sábado, 11 de abril de 2009

Rompimento de barragem

Rompimento de barragem

A construção de uma barragem num rio envolve sempre o risco de colapso, mesmo que a mesma tenha sido construída com o melhor conhecimento técnico. Este risco pode ser minimizado quando existe um programa preventivo de segurança de barragem, mas nunca eliminado. A chance de rompimento é pequena, da ordem 1 para 1 milhão para bons projetos (um pouco inferior ao risco de queda de um avião), mas não é nulo. Este risco aumenta quando procedimentos preventivos não são rotineiros e varia com o tipo de barragem, altura, características do vertedor, entre outros.
Três processos são fundamentais na análise do rompimento de uma barragem: (a) formação da brecha (no tempo) e o hidrograma correspondente para jusante; (b) propagação do escoamento pelo vale de inundação e estimativa dos impactos; e (c) a onda negativa para montante e seu efeito (geralmente pequeno).
Sobre os impactos a jusante no vale de inundação deve-se estimar a velocidade e o nível do escoamento, a ação sobre a população e infra-estrutura e desenvolver um plano de zoneamento preventivo e um sistema de alerta para sua eventual ocorrência. O dimensionamento dos dispositivos de segurança como o vertedor deve considerar a análise de risco do rompimento e os padrões de dimensionamento devem ser rigorosos quando envolvem riscos a vidas humanas.
As principais causas de rompimentos de barragens baseados em estatísticas mundiais são: 34% devido a falta de capacidade dos vertedores; 30% devido a problemas de fundação e 28% devido a percolação do maciço. Foram estimados que 60% das quase 12 mil mortes que ocorreram em grandes eventos a nível mundial são resultados de apenas três eventos em países diferentes: Itália, Estados Unidos e Índia.
Geralmente estes elementos são regulados por legislação e normas específicas. Nos Estados Unidos na década de 70 ocorreram vários eventos de rompimento como Tenton Dam em Idaho, o que motivou a regulação sobre o assunto. Atualmente todos os Estados americanos possuem regulação sobre o assunto. Na França isto também ocorreu depois de um grande evento da década de 60 e na Argentina, depois da privatização dos anos 90.
Infelizmente não existe no Brasil nenhuma regulação ou prevenção sobre o assunto. Muitas vezes este assunto é confundido com a segurança de barragem. O tema de segurança procura evitar o rompimento e a análise do rompimento procura mitigar os efeitos da efetiva ocorrência do colapso, planejando o operador para sua mitigação. Estima-se que um programa preventivo pode-se evitar pelo menos 30% das mortes.
Apesar do baixo risco de rompimento de uma barragem, a grande quantidade das mesmas mostra que a sua ocorrência não é trivial. Vários rompimentos ocorreram ao longo do tempo no Brasil. Um dos principais casos ocorreu no rio Pardo, São Paulo em 20/01/1977, quando a barragem da Usina Armando Salles de Oliveira rompeu, produzindo uma onda de cheia que rompeu a barragem de Euclides da Cunha. No último ano, com base no noticiário identificamos pelo menos seis rompimentos de barragem de pequeno porte.(4 em 2008). Estes dados podem estar incompletos, pois foram obtidos de uma rápida pesquisa na Internet. Estes eventos ocorreram em açudes e PCHs em pequenas bacias, onde existem dados precários e projeto de qualidade duvidosa.
O potencial impacto deveria fazer parte do termo de referência de um EIA Estudos de Impactos Ambientais, mas por falta de desconhecimento as entidades ambientais não exigem este estudo, apesar do risco e das implicações que envolvem.
Imagine-se como um operador de uma barragem que fica sabendo da meteotorologia que pode estar chegando o hidrograma de projeto ou superior. Você saberia quem evacuar? Quais os danos que seriam produzidos para prevenir, para bloquear estradas, retirar pessoas, etc, ou seja atitudes de um país civilizado. Será que estamos esperando um desastre de grandes proporções para termos uma regulação sobre o assunto? Já fazem pelo menos 15 que venho tentanto alertar para o assunto em palestras e cursos. Esta é mais uma tentativa.

Carlos E. M. Tucci, in Blog do Tucci - 2 de Agosto de 2008

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