
TÂMEGA - DEBATE
A BARRAGEM DE FRIDÃO - QUE CONSEQUÊNCIAS E QUE FUTURO PARA A POPULAÇÃO DO VALE DO TÂMEGA
PCTP/MRPP (Vale do Tâmega) - 30 de Agosto de 2008
«Se a lei for cumprida nenhuma barragem na bacia do Tâmega será construída» MCDT

Assim será com a construção da barragem que a EDP tem projectada há mais de duas décadas – em projecto! – para construir em pleno leito do rio, na freguesia de Fridão, concelho de Amarante.
Esta é uma matéria que tem 14 anos de
ampla abordagem pública e outros tantos de alheamento pela parte das autarquias
do Baixo-Tâmega, a barragem de Fridão versus «cascata do Tâmega».
UMA PATRANHA NACIONAL CHAMADA «PNBEPH»
Com recurso à figura do «Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEPH)», mandado elaborar pela empresa Redes Energéticas Nacionais, SGPS, S.A., em 2007, os decisores encontraram a fórmula precisa para dar cunho nacional à conhecida pretensão da progenitora Energias de Portugal, SA. (EDP) de submeter o rio e a bacia do Tâmega aos ditames do betão e da electricidade.
Para todo o vale do Tâmega, e para Amarante em particular, o «Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEPH)» é uma enorme patranha nacional, extremamente nociva, patrocinada e adoptada pelo XVII Governo Constitucional para justificar antigas apetências construtoras e energéticas sobre os rios e os recursos da água, há muitos anos conhecidas.
Conhecendo o meio físico do vale do Tâmega e os contextos ambientais e sociais para os quais as cinco barragens são projectadas, quando confrontados com a «Avaliação Ambiental» do «PNBEPH», ninguém pode deixar de constatar que a decisão do Governo pela construção de mais cinco barragens na sub-Bacia do Tâmega assenta numa peça meticulosamente urdida para subverter o sentido do seu propósito originário: o documento ignora fundamentos geomorfológicos estruturais e estruturantes (condicionantes naturais), como é a existência da falha sismo-tectónica percorrida pelo Tâmega, e usa recurso ao impiedoso argumento de que «não há sobreposição a áreas classificadas».
Por isso, a concessão dos licenciamentos à construção de mais cinco barragens hidroeléctricas no rio Tâmega pelo INAG/Ministério do Ambiente, não leva em conta as classificações recaídas sobre o espaço regional e os recursos locais que vai afectar, nomeadamente:
Primeiro – O leito do rio Tâmega e toda a rede hidrográfica é «reserva ecológica nacional (REN)» (Decreto-lei n.º 93/90 de 19 de Março – Anexo I – al. a) – número 2);
OBS: Os regulamentos dos PDMs são claros: «é proibida a alteração do leito das linhas de água, a destruição total ou parcial da vegetação ribeirinha existente, bem como todas as intervenções ou actividades que contribuam para a poluição directa ou indirecta das suas águas ou que de algum modo dificultem ou impeçam o regime de escoamento natural (normal ou extraordinário) das mesmas, excepto operações de limpeza e regularização integradas em planos ou projectos aprovados pelas entidades competentes; bem como não é permitida a construção de edifícios e infra-estruturas, com excepção de construções ligeiras de carácter não definitivo de apoio às actividades agrícolas turísticas e recreativas».
Segundo – A Bacia Hidrográfica do Tâmega é «zona sensível» em virtude de se «revelar eutrófica» (Decreto-lei n.º 152/97, de 19 de Junho);
Terceiro – O Plano de Bacia Hidrográfica do Douro (Decreto Regulamentar n.º 19/2001, de 10 de Dezembro – Parte VI – al. n)) estabelece e classifica a sub-Bacia do Tâmega em:
a)
«ecossistema a preservar» – o «rio
Tâmega desde a confluência com a ribeira
de Vidago até Mondim de Basto e principais afluentes: rios Olo, Covas e Bessa».
b) «ecossistemas a recuperar» - o «sector superior: desde a fronteira até à confluência do rio principal com a ribeira de Vidago», e o «sector terminal: desde Mondim de Basto, confluência da ribeira de Cabresto, à confluência com o Douro».
Quarto – As cabeceiras do rio Olo, até à proximidade de Ermelo (Mondim de Basto) é «área classificada» do Parque Natural do Alvão (Decreto-lei n.º 237/83, de 8 de Junho), onde são proibidos os «actos ou actividades» de «captação ou desvio de águas» (al. h) – número 1 – artigo 6.º).
OBS: O «Relatório Ambiental» do PNBEPH, refere que o empreendimento de Gouvães «não afecta a integridade do SIC Alvão/Marão.» (sic), apesar de contemplar o transvase do rio Olo para o rio Torno (albufeira de Gouvães).
Quinto – a Bacia do rio Tâmega é «zona protegida» (Lei n.º 58/2005, de 29 de Dezembro - artigo 4.º - al. jjj) – Lei da Água).
Sexto – o vale do rio Tâmega está classificado de «corredor ecológico», colocado na categoria de «zona sensível», por promover «a conexão entre áreas florestais dispersas, favorecendo o intercâmbio genético, essencial para a manutenção da biodiversidade» (Decreto Regulamentar n.º 41/2007 de 10 de Abril – al. b) – número 5 - artigo 10.º - Plano Regional de Ordenamento Florestal do Tâmega [PROF T]).
- Concessionando a
urbanização em pleno leito fluvial do Tâmega – com a construção betonada de
fábricas produtoras de hidroelectricidade – por via da alienação das águas, do
rio e da qualidade da paisagem do vale, como pode o País aceitar o sacrifício e
a sorte que estes decisores vão sujeitar todo o vale do Tâmega e as pessoas que
lhe dão vida, colocando em risco a cidade de Amarante, e degradando as
condições naturais e o ambiente de Mondim de Basto, em troca por mais 163 MW de
potência a instalar no escalão de Fridão?
- É este o modo mais
evoluído, em que se traduz a gestão dos recursos naturais e da Água, de que o
«socialismo», em Portugal, dá prova na Europa da União – salvo as devidas
proporções – mas em nada diferente à orientação de princípio seguida pelo
Partido Comunista Chinês no rio Yangtze?
- É este o sinal maior de respeito que o Governo português pode dar pelos autóctones e residentes na sub-região do Tâmega, e na consideração que têm pelas justas preocupações da nossa comunidade regional do Tâmega, o primeiro-Ministro e o Ministro do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional?
- De que valerá o que disse o ministro
do mau Ambiente, se nada for feito na região para impedir a brutalidade deste
propósito Governamental?
- Quem é que poderia e
quem deveria – de há muito! – assumir a iniciativa de impugnação judicial de
cada uma das diversas fases que o processo das barragens comporta, desde a fase
de «Programa» (14 de Novembro), de Declaração Ambiental (7 de Dezembro), de «Concurso
Público» (29 de Abril), até à adjudicação do «contrato de concessão de captação
de água e de construção da barragem» (17 de Julho), em Fridão?
- De que valem e para que servem as
moções deliberadas na Assembleia e na Câmara Municipal de Amarante, contra a
construção da barragem em Fridão?
RIO TÂMEGA - BARRAGEM DO TORRÃO
TÂMEGA (AMARANTE) – AGOSTO 2008 – OS DESTROÇOS DE UM RIO
ONDE PÁRA A
«AUTORIDADE NACIONAL DA ÁGUA»?
Contrastando com os objectivos da ONU consagrados na Declaração do Milénio, nomeadamente quanto ao princípio enunciado para «pôr fim à exploração
insustentável dos recursos hídricos» (n.º 23 - IV, p.6), e ante a
necessidade em «garantir um uso eficiente, racional e parcimonioso deste
recurso» como linha orientadora do «Programa Nacional para o Uso Eficiente da
Água (PNUEA)» (Resolução do Conselho de Ministros N.º
113/2005, de 30 de Junho), em Portugal, o
ano 2008 vai ficar marcado pelo negócio dos rios e dos recursos da água.
A destruição da
paisagem, a implosão de ecossistemas, o agravamento exponencial das condições
de segurança, serão consequências imediatas da alienação das águas de
superfície resultantes da adjudicação bilionária das concessões de barragens
(mais 5 para a sub-Bacia do Tâmega!). Esta é a forma subsidiária muito peculiar
de o Governo português, através da acção competente do Ministério do Ambiente,
do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional, e do seu Instituto da Água, I.P. (INAG), promover a utilização «eficiente» dos recursos hídricos nacionais,
visando «uma nova abordagem aos temas da água em Portugal, no quadro do
conceito de desenvolvimento sustentável».
A Lei-Quadro da Água (Lei n.º 58/2005, de 29 de Dezembro) – transposta da Directiva n.º 2000/60/CE, do PE e do Conselho, de
23 de Outubro de 2000, ao fim de dois anos de incumprimento – estabelece o
sistema institucional da «gestão sustentável das águas», e confere ao Instituto da Água, IP. (INAG) a condição de
Autoridade Nacional da Água (al. a)
- n.º 1 - artigo 7.º).
Em plena Década Internacional para a Acção «WATER FOR LIFE» (2005-2015), proclamada pela Assembleia-Geral das Nações Unidas, e
no decurso do «Ano
Internacional do Saneamento Básico» (2008),
quando em Portugal a Autoridade Nacional da Água/Ministério do Ambiente, na missão de «garante da política nacional da
água» está mais empenhada e envolvida em concessionar barragens para a Bacia do
Tâmega do que em monitorizar a qualidade da água, coordenar, cumprir e fazer
cumprir o quadro jurídico para sua utilização em concordância com o princípio
do «desenvolvimento sustentável», de que vale o regime em vigor
estabelecido a partir do conceito da «gestão sustentável da
água»?
TENDO OS
DESTROÇOS DO RIO TÂMEGA POR FUNDAMENTO
Ano após ano, o rio Tâmega, às portas de Amarante, soçobra na albufeira
do Torrão à carga de nutrientes que lhe é vertida no leito.
Amarante não é
excepção de imposturice. Por um lado, o rio Tâmega é reconhecido como um Valor,
vital para o concelho e a região, por outro, a cidade alivia no rio os efluentes que poderiam afogar a ETAR de Amarante já obsoleta e pronta a ser
desmantelada – concluída e inaugurada apenas há 9 anos (Fev.1999), com
«equipamentos de última geração vindos expressamente de Inglaterra».
Chegados ao Verão, eis que, invariavelmente, a extensa cultura de algas azuis que prolifera
em toda a «zona sensível» (Decreto-Lei n.º 152/97, de 19 de Junho) da albufeira criada
pela Barragem do Torrão dá um colorido
muito verde, intensamente pastoso e pestilento às águas, no troço do rio
imediatamente a jusante da cidade de Amarante.
Abaixo, as imagens captadas no vale do Tâmega (Agosto de 2008), documentam os destroços compósitos de um rio que durante milénios até aos nossos dias teve apenas água na sua genuína composição fisico-química.
José Emanuel Queirós, in PlenaCidadania - 28 de Agosto de 2008
Eu confesso que não faço ideia se a rapaziada do Bloco de Esquerda tem razão no seu protesto, mas que eu achei graça ao cartaz que encontrei numa rotunda de Amarante, lá isso achei.Entrevista [TSF] a Pedro Arrojo, professor e presidente da Fundação Nova Cultura da Água.