CARICATURA DE EDUARDO BATISTÃO
MALABARISTAS EM NEGÓCIOS DE RIOS DE ÁGUA
A estória da ilustração reporta a uma matéria de natureza política de amplitude nacional com repercussões seriíssimas no território, à escala regional e local.
A temática envolvente prende-se com o denominado Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEPH), uma patranha apresentada ao país por mão do incumbente Governo, em que pontifica o comprometido Instituto da Água, e a ele levado por interesses rendeiros das empresas eléctricas REN e EDP, sobre recursos estratégicos dos rios e dos seus caudais.
Retomado um antigo projecto remanescente do Estado Novo, sem atendimento a qualquer condicionante de pendor ambiental, a bacia do Tâmega ressurge completamente artificializada em cascata, numa sucessão de barragens e albufeiras, comportando 5 (cinco) centrais previamente negociadas entre a EDP e a IBERDROLA, para além da que, em 1989, no Torrão (Alpendorada) tratou de afogar o curso inferior do rio.
Neste contexto, desde há alguns anos, uma cidade ribeirinha no Baixo Tâmega anda embrulhada em decisões e recuos, quanto à criação de uma guilhotina que sobre ela impende, armada nos jogos palacianos alfacinhas, decorrente da eventual autorização de construção de uma central hidroeléctrica, seis quilómetros a montante da urbe, em pleno leito do rio Tâmega.
De pouco vale que Amarante exista e seja habitada, tal como de nada conta para os interesses em jogo que o rio corra em vale estrutural formado a partir da evolução de uma falha tectónica, onde a cidade tem os alicerces edificados. Pensar em segurança regional e local acaba por ser uma inconveniência que não gera lucros a ninguém e se os habitantes amarantinos permanecerem embalados no sofisma colonizador dos artífices do trapézio, muito menos será questionada a subsequente qualidade de vida da comunidade e dos seus cidadãos.
Com a eventual construção da barragem em Fridão (Amarante) - comportando o topo do coroamento da edificação, e do ancoramento das águas, cerca de 100 metros acima da cota de base da cidade de Amarante, as águas eutrofizadas da albufeira de jusante (Torrão) tenderão a subir cerca de três metros, afogando margens, ilhas e cobrindo parte dos alicerces de uma velha ponte que é Monumento Nacional (Ponte de São Gonçalo).
A legislação nacional e da Europa comunitária atende, sobremaneira, às questões ambientais, da Água, da segurança e da preservação da paisagem como recursos inalienáveis, mas a pressão construtora e lobística das empresas das energias, mascaradas dos argumentos da redução das emissões de carbono (Quioto) e do aproveitamento das energias renováveis determinaram que o Ministro do Ambiente (Francisco Nunes Correia) passasse a fazer o discurso que competiria muito mais ao seu congénere da Economia, ficando sem haver quem verdadeiramente defenda o ambiente nesta região.
O Presidente do Instituo da Água - que é nomeado pelo Ministro do Ambiente - adequou a sua acção, não no sentido da gestão da água como recurso escasso e necessário à vida para fins múltiplos, mas como fonte potencial exclusiva geradora de energia.
De cócoras, entre os compromissos que sustenta com a política do «seu» Governo e os que estabeleceu com a população de Amarante que o elegeu - fica o edil da Câmara Municipal de Amarante, prometendo à população que lutará contra a barragem, fazendo por que tudo não passe de um facto consumado, sem ondas que o comprometam, ajustado às manobras e aos malabarismos que os políticos em Portugal andam a fazer com os recursos da Terra e com o povo de Amarante.
Com o devido agradecimento pela permissão de uso do cartoon original ao seu autor, Eduardo Baptistão.
José Emanuel Queirós (MCDT) - 15 de Maio de 2008








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