causa pública autárquica, no envolvimento pela valorização do Hospital, no atendimento aos mais desfavorecidos e aos idosos, contra a extinção da Linha do Tâmega, com os olhos, o pensamento e a acção colocados no rio Tâmega em frontal oposição à barbaridade política das barragens, como a que um alargado grupo de cidadãos empreendeu no Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega (MCDT).

Da sua entrega colhemos o seu exemplo vivificante e sem temor, de uma entrega invulgar na comunidade, num elogio permanente e sincero à vida que agora retoma uma outra dimensão da existência onde todos tivemos origem com o pó das estrelas.


José Emanuel Queirós - 6 de Maio de 2015

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