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domingo, 6 de setembro de 2009

Rio Tâmega em Amarante - «o rio ideal para um filme de terror»!

«O rio ideal para um filme de terror»!
RIO TÂMEGA EM AMARANTE

Esta manhã, ao ver imagens e o texto do Blogue ANABELA MAGALHÃES fiquei com um misto de sensações, que passam pela náusea, repúdio e choque! Como é que em pleno século XXI assistimos a situações destas, um autêntico crime contra a Mãe - Natureza.
É urgente uma política de intervenção no Rio Tâmega, não haja a menor dúvida. Um processo que terá que passar pela despoluição do Rio e criar praias fluviais com condições. Infelizmente, o Rio Tâmega tem sido alvo de notícias pelas piores formas nos últimos tempos. Creio que, uma forma até de captar turistas para esta zona, passará por um maior investimento na requalificação destes espaços.
É um autêntico rio de um filme de terror. Reparem nas raízes das árvores, mortas, velhas, secas, o rio verde, sim é isso mesmo, é nojento!
Esta vergonha está por todo o rio logo a seguir à açude. Vai pela estrada junto ao rio em direcção ao Marco. A seguir à ponte da autoestrada vai encontrar uma estrada à direita em direcção ao rio, ainda em Cepelos. Mete por aí abaixo e pára na margem de um rio podre.
Hoje deve estar ainda pior. Fizeram ainda hoje, uma descarga na albufeira e o rio está muito baixo. As poças infectas devem ser mais do que muitas. Levem calçado apropriado para andarem à vontade!

Ricardo Pinto, in C.P.G, Gondar - Amarante - 6 de Setembro de 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

RIOS DA NOSSA VIDA: TÂMEGA VERSUS BARRAGENS

RIOS DA NOSSA VIDA: TÂMEGA VERSUS BARRAGENS (SEM VÍRGULAS)

Ao que se julga tudo começou no mar. No início tudo era água e do seu seio emergiu vida. E de tal modo que em cada 100kgs de massa humana pelo menos 60 são peso de água. A partir de então tudo se foi processando a um ritmo para lá do humano paulatina e sabiamente ao longo de milhões e milhões de anos até que chegámos à Mesopotâmia estávamos no VI milénio a.c.

Numa faixa de terra entre os rios Tigre e o Eufrates (é também este o significado da palavra “Mesopotâmia” Entre-os-Rios), lembraram-se um belo dia de armazenar para anos de menos fartura agrícola o excedente da produção. Assim quando as colheitas fossem menos boas haveria para trocar ou melhor “vender”.

Estava dado o primeiro passo para o surgimento da moderna economia tal como a conhecemos hoje. Certamente menos sofisticada infinitamente mais transparente e justa que a dos nossos dias mas nos princípios fundamentais era a mesma.Com o decorrer dos tempos a troca directa de produtos deu lugar à moeda. Estava inventado o dinheiro…

Nasceram e morreram civilizações e os rios lá continuaram na sua tarefa paciente de moldar…. Terras pedras e gentes.

Há estudos a provarem que muitos homens e mulheres que em alguma altura das suas vidas tiveram um rio por perto são mais propensos a grandes coisas ou coisas grandes. Amarante por exemplo uma pequenina aldeia-cidade: Teixeira de Pascoaes Amadeo de Souza-Cardoso António Carneiro Acácio Lino António Cândido o próprio S. Gonçalo Agostina Bessa-Luís Alexandre Pinheiro Torres Eduardo Pinto Ricardo Carvalho Nuno Gomes António Pinto vários campeões mundiais na área da canoagem Ana Moura e perdoem-me os de quem não me consegui recordar. Todas estas personalidades… será ao Tâmega e aos seus nevoeiros que ficaram a dever parte do seu sucesso? Talvez sim talvez não…

Viver junto aos rios nem sempre foi seguro já que por lá abundavam os animais ferozes e outros perigos que espreitavam por detrás dos densos arvoredos. Por isso muitos foram os povos que em tempos recuados preferiram habitar os pontos mais altos das regiões numa clara atitude de auto-defesa.

Mas os rios cujas águas corriam lá em baixo ao longe não paravam de acicatar a curiosidade dos nossos antepassados: fosse porque engrossassem repentinamente os seus caudais umas vezes tornando-se ruidosos e agressivos arrastando consigo tudo o que se lhes opusesse: fosse porque outras vezes deslizassem pachorrentos transformados em imensos espelhos de água reflectindo o Sol e a Lua divindades por todos adoradas e temidas emprestando-lhes também a eles rios vida e misticismo próprios.

Quando os materiais utilizados no fabrico de armas se tornaram mais resistentes maneáveis e eficazes aqueles homens movidos pelo espírito de descoberta não levaram muito tempo a descer dos seus abrigos das alturas os “crastos” acabando por se fixar perto das margens num dia-a-dia bem mais generoso: havia caça materiais para a construção de abrigos conheceram os frutos descobriram a agricultura aprenderam a pesca construíram jangadas e depois barcos. Não mais pararam de subir e descer os vários cursos de água descobrindo trocando e misturando-se.

Não foi diferente com o rio Tâmega. Também ele foi idolatrado como um deus em determinadas épocas da sua existência. É sobre ele que quero escrever… para memória futura… agora que o vão amordaçar com a construção de quatro barragens.

Nasce na Serra de S. Mamede em Espanha correndo desde aí até ao Douro onde desagua em Entre-os-Rios numa extensão de cerca de cento e cinquenta quilómetros cento e trinta dos quais em território luso.

Não é um rio qualquer o Tâmega. De águas bravas rebelde e caprichoso corre por entre gargantas apertadas e encostas abruptas inacessível em muitos pontos do seu percurso. Mas quando se espraia como que a recuperar o fôlego faz a delícia de naturalistas pescadores amantes de desportos aquáticos campistas namorados e outros românticos pensadores.

Quem por aí se deixou envolver por ele não mais o esqueceu não mais o esquecerá.

Os reencontros sempre estarão carregados de emoções e recordações: o primeiro beijo os banhos retemperantes os momentos de meditação os silêncios os pássaros aquele barbo enorme os mabecos os javalis as rãs as noites mágicas da enguia a lua e as fogueiras que crepitavam até ao amanhecer.

Um dia tudo isto não será mais.

Restará apenas a memória de um passado submerso mas vivo. É a força dos Atlantes…

Jacinto Magalhães, in Amarante Jornal - 02 de Junho de 2009

domingo, 24 de maio de 2009

Por um Tâmega livre - Sou um rio

Sou um rio

No passado fim de semana convidaram-me para palestrar sobre a canoagem e a minha relação pessoal com os rios num evento cultural em Mondim de Basto. Partilho convosco as minhas palavras.

Por um Tâmega livre.


Rio
Eu sou um Rio
Sou uma catedral da água
Água
Sou uma igreja da gravidade
Fim das partículas
Gotas e areias

Rio
Eu sou uma viagem
Uma viagem onde haja um rio
Em lugar nenhum e em toda a parte
Sou um conhecer-te
Sou mil conversas com quem tamém és tu
Cá, ali, atrás daquele monte, naquela cordilheira
No Chile, na Suiça ou aqui mesmo Cabril

Rio
Sou um viver a cultura que encerras
As mil pessoas
Irmãs e desconhecidas que vivem e são como eu e como tu …. São um rio.
Sou uma comida de mil sabores
Sou uma festa
Sou uma noite a ouvir-te… incessantemente!

Rio
Eu sou um rio
Sou uma canoa
E sou levado na corrente, permanente, permanente
Sou hoje um regato, amanhã um ribeiro, e depois um rio…
Sou um ser vivo
Um ser com personalidade própria
Independente na minha essência

Rio
Amigo e inimigo
Converso contigo
Jogo contigo
Luto contigo
Muitas vezes em guerra contigo
Hematomas, arranhões, cieiro e Herpes e deslocações
Sempre vencido, sempre vencido

Rio
Eu sou um rio
Sou as primeiras chuvas de Outuno
Frias
Que me põem as águas turvas
Sou os arcos alagados de uma ponte
Sou um céu carregado de negro
Sou um medo, uma angústia, um desconforto

Rio
Ontem também fui um rio
Fui as últimas águas da Primavera
Que me rebentam as nascentes
Que escorregam nas pedras limpas e quentes
E me põem de cores brancas
No Maio
Sou a dança dos rápidos
Sou o verde dos salgueiros
Sou amarelo das Urzes

Rio
Eu sou as tuas rochas
Que te prendem e encalham
Sou os granitos do Rio Beça
Duros, lisos e lavados
Imensos
Sou mil piocas
Sou mil cascatas
Sou os xistos do rio Olo
Mais moles
E sou as tuas escadarias de águas infinitas

Rio
Sou um rio desconhecido
Onde todos me vêm das margens
E onde poucos me percorrem as artérias
Sou o carro em contra-mão
Errático e sistemático
Nas pontes
A cada instante
A olhar-te
Sempre, sempre, sempre...

Rio
Sou as lágrimas das fugas e das perdas
Dos amores e ódios
Sou uma escola
Sou uma casa
Mil e um açudes
Sou o rio Tâmega, o Cabril, o Olo, o Louredo
Sou o Cabrão, Ribeira de Cavez de Fermil e Moimenta
Sou o Beça, sou Poio

Rio
Sou um Silêncio
Um silêncio na imensidão do teu ruido
Sou uma nota musical, uma pauta
Sou uma dança nas tuas águas
Sou uma música

Rio
Eu sou um rio.

Jorge Rabiço Costa, in aquavertical - 15 de Maio de 2009

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O nosso rio [Tâmega]

O NOSSO RIO

O que vou referir é possível que fique na História triste de Amarante, porque se a Barragem do Torrão atingir uma cota alta, talvez os penedos com nome próprio, os lugares ribeirinhos, as ilhas, os canais, as praias, as golas e os açudes cantantes desapareçam para sempre, submerso pelas águas represadas.
Eu disse o nosso rio, porque todos nós, amarantinos, por enquanto, temos um bocadinho dele, como temos a nossa praia, a nossa ínsua ou a nossa Ilha dos Amores. As lavadeiras têm o seu lavadouro e, quem possui uma guiga, possui também na margem do rio uma árvore para a prender.
Até Pascoaes chamava seu a este Rio, pois diz num dos seus poemas:

... “Oh verdes águas do meu rio manso,
que os açudes não fazem revoltar...”

Verdes não por estarem poluídas, mas porque a luz coada através da vegetação verde das margens lhes dá uma bela cor esverdeada.
Que os açudes não fazem revoltar, porque passam suavemente por cima deles, sussurrando.
Mas deixemos por agora a poesia, para darmos um passeio de barco, vencendo as dificuldades naturais e a corrente, descendo o nosso Rio, como fiz muitas vezes, desde o açude de Frariz até ao Amarantinho. Para isso vamos seguir ao sabor da corrente, por entre margens de densa vegetação.
Deixando para tras o açude-cachoeira de Frariz, chegamos breve ao local onde está a ser construído o futuro Parque de Campismo, que ficará situado em óptimo e apropriado local. Logo adiante, à direita, podemos ver o conhecido Penedo da Rainha, impressionante pelo seu tamanho e na base do qual se podem descobrir algumas tocas de raposa. Mais abaixo, mas do lado esquerdo, temos as Veiguinhas que eram bonitas, mas agora não o são por terem sido ocupadas com instalações industriais. Ainda do lado esquerdo vemos o belo e agradável parque da Quinta da Costa Grande com altas e bonitas árvores, local que bem poderia ser aproveitado para fins turísticos. Seguindo sempre, aparece-nos, ainda do lado esquerdo, outro grande penedo, que até tem duas pranchas, de onde se pode saltar para a água, sem qualquer perigo, à sua volta, tem muita profundidade.
Sempre pelo meio e olhando agora para a direita, encontramos a Praia Aurora, a melhor, a única praia fluvial do nosso rio, onde a água não está poluída. Esta praia, com modernos e higiénicos balneários, tem um bar e tem o “penedinho”, meta inicial dos aprendizes de natação.
(Foto)
Ultrapassada a praia Aurora e as instalações de captação de água de abastecimento público, encontramos à nossa direita a conhecida Porta do Barco, hoje uma das entradas para o restaurante do Parque de Campismo. Era por esta porta que os frades saíam para embarcar e irem cultivar a Quinta de Frariz, onde criavam gado, colhiam boas hortaliças e tratavam das vinhas, que produziam excelentes vinhos. Nesta quinta há ainda uma bonita Capela do tempo deles, hoje fechada.
Depois da Porta do Barco estamos noutro açude-cachoeira, o da Feitoria, onde a água salta, com maior ou menor ruído, conforme a época do ano.
Do lado esquerdo deste açude estão as celebradas azenhas da Feitoria, um dos motivos mais procurados pelos pintores do nosso rio.
Passando o açude, temos à direita o Parque de Campismo tão apreciado e frequentado, mas que esperamos seja dentro em breve transferido para o, não menos próprio, Lugar da Rainha.
Vamos desembarcar agora na bela Ínsua. Mas antes reparemos no original Penedo do Açúcar, assim chamado por ter sempre alguma areia ou pedra moída, ma sua parte superios. Se for de Verão é certo que encontramos em cima dele alguns campistas regalados a apanhar sol.
Façamos então uma incursão na nossa pequena Ilha. Esta começa logo abaixo do açude da Feitoria e tem um avegetação densa, com aspecto selvagem. No seu interior há canais, os canelhos, assim chamados pelos antigos, que a dividem conforme as cheias e as épocas do ano. Se tivermos a sorte e for no mês de Março, podemos descobrir os ninhos com as gansas, no choco e os gansos a vigiar.
Na ponta da Ínsua, se olharmos para cima, vemos a estrutura da nova ponte, com os pilares e as tais vigas, que referi.
No lado esquerdo da ponta da Ínsua encontramos a grande gola, muito difícil de transpor em barco a remos.
A partir daqui o rio alarga muito até à Ponte Velha, onde é mais estreito.
Antes da ponte temos, do lado direito, o mercado que não devia ter sido construído aqui.
Ainda à direita, no leito do rio, próximo da margem, podemos na época seca e se o rio for baixo, apanhar grandes mexilhões, cujas válvulas chegam a atingir 10 centímetros.
Deixemos para trás e no fundo os mexilhões do Tâmega, passando agora por debaixo do grande arco da Ponte Velha, não nos esquecendo, ao transpô-lo, quando estivermos bem a meio, de bater as palmas, falar alto ou dar um berro, para ouvirmos o eco responder com nitidez.
Passada a ponte, o nosso rio alarga de novo e torna-se mais calmo, o que nos permite olhar para cima e saudar as pessoas que estão na grade do Largo de S. Gonçalo a ver os barcos ou os gansos deslizarem no rio. Um pouco mais abaixo, à esquerda, encontramos o Penedo dos Três Irmãos, de triste memória, segundo a tradição.
Estamos então no Rossio das lavadeiras, que hoje raras vezes lá se encontram, mas onde, em contrapartida, podemos encontrar parte da «frota» dos grandes gansos brancos, que tão bonitos são.
Chegamos depois a novo açude cantante, o dos Morleiros. Mas não podemos deixar de ver, antes dele, a Ilha dos Amores, paradisíaco lugar do Parque Florestal.
Na parte direita deste açude há um canal para levar a água ao moinho da azenha dos Morleiros, água que o faz funcionar há mais de 200 anos.
No lado esquerdo do açude vemos um penedo conhecido pelo nome de Penedo das Pombas onde, de facto, se encontram sempre duas ou três pombas a beber ou a tomar banho e onde há uma videira bravia vivendo há muitos anos com raiz na areia numa fenda da rocha.
A água, ao saltar neste açude e nos rochedos que se lhe seguem, faz um ruído suave que se ouve bem até no Hotel Silva e na Rua Cândido dos Reis.
Entre o açude e a margem, do lado da Florestal, há o estreito pequeno a que se seguem as sete golas, muito perigosas para quem não souber nadar ou nadar mal.
A seguir ao açude temos a Praia dos Morleiros, que seria também boa se a água não estivesse poluída pelos esgotos directos das casas ribeirinhas.
Estamos agora na Varziela e no meio do rio surge-nos o Penedo da Moura que, quando criança, eu queria desencantar à meia-noite, conforme a lenda. Este é o último penedo, com nome, no curso do rio dentro da área da Cidade.
Chegamos depois ao Paúl e finalmente ao Amarantinho, nossa meta.
Depois deste passeio paradisíaco, vem à ideia uma poesia de Pascoaes, bem enquadrada neste ambiente:

“Azenhas, velhas mós de pedra dura;
Açudes, borbotões de espuma a cair;
Grupos de árvores, maciços de verdura,
Cercados da água a rir.”

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P.S. – Àqueles que ficaram admirados ou incrédulos ao saber que no nosso rio há grandes
mexilhões, digo que também há camarões, lampreias, enguias, irós, barbos, escalos, bogas e até já foram pescadas trutas no açude de Frariz.
Esta é a parte da fauna aquática, pois há outra que se alimenta desta: lontras, cágados ou sapo-conchas, pica-peixes, melros aquáticos, pitas de água ou mergulhões, etc., etc..

Luís van Zeller Macedo (1989), Pequena História de Amarante (pp. 21-24), edição autor, Amarante.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Rio Tâmega - Amarante: Até parece que conhecem o meu rio…

Rio Tâmega - Amarante
Até parece que conhecem o meu rio…

Até parece que entendem muito de rios, afluentes, algas, microrganismos nefastos sem grande importância. Até se crê que estudaram bem a lição e pesaram as consequências da construção de uma barragem, ao enaltecer os lucros e ao afastar a dimensão da catástrofe ambiental.
Até se concorda com os argumentos de que a agricultura nesta (e noutras) zonas já não dá nada e se compreende que, mediante a perspectiva de ganhar alguns trocados com as supostas indemnizações, se encham de esperança as almas vazias daqueles para quem o rio nunca deve ter servido senão para lhes fornecer água. Quem não consegue compreender que a palavra benefícios nunca poderá caracterizar o que está a ser projectado para o rio Tâmega é porque nunca o sentiu como seu.
Este rio faz parte da vida e está na alma de muitas gentes ribeirinhas que com ele partilharam momentos únicos de cumplicidade. Os beneficiados nunca serão os nossos filhos, porque se a barragem vier a ser construída jamais poderão experimentar a sensação de plenitude que se vive quando, na calma do seu leito, se mergulha e se encontra uma paz total de comunhão com a Natureza. Qual reencontro entre mãe e filho!
Toda a minha infância e toda a minha adolescência foram passadas ao lado do rio. No Inverno, o leito enchia-se com as chuvas e as águas que corriam dos caminhos. Espreitava à janela para ver se já tinha crescido mais um pouco, se o barco preso aos ramos dos amieiros ainda lá estava. À noite adormecia com o ressoar das águas agitadas que me embalava e garantia a normalidade da existência humana. 

Chegada a Primavera, olhava-O da mesma janela para ver o quanto tinha já descido, e contava os dias que faltavam para a chegada do tempo quente de Verão, para de novo nele alegrar os meus dias de menina. Nadei horas perdidas neste rio. Ri, joguei, brinquei. Faz parte de mim e de muitos outros para quem o anunciado desaparecimento do Rio Tâmega e todo o seu habitat será a morte de um ente muito querido. Guardo ternamente, com saudade, imagens do “meu” rio de quem aos poucos me fui afastando.
Após a construção da Barragem do Torrão suas águas começaram a sofrer com a estagnação das correntes e a poluição que nelas se foi acumulando. Aos poucos as praias fluviais foram-se tornando cada vez mais desertas. Sempre tive esperança que os senhores com poder neste país, nesta cidade, neste rio investissem dinheiros para despoluir e recuperar o rio Tâmega. Só esta é a atitude aceitável de quem ama – recuperar e proteger. Nunca destruir, como parece quererem fazer.
Enquanto amarantina, desgostam-me profundamente os falseados argumentos a favor da construção da barragem, pretendendo fazer-nos acreditar na suposta criação de empregos, miragens de negócios e receitas daí adjacentes que nos trarão o bem-estar e o progresso. O que eles ainda não descobriram é que essa felicidade é podre e não se renova com a passagem das estações, como a daqueles que amam verdadeiramente o rio.

Até parece que conhecem o meu rio…


Ana Catarina Costa (Amarante) - Dezembro de 2008