RIO TÂMEGA - Barragem de Gouvães
O Rio Olo no Programa Nacional de Barragens
Tem vindo a ser alvo de debate, na região de Basto e Amarante, o «Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico». Muitos falam dele com alguma preocupação, e outros acreditam que a sua implementação trará benefícios para o Vale do Tâmega.
O programa das barragens não é um programa de
desenvolvimento desta região. É, sim, e tão só, um programa hidroeléctrico. Por
isso, considero que não faltam razões para as populações de Basto e Amarante
estarem apreensivas.
Para situar a
questão fulcral deste artigo de opinião e que tem a ver essencialmente com a
prevista “destruição” das quedas de água nas Fisgas de Ermelo, com base nos
documentos oficiais do «Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial
Hidroeléctrico» em execução, de seguida transcrevo alguns excertos do referido
documento que são, no mínimo, altamente preocupantes:
“A Barragem de
Gouvães ficará situada no rio Torno (troço de montante do rio Louredo),
afluente da margem esquerda do rio Tâmega (bacia hidrográfica do rio Douro), a
cerca de 1,8 km da localidade de Gouvães da Serra. A albufeira terá uma pequena
capacidade de armazenamento em face dos caudais afluentes.”
“O aproveitamento
integrará ainda um sistema de derivação para reforço dos caudais afluentes com
origem nas ribeiras de Poio, Olo e
Viduedo, constituído por três pequenas barragens e respectivos túneis de
derivação.”
“...com um
comprimento total de 15.5 Km. A contribuição desta derivação para o escoamento
afluente é de cerca de 69 % do escoamento total...”
“... Fazem ainda
parte do circuito as derivações do rio
Olo com cerca de 7.8 Km...”
Perante este quadro
de referência, não restam dúvidas que o desvio de água do rio Olo faz parte
integrante do projecto do aproveitamento hidroeléctrico de Gouvães.
Ora, entre o que
está escrito e o “diz-que-disse”, vai a grande diferença entre o que pode ser
irreversível (destruição das quedas de água) e o que eventualmente é esperado.
Tal situação, a
manter-se e a ser executada, configura-se um verdadeiro atentado ao património
natural que são as Fisgas de Ermelo, o “monumento” maior do Parque Natural do
Alvão, referência paisagística regional e nacional e que marca o concelho de
Mondim de Basto em particular.
Aliás, como é do
conhecimento geral, as quedas de água das Fisgas de Ermelo são as maiores
quedas de água de Portugal e uma das maiores da Europa. Como se, por si só, não
bastasse (para que nunca alguém se lembrasse de as destruir), são parte
integrante do Parque Natural do Alvão, que, sendo uma área protegida, deveria estar “incólume” destas tropelias
ambientais que o Programa Nacional de Barragens comporta na bacia do Tâmega.
O desvio da água do
rio Olo – projectado para perto do limite da freguesia de Lamas de Olo (Vila
Real) com a freguesia de Bilhó (Mondim de Basto) – irá provocar uma fortíssima
diminuição – se não interrupção – do caudal do Olo, a montante das quedas de água,
tornando-se destruidor do cenário natural que todos conhecemos.
O “coração” do
Parque Natural do Alvão é justamente o rio Olo, a montante e a jusante das
Fisgas de Ermelo. Ora, o que está em causa é precisamente toda a área afectada
a jusante de Lamas de Olo. Isto é, toda a área do concelho de Mondim até à foz
do Olo, em Amarante.
Isto é gravíssimo!
O que está consagrado no «Programa Nacional de Barragens» é, nem mais, “matar”
as Fisgas tal como elas são (e elas valem pelo que são!); e é, também, destruir
toda uma paisagem que tem por epicentro o rio Olo, desde Ermelo ao rio Tâmega,
em Vila Chã do Marão (Amarante). Todo um território onde existe agricultura à
beira-rio, sistemas tradicionais de regadio, sistemas tradicionais de moagem,
pesca, enfim, meus senhores: VIDA!... e vida quer dizer seres vivos: animais,
vegetais, homem e actividades, que irão ter as suas condições naturais
afectadas, por força do transvase do caudal do Olo para Gouvães da Serra – Vila
Pouca de Aguiar.
Mas os prejuízos
sobre o rio Olo não ficarão por aí. Como exemplo de outra consequência
negativa, deve ser referido que, ainda há pouco tempo – pela Portaria n.º
206/2008, de 25 de Fevereiro – foi criada a zona de pesca reservada em
toda a extensão do rio Olo. É caso para perguntar: a jusante das Fisgas, com o
desvio das águas para a albufeira de Gouvães, este rio vai continuar a ter as
condições excepcionais para a pesca de salmonídeos?... já que a montante da
represa de Lamas de Olo, com as águas paradas, essas mesmas condições deixarão
de existir.
Como português,
entendo o problema da factura energética que o Estado tem em mãos. Considero,
no entanto, que é imprescindível verificar a relação custos/benefícios numa
escala integrada de valores. É que, nem sempre os meios justificam os fins. E o
que se vai passar na nossa região com o implemento do «Programa Nacional de
Barragens», é que iremos ter sacrificados valores de importância suprema, com
que veremos mutilada, de forma madrasta e cega, a nossa identidade territorial.
Já não bastava que
nos fossem “afogar” o Tâmega em
Mondim, com a albufeira que se formará na barragem de Fridão (Amarante). Tudo
se conjuga, também, para que nos vão “secar”
o Olo, com o transvase da
sua água para a barragem hidroeléctrica de Gouvães.
É
caso para dizer: Socorro! Acudam-nos!... que por aqui ainda há vida!
Como
mondinense, eu não me conformo.
E
você?
Alfredo Pinto Coelho (Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega)
Mondim de Basto . Novembro de 2008








Sem comentários:
Enviar um comentário